Lava-Jato, o outro lado da moeda

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, tempos atrás, que se daqui a 30 anos as pessoas se guiarem pela imprensa para entender o que houve com o Brasil, nos primeiros anos do século 21, conhecerão apenas um lado dos acontecimentos. Em 30 anos, uma pesquisa nos jornais da chamada velha mídia ou nas emissoras de televisão e rádio só traria a versão daqueles que não se conformaram com as conquistas sociais obtidas pelos governos Lula e Dilma. Utilizo aqui o futuro do pretérito em razão de que jornalistas como Paulo Moreira Leite estão escrevendo a história como ela é, sem parcialidade, sem se curvar a interesses.

Lula também tem razão quando afirma que os veículos de comunicação manietados pelo poder do dinheiro em detrimento do povo pobre daqui a 30 anos oferecerão uma vergonhosa compilação de sabujice e de cumplicidade com um golpe parlamentar-jurídico-midiático. No entanto, textos dos “blogues sujos”, assim chamados pelos conservadores, e por nós conhecidos como blogues progressistas, proporcionarão uma ajuda decisiva para que se compreendam os dois lados da moeda.

E podem ter certeza de que parte dessa moeda terá sido cunhada por Paulo Moreira Leite no livro A Outra História da Lava-Jato – Uma investigação necessária que se transformou numa operação contra a democracia.

Se a operação tem deixado antever que será a causa maior da catástrofe econômica e social do Brasil, podemos vislumbrar, no entanto, que esse livro servirá para contar direitinho o que aconteceu com a política e a economia brasileira quando um juiz de primeira instância de Curitiba, Sérgio Moro, ganhou poderes para cometer inúmeras injustiças em nome do combate à corrupção.

Injustiças como a de manter pessoas presas, em verdadeira condição de tortura psicológica, até que resolvam “dedurar” outras pessoas, recebendo assim não só o benefício da liberdade, mas também o de manter a quantia que surrupiou.

Sim, o autor conta aqui que, além do prejuízo econômico e social, a operação Lava-Jato contribuiu sobremaneira para um golpe contra uma presidenta digna, que nenhum crime cometeu para que fosse deposta.

Um avião, bem sabem os especialistas, nunca sofre um desastre em razão de apenas uma causa. São vários os fatores que levam à queda. Foi assim também com a deposição inconstitucional de Dilma Rousseff. Da indulgência com a imprensa conservadora, à qual concedeu, inclusive, enormes recursos financeiros para que se mantivesse de pé enquanto atirava no governo, aos erros políticos cometidos, nenhum elemento foi mais decisivo que a Lava-Jato.

Com seus rotineiros vazamentos seletivos contra o Partidos dos Trabalhadores e, em consequência, contra o governo de Dilma Rousseff, e o bombardeio minuto a minuto dos veículos de comunicação atrelados à então oposição, a operação foi um dos tiros mais certeiros para derrubar a presidenta.

Paulo Moreira Leite, contudo, lembra em seu livro outros aspectos fundamentais para que Dilma fosse arrancada de sua cadeira, de forma violenta e arbitrária, como a manutenção de Eduardo Cunha no poder, mesmo com volumosas e comprovadas denúncias contra ele, que ficou livre tempo suficiente para armar a teia do golpe na Câmara Federal. A conspiração e o conluio protagonizados pelo vice-presidente para se aboletar na cadeira da mandatária legitimamente eleita foram outros fatos que a História não classificará como de somenos importância.

Ao iniciar a leitura de A Outra História da Lava-Jato pensei que a obra não seria suficiente para entendermos tudo o que ocorreu e vem ocorrendo, pois, já no início, Paulo Moreira Leite afirma que a edição traz artigos de sua autoria publicados até 15 de setembro de 2015. Compreensível: o livro precisava ir às máquinas e, como corrobora o dito do grande escritor argentino Jorge Luis Borges, um autor nunca termina um livro; ele o abandona para ser impresso. No caso do livro de Paulo Moreira Leite, entretanto, há uma grata surpresa no final. Depois de ler todos os artigos, deparei com um relato de 134 páginas intitulado “O golpe”, no qual o autor complementa a história até 16 de setembro de 2016.

Obrigado, Paulo Moreira Leite. Felizmente, a previsão de Lula não se concretizará totalmente.

Washington Luiz de Araújo é jornalista, editor do Bemblogado.com.br

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