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Na França, as candidaturas à Presidência estão definidas

No momento, está claro que haverá segundo turno na disputa das eleições presidenciais francesas a realizar-se em 27 de abril, o primeiro turno, e 7 de maio, o segundo turno. Hoje a campanha eleitoral favorece a vitória da direita.

Os candidatos são, pelo centro e pela direita, Jacques Cheminade (Solidariedade e Progresso), François Filon (LR – Republicanos), Nicolas Dupont-Aignar (Levantar a República), François Bayrou (MoDem – Democratas) e Marine Le Pen (Frente Nacional). Pelas diversas tendências de esquerda temos Benoît Hamon (Partido Socialista), Jean-Luc Mélenchon (Partido da Esquerda), Yannick Jadot (Verdes), Nathalie Arthaud (Luta Operária) e Philippe Poutou (Novo Partido Anticapitalista). Emmanuel Macron, que já foi filiado ao Partido Socialista, se apresentou como candidato independente, por um agrupamento chamado Em Marcha.

Antes da definição das candidaturas houve uma série de movimentos com disputas em vários partidos, normalmente por meio de prévias, como a que definiu a candidatura de François Filon (direita) pelos Republicanos ao derrotar Alain Juppé e Nicolas Sarkozy. Por sua vez, François Bayrou, dos Democratas (centro-direita), havia prometido aliar-se aos republicanos se Juppé fosse o candidato, mas como isso foi descartado, nas prévias, ele também se candidatou. No Partido Nacional, de extrema-direita, não houve eleição interna alguma.

No campo da esquerda, a situação foi mais complexa. Houve uma tentativa inicial de compor uma Frente de Esquerda, na qual os socialistas na prática queriam atrair o apoio dos demais partidos para um candidato seu. Como não deixaram claro quem seria esse candidato, e que poderia ser inclusive François Hollande, o atual e extremamente impopular presidente, ou o conservador primeiro-ministro Manuel Valls, outros partidos, como os Verdes e o Parti de la Gauche (Esquerda), este em coalizão com o Partido Comunista Francês (PCF), decidiram lançar seus próprios candidatos, respectivamente Jadot e Mélenchon.

Posteriormente, Hollande anunciou que não concorreria e o PS realizou sua prévia. A militância resolveu escolher alguém de perfil mais identificado com os ideais tradicionais do partido do que Valls. O vitorioso foi Benoît Hamon, que tinha sido ministro da Educação de Hollande, mas deixou o governo por discordar de seus rumos conservadores e neoliberais, que se aprofundaram, particularmente quando Valls se tornou primeiro-ministro.

Uma das várias pesquisas eleitorais realizadas ao final de janeiro aponta o seguinte quadro entre os candidatos de maior preferência: Marine Le Pen com 25%, Filon com 21%, Macron com 20%, Hamon com 13%, Mélenchon com 10% e Bayrou com 5%. Os demais tiveram entre 1% e 2%.

Hoje a soma de todos os candidatos da direita é 54%, os da esquerda somam 26% e Macron, que é economista e banqueiro, como candidato independente obtém 20%. Ele foi ministro da Economia no governo Hollande, entre 2014 e 2016, quando Valls era o chefe do ministério, e apesar de se declarar liberal na economia tem posições favoráveis aos imigrantes e refugiados.

Ainda que a dois meses da eleição, a dúvida é sobre quem disputará o segundo turno com Marine Le Pen, se Filon ou Macron. As chances deste último aumentaram recentemente após o escândalo envolvendo Filon, denunciado por utilizar verbas do Parlamento Europeu para pagar salário a sua esposa, o que afetou o apoio que havia alcançado até então. Le Pen também foi denunciada por motivo semelhante, ao pagar seu guarda-costas com recursos do Parlamento Europeu, como se ele fosse um assessor parlamentar, mas isso parece não ter incomodado muito os seus eleitores.

Para os socialistas, depois do desastroso governo de Hollande, parece difícil chegar ao segundo turno, e o ambiente político na Europa não tem sido muito favorável a candidaturas mais à esquerda como a de Mélenchon.

No entanto, se Macron for ao segundo turno com Le Pen, pode se repetir algo semelhante a 2002, quando o republicano Jacques Chirac disputava a reeleição para presidente e teve como adversários principais no primeiro turno Jean Marie Le Pen, pai de Marine, pelo Partido Nacional, e Lionel Jospin pelo Partido Socialista. O segundo turno acabou se realizando entre Le Pen e Chirac, e este venceu com larga margem graças ao apoio do centro e de grande parte da esquerda, pois a campanha adquiriu um viés antifascista.

Mesmo sendo de direita, Chirac era oriundo do gaullismo tradicional e nacionalista no tocante às relações externas da França, o que facilitou compor a amplitude de seu apoio. Filon é conservador e neoliberal e se for ao segundo turno terá muita dificuldade em ampliar sua votação pela esquerda. Enfim, nunca a extrema-direita esteve tão próxima de governar a França. E se isso ocorrer, tendo Trump do outro lado do oceano Atlântico, o Brexit do outro lado do canal da Mancha, além de outras eleições neste ano no próprio continente europeu, como na Alemanha e na Holanda, profundas transformações podem ocorrer na Europa e no mundo.

Kjeld Jakobsen é consultor na área de Cooperação e Relações Internacionais

 
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