A construção da farsa do golpe legal

Escrevendo como se estivesse numa roda de conversa, o doutor em Sociologia e pós-doutor em Psicanálise e Filosofia Jessé Souza nos brinda com sua nova obra, A Radiografia do Golpe, publicada pela Editora Leya, a mesma que em 2015 publicou, do mesmo autor, o livro que se tornou rapidamente um grande sucesso: A Tolice da Inteligência Brasileira.

Nesse novo livro, o título não poderia ter sido melhor já que realmente trata-se de uma radiografia do golpe de 2016. Assim como uma fotografia do interior do corpo humano com suas imagens claras (dos tecidos) e escuras (dos ossos), essa radiografia política nos mostra de forma nítida o dia a dia do golpe e as estratégias utilizadas, mas também as faces mais ocultas, como os interesses políticos e financeiros da elite e seus mecanismos de manipulação da informação e de aparelhos do Estado em benefício próprio.

Também o subtítulo do livro – “Entenda como e por que você foi enganado” – nos aponta o caminho que o professor de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense e ex-presidente do Ipea Jessé Souza seguirá para construir sua tese de como os “donos do dinheiro” montaram uma farsa por meio da manipulação midiática, política e jurídica para deflagrar o golpe de 2016, recuperando inclusive que o tema da corrupção perpassa, como mote, todos os golpes de Estado ocorridos no Brasil.

No primeiro capítulo, a preocupação do autor é de mostrar como se dá a construção da chamada “hegemonia do dinheiro” e como historicamente os golpes sempre tiveram como real objetivo a disputa pela renda, ou seja, a maneira como os muito ricos (que são muito poucos) arquitetam para ganhar ainda mais dinheiro e no menor prazo possível, sempre usurpando a maioria da sociedade. E como conseguem convencer a maioria dos explorados que a dominação sobre eles é para seu próprio bem? Essa “elite do dinheiro” compra outras elites para fazer esse trabalho, e a primeira a ser comprada é a elite intelectual. As outras serão as elites representadas pela mídia e uma parte do aparato estatal jurídico e policial.

É dessa forma que ao longo da história vão se construindo os mitos nacionais; e é nesse ponto que Jessé passa a argumentar no sentido de dar razão à tese de que “colonizaram os nossos espíritos” para legitimar a realidade desigual e perversa da sociedade brasileira, e para isso contaram com a “ajuda” intelectual de nossos formuladores do pensamento social e político brasileiro – Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro, ninguém escapa da sua “metralhadora giratória”.

Diferentemente desses autores, Jessé advoga que, no Brasil, todas as instituições foram moldadas pela escravidão e nesse sentido historicamente tanto a economia quanto a política e a justiça sempre estiveram nas mãos dos grandes senhores, da classe dos proprietários, que nunca tiveram um projeto nacional a não ser seus próprios interesses de curto prazo. Essa seria a razão inclusive para que, desde Getúlio Vargas até o golpe de 1964, a maior ilusão da esquerda brasileira é a de que seria possível construir alianças com uma parte da “boa burguesia”.

O autor então passa a fazer uma retrospectiva histórica (resumida, é claro) dos principais fatos desde o fim da ditadura até as manifestações de Junho de 2013, com destaque para: a “privataria” do período FHC; a aliança com o setor financeiro e produtivo do primeiro mandato de Lula, permeado pela mais ampla e profunda campanha de desinformação, distorção e manipulação do tema da “corrupção seletiva”, numa tentativa de destituir o PT já em 2005/2006 (a ação penal 470); a ascensão social e os programas sociais e de educação do segundo mandato; e a estratégia inócua da presidenta Dilma, quando em seu primeiro mandato resolve atacar o rentismo, reduzindo os juros, buscando atrair com isso a burguesia industrial, que não adere pois também vive dos altos lucros da especulação financeira.

O capítulo termina com uma minuciosa “descrição das profundas transformações ocorridas na estrutura de classes da sociedade brasileira, o que nos leva a compreender a luta de classes que domina a atual cena política brasileira e que serve de pano de fundo ao movimento golpista”.

No segundo capítulo, a preocupação principal é como se dá a construção da farsa do golpe “legal”, a partir das manifestações de Junho de 2013, que o autor considera o ponto de virada da hegemonia ideológica até então dominante e das altas taxas de aprovação aos presidentes dos governos petistas. Considera que Dilma reagiu de forma ambígua ao tema da corrupção, de um lado (re)lançando o tema da reforma política e de outro buscando se colocar como “combatente” pessoalmente envolvida na cruzada anticorrupção.

Dia após dia, Jessé narra a forma como a imprensa, sócia do golpe, desconstrói um discurso, um projeto e uma realidade para construir outro no lugar. Trata-se de como fazer esquecer o tema da desigualdade (ou do combate a ela que foi feito e deveria continuar a ser feito) e colocar em seu lugar o tema da moralidade.

“A distorção e a inversão do mundo como ele é se tornam perfeitas.”

No último capítulo, a conclusão do livro aponta para as consequências do golpe para o futuro, as ameaças e oportunidades para a democracia, incitando a esquerda brasileira a compreender a atual realidade para uma intervenção prática nessa nova realidade de maneira distinta daquela que tiveram até agora.

E termina por colocar a nu o que temos assistido recentemente: “a luta de morte entre os políticos e os operadores jurídicos pelo espólio político do golpe”.

Tudo isso dividido em três capítulos e 142 páginas de muita contundência, clareza e objetividade em um texto repleto de provocações (à direita e à esquerda), que ao final nos faz sentir aquela sensação de ter lido coisas que nos pareciam óbvias, mas que nunca havíamos lido em outro texto.

Boa leitura.

Artur Henrique é membro do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo e secretário Municipal de Trabalho, Emprego e Empreendedorismo de São Paulo

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