De Lula à Síria: um novo mapa

Marco Aurélio Garcia, junto com Celso Amorim, foi responsável pela projeção internacional do Brasil na última década, bem distante do “viralatismo” a que estamos sendo relegados atualmente com o homúnculo que ocupa a Presidência e a corte que o acompanha

Síria

Desde a queda do muro, as “conquistas” da democracia ocidental nunca foram tão contestadas

Foto: Rodi Said/Reuters

Enquanto a China faz projetos de, ainda em 2020, chegar ao lado escuro da Lua1, de obter os preciosos recursos em mineração que sua superfície sem atmosfera fornece (fala-se do hélio-3 e da fusão nuclear), no Ocidente se vive mais de uma década lombrosiana em suas relações políticas cotidianas (lembrar do 11/9, do inencontrável Bin Laden, do Ato Patriota, das guerras no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Síria), das “intervenções humanitárias”, do tipo de guerra que se constituem as “sanções econômicas”, do “direito penal do inimigo”, do “lawfare”, e, em uma situação de guerra total, de perseguição aos “monstros e degenerados”, aos terroristas ou corruptos (a depender do enquadramento geográfico daquele que fala), como os cidadãos tingidos pela nostalgia da nobreza ou pelas promessas da burguesia ascendente, ainda no século 19, perseguiam os supostos delinquentes, os vagabundos ou celerados para falar numa linguagem que qualquer um entende – no caso brasileiro, todos os de origem humilde ou os que a estes representam, que tomaram o poder e ousaram dividi-lo com o resto da população, aumentando-lhe a qualidade de vida e as perspectivas futuras. A crise atual, como não deixa de ser evidente ao espectador minimamente atento, guarda relação direta com as infrações contínuas dos direitos fundamentais garantidos em inúmeros pactos internacionais.

As “conquistas” da democracia ocidental nunca foram tão contestadas, pelo menos desde a queda do muro de Berlim, em 1989. Por exemplo, quando falam de “conquistas” de Obama, em contraposição às expectativas diversas que reúne o governo Trump, não se tem em mente que para cada “vitória” do democrata tivemos um retrocesso inacreditável. Para que Cuba, se impomos e continuamos a impor sanções à Rússia? Para que Irã, que vive um momento de relativa paz, se temos conflitos na Ucrânia? A Rússia nos humilhou com sua vitória na Síria, então quadruplicamos a presença de tropas nas suas fronteiras, principalmente nos Bálticos e, cada vez mais, na Ucrânia.

Quero dizer o seguinte: quando se menciona a desativação de Guantánamo, não se vê que se substituiu isso pelos drones, pelos assassinatos das “reuniões de terça-feira”. Que tipo de pessoas são assassinadas pelos drones? Existe por acaso alguma correlação entre essa lista e a dos terroristas que antes eram presos? Não são, em nenhum dos dois casos, cidadãos americanos. Pelo menos não do tipo daqueles que estão morrendo agora por suicídio e overdose, os white-american, não latinos e de meia-idade, a antiga classe média industrial do país: a maior epidemia de mortes violentas em toda a história dos EUA2. Então, que tipo de gente vem sendo perseguida desde o governo Bush e que o governo do Nobel da Paz só fez piorar? Sem contar com o mais famoso caso3, o assassinato do embaixador americano na Líbia com a conivência da CIA e de Obama, provavelmente como forma de aumentar posteriormente a presença dos “terroristas moderados” na região. A primeira consequência foi o assassinato, via drone ou linchamento (depende da versão aceita), de Kadafi.

A partir de então, com a multiplicação dos “rebeldes moderados” na região e o agigantamento do Estado Islâmico, tem início a tentativa de destituição do presidente sírio Bashar Al-Assad. Com a intervenção russa, nunca se esteve tão perto de um confronto nuclear entre as duas grandes potências. Hillary Clinton, a candidata felizmente derrotada, propôs em sua campanha a criação de uma zona de exclusão aérea na Síria. Isso significaria não só que a Otan deveria abater qualquer avião sírio que estivesse no espaço aéreo de seu próprio país, como também todos os aviões em terra. Se contarmos que a Rússia não faz parte da Otan e que sua força aérea trabalha junto com Assad, deveriam forçosamente ser abatidos os aviões dos dois países, estivessem eles voando ou não. A soberania síria em seu espaço aéreo simplesmente acabaria, e dessa vez uma guerra direta com a Rússia seria praticamente incontornável.

Existem algumas cláusulas internacionais segundo as quais a presença de tropas em terra é uma declaração de guerra de fato, por isso os EUA financiam os terroristas que acabam por fazer o trabalho de seu exército; por isso também a medida “sutil” de se ocupar o espaço aéreo da Síria. Abater aviões russos traria um acidente diplomático de difícil solução, como também seria quase impossível conter um revide do país atingido. Essa é a política dos democratas americanos, com boa base de apoio também no Partido Republicano.

Como me respondeu um amigo profundamente comprometido com diversas lutas políticas dentro dos Estados Unidos:

Como dizemos em inglês, one step forward, two steps back. À exceção que o passo para trás cria um vácuo onde pode se espraiar a confrontação entre superpotências e a guerra nuclear. Quanto aos drones, não deve ser esquecido que alguns dos prisioneiros soltos de Guantánamo depois são alvos dos drones, independentemente do lugar onde estejam. Mas o ponto básico é que a política de Bush e Obama tem sido de promover o terrorismo, primeiro ao proteger as nações que financiam os terroristas – como Arábia Saudita e Turquia; segundo, demolindo as nações muçulmanas seculares como Iraque, Líbia e Síria, que são os bastiões da defesa contra os jihadistas radicais; e terceiro, ao lançar ataques de drones que eles sabem que irão matar muito mais inocentes do que terroristas, além do mais servindo como ferramenta de recrutamento de jihadistas. Um bom retrato disso saiu em outubro de 2016, no site de Glenn Greenwald, The Intercept4.

Um mundo complicado, bem difícil de entender: conquistas históricas, como as mencionadas, realizadas pelo governo do “assassino das terças-feiras”, Barack Obama; depois, um novo presidente dos “nórdicos”, agora legitimamente ruivo, se equilibrando entre o pior que o seu país representa e impulsos para normalizar as relações com o Oriente, colocar freios na Otan e reindustrializar seu país, onde já é longa a fila de famélicos – e por isso sofre um ataque irracional, o chamado “russiangate”, pelo simples fato de mostrar alguma inclinação em reatar relações com os russos5. Há ainda a Alemanha, para dar mostras de mais um caso, cujo ministro das Relações Exteriores é consciente do perigo do avanço da Otan no Leste Europeu, nos Bálcãs, pertence ao mesmo governo que lidera a facção anti-Rússia na Europa6. A consciência mostrada por um de seus principais ministros não é a mesma do Poder Executivo. Pois não é a Alemanha, na Europa, o suporte principal da política imperial contra a Ásia? Mas os nórdicos de além-Atlântico também têm um governo de coalizão. Steinmeier, o ministro citado, pertence ao SPD, que compõe com o CDU (partido de Merkel) a “grande coalizão” germânica. É como se fosse um governo “centrista” (PMDB) com o PT como base de apoio.

Um passo numa medida, outro passo noutra. Parece que, por mais que se corra, não se chega a alcançar o progresso desejado. É bom lembrar que em 2014 o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU e alcançou a menor taxa de desemprego de sua história, na casa dos 4%. Um pouco antes, Dilma iniciara uma luta contra a política de juros altos e os spreads bancários. Chegamos às taxas de juros, tanto pós quanto pré-fixadas, mais baixas da história. Até os efeitos das “marchas de 2013” aumentarem seu poder destrutivo, com o moralismo disperso ganhando um foco com o início da ainda sagrada operação Lava-Jato, e a práxis política diretamente afetada com a eleição de Eduardo Cunha para a Presidência da Câmara – tudo nesse mesmo ano de 2014 –, o governo recuou assustado e assistiu impassível o boicote às medidas de recuperação econômicas com sua não votação em favor das chamadas “pautas-bombas”, ainda em 2015 e até o último dia de Dilma na Presidência.

Na virada de 2013 para 2014 tudo mudou. Uma vitória eleitoral apertada, a tentativa de deslegitimação da eleição encetada desde o primeiro dia, conspirações noturnas não diferentes das que assistimos hoje, quando o atual presidente ilegítimo se reúne às escuras com seus aliados do Judiciário, do Legislativo ou com empresários. Hoje está claro para nós como se retirou o Partido dos Trabalhadores da Presidência da República, com valores, notas, contas no estrangeiro e tudo o mais, ou seja, a forma como foi tramado o impeachment, independentemente do STF validar ou não as provas da delação da JBS, de Raquel Dodge querer dar livre curso às acusações contra Temer e da narrativa de Janot de que “a quadrilha” foi formada em 2003 com a eleição de Lula, apesar das provas e depoimentos prestados dizerem respeito aos últimos anos, dizerem respeito à conspiração que levou ao golpe.

Contudo, é bom lembrar que um único fato poderia, se não anular, pelo menos colocar em xeque todo o processo golpista. Refiro-me às gravações muito parecidas em método das realizadas por Joesley Batista, e que, bem antes, num áudio escandaloso com Romero Jucá, já tornava nítida toda a trama dos que queriam a mudança de regime. As gravações de Sérgio Machado foram publicadas no fim de maio de 2016, sendo que foram feitas em março. Se o processo de impeachment só foi votado no Senado já quase chegando no meio do mês, por que as gravações só foram divulgadas talvez mais de dois meses depois de terem sido realizadas? Dá para se argumentar que as gravações foram feitas como uma espécie de autoproteção de Sérgio Machado, ao contrário da forma espúria que os irmãos Batista negociaram com a Procuradoria. Mas por que não foram divulgadas bem antes, mas só depois de quinze dias de governo – então – interino? As gravações, inclusive por envolverem o presidente do Senado, poderiam ter simplesmente bloqueado a votação da admissibilidade do impeachment. Mas a Folha de S. Paulo resolveu que estava tudo bem, e soltou no fim do mês as gravações que supostamente colocariam o jornal novamente no “campo progressista”, pura estratégia de marketing, trágica reedição do outrora dito “progressismo” do jornal – diante o inevitável –, as Diretas Já! Nada melhor do que dar um passo à frente para camuflar os incontáveis passos para trás que se deram quando, talvez, ninguém estivesse percebendo.

Os desafios de se pensar do exterior

Foi uma grande perda não só para o Partido dos Trabalhadores ou para o Brasil a passagem recente de Marco Aurélio Garcia. Foi uma perda considerável para a América do Sul como um todo, para o projeto de integração regional através de um Mercosul soberano, a afirmação internacional da Unasul e para o plano de criação de um Banco do Sul, infelizmente deixado de lado ainda no governo Lula. Contudo, existe um aspecto que não podemos ignorar: ele foi muito importante para criar a seção de política internacional dentro do PT. Devemos refletir a respeito e não deixar isso como um problema a ser resolvido depois. O partido sofreu uma série de ataques nos últimos anos, desde o “mensalão”, que acabou por desestruturá-lo de algumas maneiras. Uma dessas maiores perdas foi a saída dessa articulação com as políticas internacionais, com ações propositivas na área como foi comum anos atrás.

"Perda" significa o não desenvolvimento adequado, e não a "morte" ou o "fim". De um modo geral, a América do Sul toda se desarticula. Não conseguimos a mesma unidade quando, por exemplo, se uniram Chávez, Lula e Néstor Kirchner, contra a Alca e a favor do Mercosul e Unasul. Algo sintomático a respeito, é a saída do debate, comum na época, sobre a criação de um Banco do Sul (fundamental para o desenvolvimento regional) e, internamente, a criação de um Eximbank, um banco exclusivamente dedicado ao financiamento das empresas brasileiras no exterior que, conjugado com um controle cambial efetivo, é condição indispensável para o desenvolvimento da indústria nacional. Esse foi um debate travado por José Dirceu até ser preso pela primeira vez, e é um anseio antigo da indústria brasileira.

Tudo isso ficou disperso: 2012 condenação do mensalão, 2013 "jornadas de junho", 2014 Lava-Jato e 2015 com Cunha e suas pautas bombas e “emendas jabuti”, aliados ao conturbado processo eleitoral (que não acabou em 1º de janeiro de 2015) - uma tempestade perfeita. Sem o mensalão, o clima moralista de 2013 teria atraído muito menos atenção. E essa "primavera" aconteceu logo após o julgamento no STF.

Esse é um dilema que vem de alguns anos. O partido fechou-se e foi perdendo contato com suas bases dentro do Brasil, o famoso trabalho político do “corpo a corpo”, principalmente nos municípios pequenos e médios, com atenção às demandas sociais das cidades maiores – espaço, diga-se de passagem, não ocupado com o mesmo êxito por qualquer movimento político atual. Os evangélicos são os que melhor conseguem arregimentar parcelas mais pobres da população, mas ainda é um campo em aberto que não podemos nos descuidar um instante sequer.

Marco Aurélio, professor de História, quadro histórico do partido, junto com Celso Amorim, o maior chanceler que tivemos em décadas, foi responsável pela projeção internacional do Brasil na última década, bem distante do “viralatismo” a que estamos sendo relegados atualmente com o homúnculo que ocupa a presidência e a corte de eunucos que o acompanha. Quando se falar de Celso Amorim, portanto, que se lembre de Marco Aurélio Garcia.

Para realizar esse debate de forma madura, devemos comparar os projetos de unificação do cone sul com as falhas de projetos estrangeiros supostamente mais bem-sucedidos. Falo de um debate maduro, porque determinadas formas de contestação não devem dar lugar à histeria. Costuma-se colocar em evidência, por exemplo, a distância que separa o sucesso da integração europeia das tentativas supostamente não tão exitosas em nosso continente. O projeto de união monetária, de forçar a união política via unificação das moedas, na Europa, longe de poder ser comparado ao projeto Mercosul, deve antes ser ligado ao mais infame dos projetos, veementemente rechaçado na virada à esquerda em nosso continente com as eleições de Chávez, Néstor Kirscher e Lula, quero dizer, o projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Junto com a âncora cambial que destruiu qualquer projeto de fortalecimento de nossas indústrias com o Plano Real, levado às raias da insensatez com Gustavo Franco, a dolarização de nossa economia foi completa com a entrada de ativos tóxicos, altamente especulativos, alimentados pelas altíssimas taxas de juros durante a gestão de Armínio Fraga no Banco Central. Some a isso os projetos de privatização, tivemos um país com a estrutura física abandonada e a supremacia da moeda dos yankees por aqui. A chamada “classe média importadora” se regozijou e ainda hoje o real valorizado é seu totem. No entanto, projetos similares ocorreram em todo o Cone Sul, e a Alca, fora a derrubada das barreiras comerciais, tornaria quase que de fato a unificação monetária, com o possível êxito da equiparação das moedas nacionais com o dólar. Faltaria só criar, não só de fato, mas de direito, uma união monetária entre as Américas, projeto ventilado quando dessas discussões tenebrosas.

Em nada o projeto de união política do Cone Sul pode ser comparado a qualquer correlato, atualmente, no sistema transatlântico. Ao contrário da América do Sul, na Europa as vozes dissonantes foram escabrosamente caladas. Em 1989 foi assassinado o banqueiro alemão Alfred Herrhausen, defensor de propostas como as do desenvolvimento da Polônia e outras nações do Conselho para Assistência Econômica Mútua (Comecon) como forma de integrar o antigo bloco soviético, o Leste Europeu em específico, numa tratativa talvez um pouco menos ampla do que a do eixo Paris–Berlim–Viena como proposta na mesma época por Lyndon LaRouche. Em 9 de novembro cai o muro de Berlim; no dia 28, Helmut Kohn, chanceler alemão, propõe a criação de um programa de dez pontos para unir os diferentes estados alemães, sem consulta aos Aliados ou a seu partido de coalizão, o Partido Democrático Liberal; no dia 30, Herrhausen é assassinado por uma célula terrorista chamada de Fantasmas. Quebra-se o elo que poderia criar uma zona de desenvolvimento conjunto entre Leste e Oeste. Detlev Rohwedder, um grande industrialista alemão, nos primeiros meses de 1991 propõe mudar os projetos de privatização das empresas do país, já que isso traria consequências funestas para a economia. Foi assassinado pela mesma célula terrorista que matou Herrhausen, métodos próprios do Assassino Econômico, como destacou Helga Zepp-LaRouche em uma oportunidade7. Em artigo luminoso, a mulher que hoje é homenageada na China como uma das proponentes, ainda na década de 19908, do projeto hoje em pleno andamento, a iniciativa “Um Cinturão, uma Rota”, se posicionou dessa maneira a respeito do sistema euro:

Como é bem conhecido, o euro não nasceu de considerações econômicas sólidas, mas, pelo contrário, da intenção geopolítica de vincular a Alemanha reunificada ao cinturão da UE, forçando-a a abandonar o marco alemão. O ex-assessor de François Mitterrand, Jacques Attali, mais tarde admitiu que era claro para todos os participantes daquele tempo que uma união de moedas não iria funcionar sem união política, e que esse defeito de nascença do euro foi intencionalmente designado para forçar a Europa para uma união política posteriormente! É precisamente isso que estamos testemunhando agora, com os advogados da união tentando nesse momento, sob condições de crise extrema, introduzir contratos em euro como passo final para um Estado federativo da UE9.

Não precisamos apenas de analistas políticos internacionais, tampouco de historiadores especialistas no assunto para os quais muitas vezes a conjuntura atual é uma bruma densa que não nos deixa ver dois palmos à nossa frente10. O projeto europeísta não é diferente do projeto do “novo século americano”, o dos neoconservadores que chegaram ao poder com Bush pai. Não dá para ficar valorizando a velha Europa quando esta não nos fornece nada mais do que uma ilusão calcada nos séculos de colonização que ainda nos pode deixar fascinar pelas modernidades da metrópole. A nova ordem, o mundo multipolar para além do perigoso mapa geopolítico desenhado nos EUA, na City de Londres e com o apoio da maior potência industrial e militar europeia, a Alemanha, além de seus sócios em Israel ou no Oriente Médio, é a que se iniciou também naquele ano crucial de 2014 quando, em Fortaleza, a iniciativa Brics foi lançada. Uma série de projetos de desenvolvimento em conjunto foi programada, dali saiu o Banco dos Brics, e ainda o conjunto de medidas econômicas que cada vez ganham mais impulso, principalmente por causa de Rússia e China, como a saída dos petrodólares nas transações de gás e óleo russo com os chineses, no mais, uma derivação da medida defendida também por Dilma, na ocasião, de se criar uma cesta de moedas para desatrelar as transações comerciais entre os países dos marcos do dólar e do euro.

O gesto de Lula e Celso Amorim ao contornar a arrogância americana com os iranianos, evitando assim um conflito potencialmente talvez pior do que o experimentado na Líbia e na Síria, deve ser reeditado. Parcerias econômicas, mas gestos altivos. Lula e Amorim, hoje, não estariam mais na defesa da paz no Irã, como é óbvio. Estariam, contudo, ainda do “lado de lá”, talvez num ponto ainda mais extremo: contra as “intervenções humanitárias” que ainda podem levar a um desastre de proporções apocalípticas; a favor de novas parcerias econômicas, na Ásia, na África, na América do Sul – como sempre foram, mas talvez agora de forma ainda mais radical.

Sem essa radicalidade não podemos ultrapassar a linha que separa o “dentro” do “fora”, do interdito que prescreve que cada um deve viver dentro de sua própria tribo enquanto o império, com sua brutalidade, tenta a todos devastar. Sem essa visão de fora, como exemplifica Marco Aurélio Garcia e Celso Amorim, como praticada por Lula, como ousada por Putin ao se unir a Assad e derrotar o Estado Islâmico, nunca teremos a grandeza que sempre almejamos.

Rogério Mattos é professor formado em História, mestre em Letras pela UERJ e doutorando em Filosofia pela mesma faculdade. Filiado desde 2009 ao PT-RJ. Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica alguns de seus escritos

Notas
  • 1. DENISTON, Benjamin. “The Scientific Importance of China’s Lunar Far Mission”. Executive Intelligence Review, 2 de fevereiro de 2016
  • 2. STEINBERG, Jeffrey. “How Obama Criated an Opioid Epidemic”. Executive Intelligence Review, 4 de novembro de 2016.
  • 3. “Declassified Dia Documents Can Bring Down Obama Now”. Publicado pelos editores em 20 de maio de 2015, no site http://www.larouchepac.com
  • 4. https://theintercept.com/drone-papers/
  • 5. É bom lembrar que no final do governo Obama as relações EUA-Rússia estavam praticamente congeladas, sem canais de ligação direta entre os dois países. Os motivos para tanto foram o suposto ataque de hackers russos aos arquivos do Partido Democrata, posteriormente vazados para a Wikileaks, que demonstravam as manipulações de Hillary Clinton contra Bernie Sanders em pleno processo eleitoral. Esse é o infame “russiangate”, ou seja, a suposta tentativa de influência russa nas eleições estadunidenses. Como os acusadores não mostram evidências (sim, aqui como no Brasil, sem provas), parece mais um caso de histeria neomacartista que se repete com suas particularidades tanto no sul quanto no norte da América.
  • 6. Recomendo expressamente o artigo abaixo a respeito desse tema, como a outro caso em particular, a histeria russofóbica nos EUA, uma luta contra o “perigo vermelho”, o neomacartismo, quase idêntico ao que acontece com o surto moralista no Brasil atual. FÜLLGRAF, Frederico. “A culpa é do Putin – A guerra midiática do Ocidente e a demonização da Rússia”. Publicado no Jornal GGN em 23 de janeiro de 2017.
  • 7. ZEPP-LAROUCHE, Helga. “Unmasking the Secret War by the 'Economic Hit Men'”. Executive Intelligence Review, 10 de dezembro de 2004.
  • 8. Ver a publicação no China Daily a respeito do protagonista da senhora Zepp-LaRouche (chamada de “Mrs. New Silk Road Lady”), na edição de 1 de setembro de 2017 da Executive Intelligence Review. Em outro periódico chinês, o People, saiu matéria em que se alude aos mesmos feitos da acima referida e de seu marido, Lyndon LaRouche, com destaque para o projeto de transposição das águas do rio Congo e a revitalização do lago Chad, na África – projeto em muitos aspectos similar ao que fizemos aqui com a transposição do rio São Francisco: http://en.people.cn/n3/2017/0821/c90000-9258249.html
  • 9. ZEPP-LAROUCHE, Helga. “Existe vida depois do euro!”. Tradução publicada em 12 de agosto de 2012, diponível em http://portugues.larouchepub.com.
  • 10. Ver o artigo de Mathias Alencastro, “A curiosa paixão”, publicado no site da Folha de S. Paulo em 4/9/2017. Mathias, ao comparar Macron com Dória, na verdade ao reconhecer o que acredita ser a superioridade do primeiro sobre o segundo (o “método”), derrapa em seu entusiasmo inicial pelo então candidato à presidência da França, o que então com mais categoria encarnava a ideia de “europeísmo”, ou seja, da ideia de Bruxelas, da ditadura da Troika e suas instâncias supranacionais. Por outro lado, o grande historiador Luís Felipe de Alencastro, apesar de ter morado a vida inteira na França, como especialista de História do Brasil, não se posiciona com a mesma sagacidade, com a extrema inteligência com a qual se coloca diante de nosso passado escravocrata, por exemplo. É como um juiz que “fala nos autos” (matéria rara, entretanto), ou seja, não se pronuncia com a mesma grandeza – agruras da profissão, tragédias do profissionalismo quando este de fato é levado a sério – como faz quando são assuntos internos. Este o desafio que devemos enfrentar.
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