Cidadão exemplar

Valerio Oliveira

Ele era asseado, não roncava
 
Sua aparência era ótima
 
Pagava as contas sempre em dia
 
Gostava de música e jardinagem
 
Violento? Jamais
 
Era educado, falava baixo
 
De sua boca nunca saiu um só palavrão
 
Quando eu estava triste ele me fazia rir
 
Ah, sim, ele me fazia rir
 
Não era econômico demais nem de menos
 
Expansivo na hora certa, reservado na hora certa
 
Não esquecia meu aniversário
 
nem o de minha mãezinha
 
Vícios? Não fumava nem bebia
 
Era fiel e carinhoso, muito carinhoso
 
Evitava os temas polêmicos, as pequenas perversões
 
Não se irritava facilmente, jamais dava vexame
 
Sua elegância era à prova de balas
 
Analogia infeliz, desculpe
 
Amoroso com os filhos
 
Fraterno com os inúmeros amigos e os raros inimigos
 
que não tinha 
 
Equilibrado, prudente, virtuoso
 
Nos vinte anos em que fomos casados
 
ele nunca perdeu a compostura
 
Não sei o que deu em mim, delegado
 
O revólver estava tão perto 
 
(Revista E, nº 299, julho 2015, Sesc São Paulo)
Valerio Oliveira
Nelson de Oliveira, autor de 20 livros e doutor em Letras pela USP, estilhaça-se (ou se complementa?) em mais três “alter ego”. Um deles é o artista gráfico e cartunista Teo Adorno, enquanto Luiz Bras é ficcionista e Valerio Oliveira poeta. A este último atribui-se a autoria de Teto no Piso (Catatau, 2006) e de Todos os Presidentes (Hedra, 2008); sua biografia assim reza:
 
Sobre o autor
 
Valerio Oliveira nasceu no dia 21 de junho (solstício de inverno) de 1958, em Xanadu, capital de Grande Garabagne. Durante toda a infância morou a cem metros do fabuloso palácio de verão de Kubla Khan. É poeta e vagabundo globalizado. Já viveu no subúrbio de Los Angeles, Buenos Aires, Praga, Madri, Milão, Lisboa, Cairo, Luanda, Cidade do Cabo, Nova Délhi e de outras dez capitais do Oriente. Gosta de orquídeas, de Modigliani e de Itamar Assumpção. Jamais foi passivo ou ativo, costuma ser apenas contemplativo. Não acredita em realismos ou surrealismos, somente no real e nas suas valiosas expansões. Não coleciona essências nem aparências naturais, prefere as artificiais. Só acredita em biografias imaginárias. E no poder transcendente do verso livre.”
 
O poema acima, ainda inédito em livro, é exemplar enquanto paródia de um depoimento policial que escapa ao leitor, o qual só ao fim do percurso percebe ter sido ludibriado com muita graça. É bem verdade que, a essa altura, tanta virtude foi compondo um chato intolerável – e o leitor se descobre, para sua consternação, simpatizando com a assassina. A poesia tem dessas coisas. 
 
Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da FFLCH da USP, integra o Conselho de Redação de Teoria e Debate  
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