Arranca a disputa presidencial norte-americana de 2016

Em 1º de fevereiro, no estado de Iowa, acontece a primeira convenção dos partidos Democrata e Republicano para definir os respectivos candidatos à eleição presidencial dos Estados Unidos da América, que ocorrerá em 8 de novembro. A sequência de estados a realizarem suas convenções e suas datas já é tradicional. As primeiras serão entre fevereiro e março e, embora não necessariamente decisivas, tendem a apontar aqueles com mais chance de se viabilizar, geralmente afastando os menos votados do páreo.

Os delegados em disputa são proporcionais à população de cada estado e the winner takes it all (“o vencedor leva tudo”). Dois estados são exceções, Maine e Nebrasca, onde são distribuídos proporcionalmente aos votos obtidos pelos candidatos. As regras que definem esse critério, bem como quem pode participar das prévias estaduais (se todo cidadão interessado ou apenas os filiados aos respectivos partidos), são definidas em cada estado.

Essa disputa culminará em julho, com a realização das convenções nacionais dos partidos, que referendarão os(as) candidatos(as) a presidente(a) que conquistaram a maioria dos delegados e seus candidatos a vice-presidente. Normalmente, quando se aborda o tema eleições estadunidenses, são referências os partidos Democrata e Republicano, pois o sistema eleitoral do país promove fortemente o bipartidarismo, apesar de haver candidatos por outros partidos menores ou independentes, sem, no entanto, a menor chance de se elegerem e que acabam sendo omitidos pela mídia.

Neste ano a disputa é sui generis. Pelo Partido Democrata há três candidatos lutando para vencer as prévias: Hillary Clinton, ex-senadora e ex-secretária de Estado, que em 2008 perdeu a indicação para o atual presidente Barack Obama; Bernie Sanders, senador independente pelo estado de Vermont, que se declara socialista; e Martin O'Malley, governador de Maryland.

A candidata Hillary Clinton tem estado à frente nas preferências dos democratas, embora a diferença em relação ao segundo colocado, Bernie Sanders, tenha caído de aproximadamente 20% para apenas 7%. Pesquisa realizada em meados de janeiro apontava 48% a 41%, o que levou a pré-candidata a subir o tom das críticas em relação a Sanders. Este, por sua vez, vence na base de dois por um entre os eleitores com menos de 30 anos de idade, apesar de 73% dos que responderam a pesquisa acreditarem que Hillary Clinton seja a indicada. O’Malley, aparentemente, não tem chance.

No campo republicano, competem doze pré-candidatos, mas os melhores colocados nas pesquisas são o empresário Donald Trump com 36%, o senador pelo Texas Ted Cruz com 19% e o senador pela Flórida Marco Rubio com 12%. Surpreendentemente, o governador da Flórida Jeb Bush, considerado inicialmente como o pré-candidato mais forte, não se revelou competitivo. Entre os entrevistados, 53% acreditam que Donald Trump levará a indicação.

Os dois republicanos mais bem colocados, Trump e Cruz, são também os reacionários mais radicais em relação a temas como migração, terrorismo, política externa, liberalismo econômico e questões sociais, o que lhes permite obter forte endosso dos membros da ala Tea Party do Partido Republicano. Recentemente, Donald Trump recebeu apoio da ex-governadora e candidata a vice-presidente na chapa de John McCain, em 2008, Sarah Pallin, uma das expoentes da extrema-direita do partido. Essa situação tende a afastá-los dos eleitores conservadores mais moderados e não é sem razão que algumas lideranças do Partido Republicano tentam construir uma candidatura menos extremista que possa dialogar com o eleitorado mais de centro, sem sucesso até o momento.

A hipótese da candidatura de Donald Trump é boa notícia para o campo democrata, pois as atuais pesquisas revelam que tanto Hillary Clinton como Bernie Sanders o derrotariam, apesar de a primeira afirmar em sua campanha pela indicação do partido que “o povo americano jamais elegeria um socialista”.

Essa afirmação é exagerada, pois o povo americano elegeu e reelegeu um negro, algo talvez mais inusitado. Agora, as opções no campo democrata são entre uma mulher e um socialista, na verdade um social-democrata, para disputar com a extrema-direita radical do lado republicano. Nunca houve uma mulher frente à Presidência dos EUA, e apesar de Hillary Clinton estar à direita de Bernie Sanders, particularmente na política externa, conforme pudemos ver quando ela foi secretária de Estado durante o primeiro mandato de Barack Obama, a disputa deste ano é entre algum nível de civilização e a barbárie total revelada pelas propostas de Donald Trump de expulsar os imigrantes latino-americanos e proibir o ingresso de muçulmanos nos Estados Unidos.  

Kjeld Jakobsen é diretor da Fundação Perseu Abramo

Creative Commons

Creative Commons
Revista Teoria e Debate. Alguns direitos reservados.