• Edição 144
  • 07 janeiro 2016
    • Jefferson José da Conceição,
    • Roberto Vital Anav

A economia em 2015 e os caminhos para 2016

Preferimos a flexibilidade econômica, com balanceamento adequado do ajuste das contas públicas e da preservação do mínimo indispensável de crescimento e de políticas sociais, evitando a piora do quadro social. Ao contrário do discurso neoliberal, esse caminho, além de menos perverso, é também o mais rápido para o crescimento, graças à manutenção do potencial interno de consumo como base para a retomada da atividade econômica e dos empregos

Como reverter as expectativas pessimistas para 2016 e iniciar a recuperação econ

Como reverter as expectativas pessimistas para 2016 e iniciar a recuperação econômica

Foto: Freeimages.com/Michal Zacharzewski

Definitivamente, 2015 não foi bom para a economia brasileira. De janeiro a dezembro, o ambiente econômico piorou gradativamente ao longo do ano. A revisão periódica dos indicadores públicos e privados, quase sempre no sentido da piora destes, somada ao conturbado quadro político nacional explicam as expectativas pessimistas que se espraiaram entre os agentes econômicos em 2015. Incertezas quanto ao futuro e pessimismo tiveram o efeito de uma fila de pedras de dominó em queda: retração de investimentos, queda da produção, diminuição de consumo, redução de vendas, aumento do desemprego, contração da renda, retração de investimentos... Um círculo vicioso e descendente.

Neste artigo, apresentamos, na primeira parte, alguns dos principais indicadores da economia brasileira, que nos ajudam a traçar um quadro do que foi esse ano que, para usar uma expressão popular, deveria ser esquecido. Em seguida, fazemos algumas considerações sobre como o governo poderia reverter as expectativas também pessimistas para 2016 e iniciar um processo de recuperação de nossa economia. Nessa parte, recorremos a trechos de artigos anteriores de nossa autoria sobre o assunto.

De início cabe deixar claro nossa visão de que a crise econômica vivida em 2015 foi amplificada em grande medida pela crise política, em que pesem eventuais erros cometidos na condução da política econômica recente. E mais: infelizmente, embora derrotado nas urnas em 2014, o discurso da oposição, amplamente propagado à população, com forte apoio da mídia, quer fazer crer que a crise seria supostamente uma irresponsabilidade das políticas desenvolvimentistas implementadas nos últimos anos (desde o governo Lula) e da corrupção cometida “exclusivamente” nos governos petistas.

Fatores importantes como o cenário externo de desaceleração, a queda dos preços das commodities, o esgotamento do padrão de crescimento centrado no consumo interno e o excesso de desonerações tributárias, especialmente na forma de incentivos fiscais ao setor privado, são “esquecidos” ou minimizados por esse discurso. Entretanto, governo e economistas ligados ao atual modelo não conseguiram enfrentar os ataques vindos de várias frentes. Mais ainda: o governo, acuado pelo rápido agravamento dos indicadores no final de 2014 e pelo discurso do “cenário caótico”, viu-se na condição de dar resposta à crise por meio de uma política de ajuste fiscal draconiana, que agravou o cenário recessivo. Voltaremos a esse ponto mais adiante.

a) Economia internacional

As baixas taxas de crescimento das economias avançadas nos últimos anos são agora acompanhadas de um elemento adicional de dificuldades para o Brasil no período recente: a desaceleração do crescimento da China (cujas taxas de crescimento do PIB caíram de 9% ao ano em média para os atuais 6,5%), com reflexos no fluxo de comércio internacional e na redução dos preços das commodities (produtos primários com preços internacionais, como é o caso da soja e do minério de ferro). A recuperação dos EUA tarda em mostrar robustez, enquanto a Europa, exceto a Alemanha, patina e o mesmo ocorre no Japão. Por fim, nossos parceiros do Mercosul não apresentam desempenho animador. Esse quadro indica a necessidade de, além de apostar nas exportações, também reforçar o mercado interno para sairmos da recessão.

b) PIB e PIB per capita

No contexto de baixo crescimento das economias dos países avançados, a economia brasileira mostrou um encolhimento proporcionalmente ainda maior. O Produto Interno Bruto (PIB), que é o somatório econômico de toda a produção de bens e serviços realizada no país, deverá apresentar “crescimento negativo” superior a 3% em 2015. É como se toda a massa do “bolo” produzido no Brasil tivesse diminuído em 3% comparado a 2014. Esse resultado é o pior apresentado pelo Brasil nos últimos 25 anos. Em 1990, a queda foi de 4,35%.

Levantamento realizado pela Agência Rating mostra que, para 42 países que já divulgaram o resultado do PIB até o terceiro trimestre do ano, houve um crescimento médio de 3,1%. Portanto, bem acima do desempenho brasileiro. No grupo analisado, países da América do Sul como Peru e Chile tiveram performance também melhor que a nossa: 2,9% e 2,2%, respectivamente.

Como o PIB do Brasil cairá em torno de 3% e a população brasileira crescerá algo próximo de 1% em 2015, o país sofrerá uma queda em seu PIB per capita (por pessoa) superior a 4% no ano.

c) Nível de atividade por setor

Vejamos a retração da atividade por setor.

A indústria de transformação foi o setor a apresentar a maior queda em sua produção. De acordo com os indicadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no geral a produção industrial cairá em torno de 7,7% em 2015. Entretanto, visto por categoria de uso, a retração apresenta uma variação bastante grande: enquanto a indústria de bens intermediários deverá reduzir algo próximo a 4,5%, a indústria de bens de capital sofrerá retração de 24,2% e a de bens de consumo, queda de 9,5%. Entre os bens de consumo, a indústria de bens de consumo duráveis é a que apresentará maior queda, 17,2%, enquanto a de bens de consumo não duráveis terá diminuição da produção em 7,2%.

Essa recessão vivida pelo setor industrial pode ser medida também por outros indicadores, como o da utilização média da capacidade instalada, calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Em outubro de 2014, o grau médio de utilização da indústria de transformação brasileira era de 83,2%; um ano depois (outubro de 2015), o grau médio caiu para 77,7%.

A queda acentuada da produção do setor industrial – com especial destaque para as retrações das indústrias de bens de capital e de bens de consumo duráveis, como apontadas acima – é explicada pela forte queda dos investimentos e do consumo de itens de maior valor.

Especificamente em relação às inversões, setor público e setor privado literalmente “pisaram no freio”. Além da já mencionada queda da produção de bens de capital em 24,2%, o fenômeno da retração dos investimentos pode ser medido também pela queda das importações de bens de capital, em 18,5%, e pela retração da produção de insumos para a construção civil, em 12,3%.

Como o setor de serviços é fortemente dependente do nível de renda, também viveu retração em 2015. Até outubro, o IBGE calculava uma queda de 2,5% no nível de atividade desse setor. Especialistas estimam que, no ano como um todo, os serviços deverão cair em mais de 3,5%. E isso em praticamente todos os segmentos que o compõem: serviços profissionais, administrativos, complementares, entre outros.

Dos três setores de atividade (indústria, serviços e agropecuária), a agropecuária é a única que apresentará crescimento em 2015. De acordo com a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), a agropecuária deverá crescer 2,4% em 2015, em grande parte devido ao aumento do faturamento da pecuária. Também foram importantes as exportações do agronegócio, favorecidas pela desvalorização do real. As exportações de soja, milho e produtos florestais subiram em até 16%. Entretanto, o agronegócio continua a enfrentar a queda dos preços internacionais das commodities. Conforme informações veiculadas pela CNA, entre as dezessete culturas acompanhadas pela entidade, aumentaram o faturamento em 2015: cebola (116%), batata (16%), laranja (9%), café (4%), cana-de-açúcar (1%) e fumo (1%). Segundo a entidade, apenas café e batata ampliaram seu faturamento como resultado da elevação da cotação (respectivamente, 7% e 19%).

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