Cem anos da greve geral: passado ou futuro?

Representação da ironia do destino, da história repetida como farsa ou prova inconteste de que a velha – e muitas vezes mal utilizada – máxima “a luta continua”, o livro A Greve de 1917: Os Trabalhadores Entram em Cena, lançado no final de junho pela Alameda Casa Editorial, surge no momento em que uma nova legislação trabalhista apaga ou deforma todos os direitos pelos quais as heroínas e heróis da Greve Geral de 1917 lutaram e, em muitos casos, morreram.

O livro do professor e militante José Luiz Del Roio retrata alguns dos principais momentos daquela greve que durou, segundo sua pesquisa, 45 dias. O que começou com paralisações localizadas em tecelagens nos bairros da Mooca e do Brás acabou por conquistar toda a nascente metrópole e, por pelo menos uma semana, paralisou por completo a cidade de São Paulo – bondes não circularam, comércios cerraram suas portas, as hoje inexistentes garrafas de leite não foram entregues na porta das residências. 

A narrativa é saborosa, mas jamais saudosista ou triunfalista, dada a consciência do autor de que a luta não permite vacilo. Cem anos depois daqueles acontecimentos e um ano após o golpe iniciado com a derrubada ilegal da presidenta Dilma, que desembocou no maior ataque aos direitos sociais desde a chamada redemocratização, o livro se concentra em recuperar os passos do movimento anarquista, protagonista da esquerda brasileira à época, que exigia de maneira ousada e extremamente arriscada – atirar em manifestantes não era ainda objeto de contestações judiciais – a queda do preço dos alimentos e dos aluguéis, o fim das extenuantes jornadas de trabalho, da exploração de crianças e mulheres no manuseio das rudimentares e mutiladoras máquinas e a eliminação da postura escravocrata dos industriais e dos chamados contramestres, novos feitores ou capitães do mato surgidos na esteira do processo de industrialização.

Aquela greve não se limitou à cidade de São Paulo, tendo se alastrado pelo interior e outras capitais, mas foi nela que materializou sua expressão maior. A estrutura sindical era outra, evidentemente, assim como a organização dos próprios empresários. Os dirigentes, com forte e decisiva participação das mulheres, como reafirma o livro, tiveram nos debates e encontros culturais nos comitês de bairro, abertos a todos, independentemente de associados ou não, a pedra de toque para convencer a população a aderir.

A repressão que se seguiu foi brutal e presumivelmente centenas foram mortos e enterrados anonimamente. Del Roio chega a traçar um paralelo entre aquela repressão e a praticada pela ditadura militar iniciada em 1964, da qual ele mesmo foi uma das vítimas, tendo sua companheira Ísis desaparecida até os dias de hoje e sido obrigado a se exilar do Brasil.

O livro tem o grande mérito de condensar parte das pesquisas acadêmicas existentes sobre a greve de 1917 e, como ele próprio afirma na introdução, procura preencher uma lacuna. “Porque muito poucos são os brasileiros que conhecem o que se passou naquelas semanas de junho e julho de 1917 em São Paulo. E qual foi sua importância.”

Outras aventuras heroicas além daquelas empreendidas pelos grevistas de 1917 são resgatadas – ou, para a maioria, reveladas – no novo livro. Mas tal tarefa coube ao prefácio assinado pelo professor Gilberto Maringoni: as peripécias de lutadores clandestinos, dos quais o próprio Del Roio fez parte, para que a ditadura iniciada em 1964 não destruísse o acervo de livros, panfletos e jornais que naquele período estavam sob a guarda do então banido PCB. Esse acervo, assim como aquele hoje preservado no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, permitiu que a história da Greve Geral de 1917 não fosse apagada por completo.

Daquele período histórico, bafejado pela Revolução Russa e pelas insurreições populares internacionais surgidas em contraposição à Revolução Industrial – com todas as dificuldades de um sistema de comunicações ainda primitivo –, os operários e operárias brasileiros tiveram, talvez como sua maior conquista, o reconhecimento como atores políticos a serem ouvidos e temidos. A história dos próximos cem anos está por ser escrita.

Isaías Dalle é jornalista

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