A história das mulheres escrita pelas revolucionárias russas

Contar a história das mulheres sempre foi uma forma difícil de se escrever história. A despeito das possibilidades de fontes e registros, duas questões estiveram postas, quase como obstáculos. A primeira delas diz respeito à suposta natureza feminina; menos afeitas a promover revoltas e distúrbios, as mulheres estariam fora do tempo, fora do acontecimento. Por outro lado, os estudos sobre elas também esbarraram num problema de relevância – a existência de uma história, considerada universal, diminuiria o impacto dos estudos de mulheres sobre as interpretações e as narrativas gerais, cumprindo a reduzida tarefa de exemplificar experiências.

O livro organizado por Graziela Schneider Urso, e encantadoramente editado pela Boitempo, é uma obra que arrebata ambos os problemas. Ela reúne artigos, manifestos e panfletos escritos por mulheres durante o período insurgente da Revolução Russa (1917) como parte da celebração de seu centenário. A produção intelectual de onze ativistas, traduzida diretamente para a língua portuguesa, é coligida no livro com suas respectivas imagens e notas explicativas que situam a leitura e a trajetória das escritoras. É assim que a obra insere mulheres, afeitas a mudanças, no tempo e no acontecimento. De quebra, fornece, de forma contundente, novos elementos que alteram o curso interpretativo da revolução que mudou a história do mundo.

A compilação dos textos demonstra perspectivas e projetos diferentes para a emancipação das mulheres, com destaque para o debate gerado em torno do Congresso de Mulheres de Toda a Rússia, em 1908. Em 1905, o Império foi sacudido por intensas manifestações, promovidas pela classe trabalhadora, que reivindicavam direitos e acesso à terra. O caminho para a transformação social parecia aberto e, tão logo ela dava seus primeiros sinais, ele foi trilhado tanto por homens quanto por mulheres que buscavam formas de liberdade. Educação, maternidade, prostituição, direito trabalhista, saúde, participação sindical e política foram debatidos pelas militantes gerando um vasto repertório de libertação que contribuiu também para pressionar a direção do partido que conduziria a revolução. Notadamente, as participações de Nadiéjda Krúpskaia (1869-1939) e de Aleksandra Kollontai (1872-1952) foram fundamentais para inserir a condição das mulheres no debate revolucionário que nem sempre compreendia o acúmulo do trabalho doméstico e dos cuidados como parte da opressão das trabalhadoras. Para elas, as trabalhadoras precisavam mais dos direitos políticos do que as mulheres burguesas e, ainda que a reforma radical da sociedade fosse imprescindível, era necessário que o partido se comprometesse com as necessidades imediatas das mulheres. O partido, em distintas fases de sua organização, e o processo revolucionário nunca deixaram de ser tensionados pelas trabalhadoras que, de forma incontornável, fizeram a disputa por dentro das direções políticas.

A edição de Graziela Schneider permite entrever dois grandes campos nos quais o feminismo se ergueu. Se de um lado militantes como Anna Kalmánovitch, representante do chamado feminismo radical, defendiam que era preciso que as mulheres se colocassem numa posição na qual elas “não possam ser oprimidas”, afirmando ser o movimento feminista não-partidário; de outro, delineava-se a compreensão de que não bastaria conquistar bens sociais que eram exclusivos dos homens – nessa visão, as fileiras da própria classe trabalhadora concentravam a luta que destruirá os grilhões do capitalismo e abrirá o caminho para a nova mulher livre.

A participação política das mulheres no processo revolucionário russo resultou num grande elenco de resoluções sobre a condição das trabalhadoras cujos efeitos ainda permanecem na política contemporânea. No colofão do livro, um cartaz de propaganda soviética de 1932 estampa os dizeres: “8 de março, dia da revolta das mulheres trabalhadoras contra a escravidão na cozinha”. Elas colocaram o acúmulo das tarefas e a reprodução da vida no centro da compreensão do funcionamento do capitalismo e da acumulação da riqueza, tornando imprescindível a participação direta delas nas tomadas de decisão sobre as reais transformações da sociedade.

A pressão partidária exercida por elas alterou os rumos da esquerda mundial e fortaleceu o feminismo a partir da experiência das mulheres da classe trabalhadora. Há mais no feminismo que polêmicas, e a obra de Schneider possibilita que se compreendam as disputas com base em diferentes projetos de sociedade. Dessa forma, a edição da Boitempo contribui para a escrita da história das mulheres e para uma luta que, há mais de um século, busca a plena liberdade de toda a humanidade.

Glaucia Fraccaro é historiadora, doutora em História Social do Trabalho pela Unicamp e professora da Faculdade de História da PUC-Campinas

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