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Contradições do lulismo é tônica de livro

Escrito antes do desfecho final de um golpe que encerraria o ciclo de 13 anos do PT à frente do governo federal, lançado em outubro de 2016, após a pior derrota sofrida pelo Partido dos Trabalhadores em eleições municipais, As Contradições do Lulismo não se propõe a analisar esses eventos ocorridos (nem segundo governo de Dilma Rousseff, nem o golpe e, tampouco, o movimento final que levou à derrocada do projeto petista), mas, mesmo assim, fornece elementos importantes para a compreensão do ocorrido, bem como, quiçá, traz importantes lições para o futuro.

Composto por oito artigos, escritos por diferentes pesquisadores, o livro busca analisar em detalhes as mais variadas características e facetas do lulismo, em especial as suas contradições, com foco centrado, em particular, no período do segundo mandato de Lula (2007-2010) e no primeiro mandato de Dilma (2011- 2014), não se limitando, contudo, a esse período.

Tal como um mosaico, o livro reúne uma diversificada gama de pontos de vista que tem como fio condutor a exploração das contradições existentes no lulismo, e aquilo que André Singer denominou como reformismo fraco dos governos petistas. São múltiplas as interpretações que buscam trazer questões provocantes e questionadoras sobre os limites do lulismo e examinar suas contradições no campo da economia, cultura, questão agrária, no sindicalismo, entre outros aspectos.

No início, o artigo revelador de André Singer sobre a falta de base política para o ensaio desenvolvimentista, por meio do qual é possível, inclusive, compreender o porquê do colapso do governo Dilma e encontrar respostas para explicar como a situação chegou a tal ponto, culminando na crônica sóbria de Maria Elisa Cevasco, que, a partir da crítica cultural, tenta desvendar até que ponto a modernização conservadora instaurada pela ditadura militar ainda produz seus efeitos na atualidade.

Passamos também pela análise da expansão do precariado, que na visão de Ruy Braga, apesar de estar inserido no mercado formal laboral, ainda está sujeito a condições inapropriadas de trabalho, tais como salários baixos e alta rotatividade, por exemplo, e por artigo de Leonardo Mello e Silva, sobre como o sindicalismo tem se inovado em tempos de globalização, dando destaque às experiências de redes internacionais de trabalho que têm conseguido avançar, ainda que lentamente, em conquistas e garantias de direitos dos trabalhadores. Ademais, as observações de Wolfgang Leo Maar, que reinsere a luta de classes na análise do horizonte político, fazendo uma importante crítica à manutenção da privatização da esfera pública nos governos Dilma e Lula.

Nesse percurso, observa-se ainda, em artigo de Isabel Loureiro, a discussão sobre a questão agrária e a ambiguidade dos governos Lula e Dilma em relação ao trato com o agronegócio e no empenho em relação à reforma agrária. Loureiro explora ainda as contradições vividas pelo MST no último período – contradições, aliás, vividas por muitos dos movimentos sociais na última década.

E, por fim, Carlos Alberto Bello destaca a percepção da população brasileira sobre a pobreza e o programa Bolsa Família, salientando a resistência por parte da população, em especial os mais abonados, no apoio ao papel do Estado como responsável e indutor pela diminuição das desigualdades sociais. Em artigo, Cibele Rizek oferece uma importante contribuição para entender como a periferia se reinventa e se recria (e cria) novas formas de empreendedorismo e de estratégias de acumulação de capital, a partir da apropriação dos fundos públicos (saúde e cultura) por meio de projetos sociais, e de como essas iniciativas possibilitam uma politização desses atores.

Em suma, As Contradições... instiga-nos a refletir sobre os acontecimentos passados e a questioná-los. É uma importante leitura para quem quiser compreender mais profundamente o que ocorreu no Brasil no último período, bem como encontrar algumas explicações nesse momento em que muitos questionamentos ainda estão no ar à espera de respostas.

P.S.: Tendo em vista que a questão sobre as contradições do lulismo é a tônica do livro, em alguns momentos, a depender do autor (e de seu enfoque), o questionamento sobre a sobrevivência (ou o declínio) do lulismo é posto em xeque. Ao se balizar pela última pesquisa Datafolha, realizada em dezembro passado, ainda é cedo para cravar que o lulismo estaria definitivamente acabado (ou que seria sua derrocada final). Certamente está um tanto combalido e enfraquecido após ter sofrido anos de bombardeios, que culminaram, inclusive, com a derrubada de uma presidenta democraticamente eleita, e é certo que algum tipo de dano haveria de ser observado. Contudo, a força do lulismo na sociedade ainda se faz presente e, certamente, não deveria ser subestimada.

Diogo Frizzo é mestre em Ciência Política e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo

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