O cerco sobre o governo para expor o PT

O establishment, como expressão do poder econômico no país, embora tenha utilizado a mídia e a oposição conservadora para bater e pretenda continuar batendo sem piedade na presidenta Dilma, não tem interesse em seu impeachment. Mas tem todo o interesse em inviabilizar política e eleitoralmente a esquerda brasileira, especialmente o PT e o ex-presidente Lula.

O raciocínio da elite econômica é que é possível manter a presidenta fraca, impopular e sem apoio político por muito tempo. Nessa condição, segundo essa lógica, ela fará concessões em termos de marcos regulatórios que nenhum outro presidente faria, nem mesmo alguém com perfil liberal, como Aécio Neves.

Os exemplos de concessões seriam a mudança na legislação de proteção ao trabalhador e na economia. No primeiro caso, cederia na flexibilização da CLT e, no segundo, alteraria as regras do pré-sal, com mudanças como o fim do regime de partilha, a eliminação da exigência de conteúdo nacional na aquisição de bens e serviços pela administração pública, além de retomar o processo de privatizações e parcerias público-privadas, entre outros aspectos que atualmente dificultam a entrada do capital privado ou limitam sua margem de retorno.

A convicção deles é de que a tática de sangrar a presidenta será infalível. Não temem o que ocorreu com Lula em 2006, porque, diferentemente de Dilma, ele e seu governo se recuperaram por força do carisma pessoal do ex-presidente e por seu governo ter sido beneficiado pelo crescimento econômico mundial, o que, na avaliação deles, não acontecerá com a presidenta.

O fato de contarem com um Congresso conservador, do ponto de vista social, e liberal, do ponto de vista econômico, de um lado, e terem aliados e representantes de quatro setores da atividade econômica em postos-chave do governo, de outro, daria a segurança de que a agenda neoliberal teria duplo impulso – no governo e no Congresso.

No Legislativo federal, o poder econômico tem não apenas parlamentares submissos a seus interesses, mas também aliados na presidência das duas casas.

No Executivo, o setor empresarial indicou quase toda a equipe econômica: o setor financeiro, o ministro da Fazenda; o empresariado urbano e industrial, o ministro do Desenvolvimento, da Indústria e Comércio Exterior; o agronegócio, a ministra da Agricultura e Pecuária; e o setor do comércio, o ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa – todos empoderados e militando em favor das causas que defendiam quando eram empregados ou líderes classistas desses segmentos no setor privado.

A tática está posta. A ideia deles é forçar o governo a promover fortes ajustes e responsabilizar os partidos de esquerda, em especial o PT, por qualquer que seja o resultado das votações das medidas do ajuste. Se rejeitarem, sobretudo o PT será acusado de negar apoio ao governo e, se aprovarem, de reduzir direitos dos trabalhadores.

A ideia é explorar as supostas contradições e divergências entre o governo e seu principal partido de apoio. Com isso, pretendem apagar o legado de conquistas e denunciar a suposta contradição entre discurso e prática do governo, levando de roldão o PT, que seria obrigado a apoiá-lo inclusive nas medidas impopulares.

Como o governo, nos últimos doze anos, apesar de ter criado as condições para a ascensão social e promovido importantes avanços econômicos e sociais no país, negligenciou a politização da sociedade e sua conscientização cívica, o risco de que isso aconteça é grande. Ou seja, como não informou que o ambiente para a geração de emprego e renda, assim como para a criação e manutenção de programas sociais e de acesso à educação custeados pelo Estado, depende das opções ou políticas governamentais, perdeu base nesse segmento da população.

Com a alienação dos segmentos beneficiados, resta ao PT e aos partidos de esquerda ficarem atentos para fugir dessas armadilhas e mobilizarem suas bases sociais para alterar a correlação de forças, tanto no interior do governo como no Parlamento, sob pena de retrocesso nas conquistas dos últimos doze anos e do encerramento do ciclo de transformações promovido pelos governos democrático-populares.

Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista político e diretor de Documentação do Diap

 

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