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Mundo Novo

José Paulo Paes


Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.

E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que
      a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de espinheiro.

Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora
      vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel
      a terra mal enxuta do Dilúvio.

Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.


José Paulo Paes (1926-1998)

José Paulo Paes

José Paulo Paes (Taquaritinga, 1926 – São Paulo, 1998) foi com certeza um dos homens de letras mais completos e fecundos do país nas últimas décadas. Era desses, e não são tantos, que dão espessura e transcendência a vida literária de um povo. Bom poeta, ótimo ensaísta, magnífico tradutor. Sem falar do importante editor que foi, durante quase trinta anos. Quem conhece a sua obra, sabe que não estou exagerando. Como sabe que todo o labor criativo de José Paulo teve discreta mas constante motivação ético-política: tornar acessíveis a um público cada vez mais amplo os bens da literatura, dessacralizá-los, democratizá-los tanto quanto possível.
Sua produção foi vastíssima, sem com isso (coisa rara) perder em qualidade. Publicou mais de 20 livros de poesia, dos quais a metade infanto-juvenis, todos com idêntico empenho construtivo. Seus diversos volumes de ensaios conjugam à perfeição rigor analítico e legibilidade. Além disso, José Paulo traduziu, sozinho ou em colaboração, mais de uma centena de volumes. Recordemos algumas de suas publicações mais recentes: A meu esmo (1995), poesia; Transleituras (1995) e Os perigos da poesia (1997), ensaios; e a tradução de Poemas da antologia grega ou palatina (1995).

Nesse breve registro, destaco apenas a sua arte tradutória. Eis alguns dos poetas (o que dizer dos prosadores?) que Paes transpôs de modo incomparável para o português: Paladas de Alexandria, Catulo, Ovídio, Marcial, Aretino, Leopardi, Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Apollinaire, Eluard, Yeats, Auden, William C. Williams, Hoëderlin, Rilke, Goottfried Benn, Seferis, Ellitis, Ritsos. Ele não traduzia apenas os seus autores prediletos ou aqueles que lhe eram encomendados. Traduzia sobretudo textos capazes de preencher lacunas relevantes na bibliografia disponível ou de ampliar o repertório do público leitor e dos jovens criadores. Nessa medida, José Paulo não fez apenas tradução, fez pedagogia literária. Não havia público para a poesia grega moderna no Brasil – Até que ele o criasse, com as suas esplêndidas versões de Kaváfis, Kazantzakis e tantos mais, sempre precedidas por “descrições críticas” destinadas ao leitor médio (basta citar a sua memorável introdução a Kaváfis, “Lembra, corpo”). Quem ama a poesia consegue imaginar-se, hoje, sem a possibilidade de ler Kaváfis em português?

Traduções da antiga poesia grego e latina não costuma circular fora do âmbito universitário. José Paulo fez mais do que ninguém pela divulgação entre nós de alguns instigantes autores clássicos, vertendo-os não como objetos arqueológicos, mas como nossos contemporâneos, naquele sentido em que, segundo Eliot, a melhor a melhor tradição está sempre presente.

Paes vai fazer uma falta tremenda.

Luiz Dulci, membro do Conselho de Redação de TD

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