Continuidade dos desafios do investimento de longo prazo

Ao contrário do que muitos pensam, o crescimento do investimento de longo prazo não poderá ser realizado apenas pelos bancos públicos e/ou pelo mercado de capitais

BNDES tem sido importante elemento na valorização do mercado de capitais via BN

O BNDES tem sido importante elemento na valorização do mercado de capitais via BNDESPAR

Foto: Luiz Gomes/Folhapress

A recente onda de manifestações populares apresentou um conjunto de críticas que, mesmo pouco articuladas, indicaram claro desejo de mais intensa melhoria em educação, saúde, mobilidade urbana e outras questões sociais, ademais de uma clara insatisfação com os mecanismos de funcionamento da política na democracia brasileira.

Além de uma reforma política capaz de proporcionar maior participação popular, a discussão da forma de financiamento de campanhas, a redefinição do sistema eleitoral, manutenção ou não da existência da suplência no Senado, das coligações partidárias e do voto secreto no Parlamento, entre outras questões, será necessário repensar os instrumentos para viabilização de mudanças indispensáveis para a continuidade ao processo de crescimento econômico sustentável, distribuição de renda e maior expansão e melhor qualidade das políticas sociais.

Se as questões políticas têm de ser executadas o mais rapidamente possível, o aprofundamento das políticas sociais dependerá de uma ampla reforma tributária e da capacidade do Estado de dispor e/ou canalizar recursos para esse fim. E o agravamento das condições econômicas externas, expresso em maior redução dos preços das commodities e maior saída de recursos do país (pelo efeito de uma futura redução do quantitative easing norte-americano) e seus impactos sobre o câmbio, inflação e incertezas, exigirá um esforço suplementar para assegurar o indispensável crescimento econômico sustentável neste e nos próximos anos.

Nesse sentido, a necessidade da expansão e consolidação do investimento é evidente. Resulta tanto das demandas históricas e crescentes da infraestrutura, do setor produtivo e do setor social quanto de uma situação externa mais desfavorável (e uma expansão apenas modesta do investimento) e da inevitável menor expansão do consumo das famílias. Esta deverá continuar se expandindo, mas em níveis mais comedidos, seja porque o nível de endividamento das famílias chegou próximo ao dos países avançados e se deslocou dos bens duráveis para a moradia, seja porque a expansão do mercado de trabalho também apresentará um desempenho menos intenso, inclusive por limites físicos e/ou temporais, embora deva ocorrer em paralelo à elevação da produtividade.

No entanto, ao contrário do que muitos pensam, o crescimento do investimento de longo prazo não poderá ser realizado apenas pelos bancos públicos e/ou pelo mercado de capitais, sobretudo se deixado ao “bel-prazer” deste. Tampouco se pode esperar passivamente os resultados do pré-sal.

Os bancos públicos têm desempenhado importante papel no favorecimento da expansão de investimento, contribuindo significativamente com a elevação do investimento público, que saltou de 1,1% em 2003 para 4,4% do PIB em 2012. Os financiamentos por eles realizados correspondem hoje a 87% de todos os investimentos de longo prazo.1



Notas
  • 1. Tomando-se como referência o total dos créditos do sistema financeiro (curto, médio e longo prazo, PF e PJ), em maio de 2013 os bancos públicos continuavam ampliando sua participação, alcançando 49,4% da carteira de empréstimos, enquanto a das instituições privadas nacionais e estrangeiras, seguia em queda –34,9% e 15,7%, respectivamente –, segundo o Banco Central.
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