Refluir...

Pedro Tierra

A essa hora restam poucos amigos.
A casa está em cinzas, os irmãos mortos,
o inimigo armado na esquina.

Um grito agora se perderia na poeira,
no sono da rua desabitada.
Guarda-o, pois, até a madrugada,

reúne tuas forças em silêncio,
engraxa, cuidadoso, tuas armas,
confere a munição contada e espera...

Vigia na sombra o vulto do inimigo,
mas, sobretudo, ouve o despertar do povo,
percebe nos dedos a bruma a desatar

promessas de rebeldia.
Eis aí a tua hora:
Levanta barricadas
        e entrega ao povo os fuzis
        dos camaradas mortos!

(Poemas do Povo da Noite, 3ª edição, 2010)


 

Pedro Tierra

Pedro Tierra, pseudônimo lírico de Hamilton Pereira, tornou-se poeta quando preso político por cinco anos, e veio a ser “a voz do cárcere”. Conhece como poucos o que foi essa jornada aos infernos da dor, do luto, do desespero: ele mesmo se declara um sobrevivente, conforme rezam alguns de seus poemas.

Contrabandeados sob os olhos dos algozes cegos à beleza, seus versos foram reproduzidos e passados de mão em mão, encontrando publicação no exterior antes de verem a luz por aqui.

O volume recebeu o título de Poemas do Povo da Noite, em nome de quem fala: os presos, os perseguidos, os clandestinos, os torturados, os desaparecidos. O título  recobre e reúne alguns de seus livros, inclusive aquele que assim se chama, trazendo ainda reproduzidos os vários prefácios e estudos que apresentaram esses livros em diferentes épocas e em diferentes países.

Entre eles, os prefácios às precoces edições espanhola, italiana  e alemã, bem como textos de D. Pedro Casaldáliga – parceiro e co-autor de outros trabalhos como a Missa da Terra Sem Males e a Missa dos Quilombos –, de Carlos Rodrigues Brandão e de Tristão de Athayde, nom de plume do grande crítico literário Alceu Amoroso Lima. Vale lembrar que poemas avulsos foram traduzidos para o inglês e para o francês. Incorporando o recuo do tempo, o próprio Pedro Tierra elabora um balanço de sua obra. Completa o elenco um posfácio de Flamarion Maués, acompanhando meticulosamente o itinerário das sucessivas publicações, em registro histórico que devemos a um especialista nas editoras de oposição mais ou menos aberta no período ditatorial.

Nesta ciranda de mãos dadas, o elenco mostra como um tal conclave é generoso e relevante. Estão presentes não só os revolucionários que lhe deram razão e força – o humus de que estes versos brotam –, mas também os que souberam valorizar sua voz.

Os poemas transmitem a ira de um guardião do fogo sagrado em tempos de trevas, ao apostrofar os iníquos e a iniquidade. Alguns iniciaram seu percurso dispersos por panfletos, cartazes, faixas, cartilhas, só depois ganhando página de livro. O próprio suporte em que figuraram já indica que se trata de uma raridade: a poesia militante. Versos arrebatados e iracundos, com ressonâncias  bíblicas, perpetuam a memória das lutas populares e dos que nelas tombaram, para eterno alento dos combatentes, entre os quais se situa este poeta, vate da rebeldia e da libertação.

Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da FFLCH da USP, integra o Conselho de Redação de Teoria e Debate

 

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