Mundo das mulheres, mundo do trabalho

Qual o valor do trabalho das mulheres? Por que há postos que são tratados como emprego de homens e outros de mulheres? Que impacto tem o trabalho doméstico não remunerado nas nossas vidas? Quais as origens das desigualdades salariais? Como as mudanças legislativas podem promover a autonomia das mulheres? Como as dimensões de gênero, classe e raça são conjugadas pelo mercado de trabalho? Quem lava, passa, limpa e cuida?

Essas perguntas fazem parte do repertório do debate social que pretende enfrentar as profundas desigualdades que compõem a vida de mulheres e homens. Elas também orientam pesquisas e estudos que são feitos há algum tempo, mas que tiveram de enfrentar “os silêncios” sobre as mulheres. A historiadora francesa Michelle Perrot anunciava esses silêncios nos anos 1990: “As mulheres são mais imaginadas do que escritas ou contadas, e fazer sua história é, antes de tudo, inevitavelmente chocar-se com o bloco de representações sociais que as cobram1”.

Gênero e Trabalho no Brasil e na França: Perspectivas Interseccionais, organizado por Alice Rangel de Paiva Abreu, Helena Hirata e Maria Rosa Lombardi, é uma grande superação desse silêncio. Resultado do colóquio realizado no Brasil, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, entre os dias 26 e 29 de agosto de 2014, o livro contém 23 artigos e foi publicado, simultaneamente, no Brasil e na França. O colóquio é um dos frutos do intercâmbio científico entre pesquisadoras e pesquisadores franceses da Rede Mercado de Trabalho e Gênero, da França, com diferentes universidades e institutos de pesquisa brasileiros.

O livro contribui valiosamente para o aprofundamento da compreensão da divisão sexual do trabalho. Apresenta análises teóricas e pesquisas sobre os dois países que, reunidas, fornecem um quadro detalhado sobre a situação das mulheres no mundo do trabalho e esquadrinham a presença delas no mercado de trabalho formal e informal, na função dos cuidados, a atuação delas em carreiras tecnológicas e científicas, o acesso à educação e os reflexos na vida pessoal. Numa perspectiva ampla e, ao mesmo tempo, precisa, os capítulos que compõem o livro enfrentam perguntas e respostas que ajudam a compreender quem se beneficia do trabalho das mulheres, considerando o valor do tempo gasto em tarefas não remuneradas de modo a consubstanciar dinâmicas de migração, classe, gênero e raça. Considera também as diversas consequências que o acesso ao trabalho assalariado teve na vida das mulheres, nas últimas décadas, tratando das causas que emperram promoções e que, também, dificultam a entrada delas em processos de recrutamento e seleção.

Os textos publicados abordam também as formulações teóricas e os resultados empíricos sobre a apropriação do tempo e do trabalho das mulheres, que desembocam em consequências concretas capazes de problematizar as próprias estatísticas sobre trabalho e, portanto, contagem de riquezas de um país. A diferenciação entre atividade e inatividade, que orientou o censo e as pesquisas até recentemente, recebem um tratamento sofisticado que transpõe os obstáculos numéricos que chegaram a ocultar as tarefas das mulheres. As múltiplas formas de apropriação do tempo impactam nas relações de trabalho das trabalhadoras domésticas de maneira específica: sem regulação da jornada, até 2012, estiveram sujeitas, por exemplo, a “dormir no emprego” sem maiores garantias. Mesmo com salários baixos e jornadas extenuantes, tiveram de construir diretamente as próprias organizações compondo sindicatos e federações.

Leis, direitos e padrões internacionais estão englobados nas análises. Os dispositivos legislativos sobre igualdade, em voga, na França, ainda não foram capazes de equiparar salários e seus efeitos podem ser cotejados por pesquisas sobre a forma com que as pessoas dispõem de seu tempo em séries históricas. A comparação entre Brasil e França, em suas economias tão distintas, elucida permanências da desigualdade que já não podem mais serem simplesmente associadas ao grau de desenvolvimento de uma nação. Previdência e proteção social, na análise direta com o envelhecimento das sociedades, são políticas que fornecem traços marcantes das relações de poder entre os sexos.

O trabalho de cuidados, o gratuito e aquele desempenhado por profissionais da educação e da saúde, se somam a reflexões que cotejam confiança, afeto e autoestima. Nessa perspectiva, as definições de cuidado chegam a extrapolar aquelas baseadas em relações de dependência e de necessidade, aspecto que deve suscitar o debate sobre a precisão do seu alcance. A formulação e o desempenho de políticas que consideram os cuidados são tratados como possibilidades concretas de se aprofundar a visão feminista sobre políticas públicas e proteção social. O conjunto de reflexões posta em Gênero e Trabalho no Brasil e na França, além de subsidiar o debate contemporâneo de transformação social, a considerar a hierarquia entre os sexos, demonstra também que é tanto possível quanto necessário alterar as bases científicas de modo a superar “silêncios” e enfrentar a história, a economia, a sociologia e a vida das mulheres.

Glaucia Fraccaro é estudante de doutorado em História Social na Unicamp. Foi coordenadora de Autonomia Econômica das Mulheres no Governo Dilma (2011-2013)
 

Notas
  • 1. A citação de Michelle Perrot pertence ao livro As Mulheres ou os Silêncios da História, página 11. O livro foi publicado no Brasil em 2005, pela Edusc.
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