Para grego ver

O Brexit é o resultado de uma tendência contraditória: de um lado, a decisão em que teve importante peso a influência da direita e, de outro, um protesto de amplas camadas populares contra o caráter neoliberal da UE realmente existente. Como impedir que a extrema direita capitalize essa insatisfação? Um caminho talvez inclua alterar a postura da esquerda frente à União Europeia

amplos setores da classe trabalhadora britânica a favor do Brexit

Amplos setores da classe trabalhadora britânica também votaram a favor do "Leave"

Foto: Stefan Wermuth/Reuters

A principal variável da situação atual – no plano internacional, regional e nacional – é o agravamento da crise, em suas múltiplas dimensões. Daí a crescente polarização ideológica, bem como a escalada de conflitos militares, em todas as partes do planeta.

Um quarto de século depois do desaparecimento da URSS, o mundo assiste ao reaparecimento de ameaças que se fizeram sentir no período das guerras mundiais, no início do século 20.

A esquerda vem resistindo, mas até o momento essa resistência é limitada. Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, cresce a presença de forças políticas de ultradireita, em alguns casos de assumida orientação fascista.

Nos EUA, embora a candidatura Sanders tenha demonstrado ser possível uma ruptura com os paradigmas tradicionais das eleições presidenciais naquele país, os setores majoritários da esquerda não constituíram até hoje uma alternativa político-eleitoral independente, tornando-se reféns de uma candidatura da direita supostamente civilizada, conhecida lobista de Israel e cúmplice de recentes golpes na América Latina.

Na Europa, os setores majoritários da esquerda criticam os rumos da União Europeia, que segue controlada pelo grande capital, causando danos aos direitos sociais e às liberdades democráticas da classe trabalhadora, além de engajar a UE na política imperialista dos EUA. Mas a maioria da esquerda europeia continua mentalmente prisioneira de uma única hipótese: da "reforma democrática" da UE. E como está reforma democrática nunca acontece, o terreno fica livre para que a direita nacionalista hegemonize amplos setores da classe trabalhadora que sofrem o desmantelamento de seus direitos.

O Brexit é o resultado dessa tendência contraditória: de um lado, uma decisão em que teve importante peso a influência da direita; de outro, um protesto de amplas camadas populares contra o caráter neoliberal da União Europeia realmente existente.

Não foi a primeira, nem será a última vez na história. Há inúmeros exemplos em que forças políticas e sociais consideradas “conservadoras” tomam iniciativas que rompem o status quo ante, desencadeando um processo de ações e reações que no limite colocam em risco os interesses da classe dominante.

Não sei dizer se o Brexit entrará nessa lista de exemplos. Aliás, não é garantido nem mesmo que o Brexit ocorra efetivamente. Afinal, como lembra Alex Callinicos, num instrutivo texto que recomendo (“Brexit: um giro histórico-mundial”, Blog Convergência), essa não foi a primeira vez que as “as instituições e iniciativas da União Europeia foram rejeitadas pelo voto popular – Grécia (2015), Irlanda (2001 e 2008), Holanda (2005), França (2005), Suécia (2003), Dinamarca (1992)”.

E como noutros casos, agora o establishment está buscando maneiras para desqualificar e desconsiderar o voto popular.

Bom dizer que a turma da City não está sozinha nesta tarefa. Muitos analistas de esquerda têm contribuído para apresentar o voto britânico de 23 de junho como de velhos rurais, xenófobos, racistas, desinformados e irracionais.

Não falta muito para que concluam que temas complexos assim não deveriam ser submetidos ao voto popular. E que como o povo não teria sabido escolher bem, talvez seja correto desconsiderar, anular e reverter o resultado.

Supondo que tudo isso fosse verdade, ainda assim caberia perguntar: seriam apenas aquelas razões a explicar o voto de amplos setores da classe trabalhadora britânica a favor do Brexit?

Foi por aqueles motivos que alguns grupos de “ultra”, o Partido Comunista, boa parte do eleitorado do Labour, alguns sindicatos e muita gente de esquerda votou a favor do “Leave”?

Ou também pesou uma análise profundamente crítica acerca da União Europeia realmente existente, uma opinião que não está embasada em desinformação ou em xenofobia, mas em fatos “testarudos”, como diriam nossos vizinhos?

Fatos que, aliás, não constituem surpresa, tendo em vista os caminhos seguidos pela Europa pelo menos desde os anos 1990. A esse respeito, recomendo o artigo “Euro – uma nova Europa?”, assinado por Giorgio Romano Schutte e publicado por Teoria e Debate, em 1998. Não sei se o autor segue concordando com o que ele dizia naquela época, mas os fatos confirmaram várias das hipóteses que ele sustentou há quase vinte anos.

Num resumo de minha responsabilidade: desde a introdução do euro até hoje, o grande capital vem ganhando e a classe trabalhadora vem perdendo, crescendo a distância entre a “utopia” da integração e a União Europeia hegemonizada pelos interesses neoliberais.

Apesar disso, como já foi dito, nas duas grandes famílias da esquerda europeia predominou até agora, por ampla maioria, a tentativa de preservar ao mesmo tempo o Estado de bem-estar e a União Europeia (o que em grande parte dos casos significa preservar também o euro).

Ou seja: predominou a crença de que seria possível uma reforma democrática na União Europeia. O exemplo mais recente disso foi a Grécia. E quando ficou claro que não haveria concessão por parte da UE, quando ficou evidente que era preciso escolher uma das alternativas, o governo Tsípras escolheu o euro e a União, mesmo à custa de fazer-se responsável por um plano de ajuste que havia sido derrotado pelo povo grego em duas votações seguidas.

Como resultado de posturas desse tipo – que, como sabem os franceses, não constitui “privilégio” dos gregos –, parcelas crescentes da classe trabalhadora estão abandonando seus velhos e novos partidos, em favor de opções de direita.

Alguns analistas de esquerda argumentam que essa opção não seria apenas politicamente reacionária, mas também seria “irracional”, uma vez que entendem que fora da União a situação tornar-se-ia ainda pior para os trabalhadores.

Essa linha de argumentação, às vezes acompanhada de justificativas supostamente técnicas, é uma versão do “não existe alternativa” da Dama de Ferro. Uma chantagem que por diversas razões (entre elas a existência da Libra) não teve êxito no dia 23 de junho.

Não está claro quais serão os desdobramentos imediatos do Brexit.

O resultado será respeitado? Quem ganhará as próximas eleições britânicas? Quem crescerá nas eleições que ocorrerão em outros países, inclusive Alemanha, França e Holanda? Quais as possibilidades de independência da Escócia e da reunificação da Irlanda? Que efeitos o Brexit terá sobre a política internacional, em particular a pressão da Otan na fronteira russa e a negociação dos tratados de comércio?

Seja como for, continua pouco provável que ocorra uma “reforma democrática” da atual União Europeia, seja porque isso iria contra sua natureza mais profunda, seja porque a dinâmica da luta política tende a bloquear esse desfecho mais do que bloqueia os desfechos alternativos: a continuidade da “Austeuropeia” e os variados tipos de “Exit”.

Por esse motivo, se não ocorrerem fatos externos que alterem substancialmente o cenário europeu e mundial, a polarização da política europeia deve prosseguir e a insatisfação da classe trabalhadora deve crescer. Isso mesmo que não ocorra uma cada vez mais provável nova crise econômico-financeira aguda, similar à de 2007-2008.

Como impedir que a extrema direita capitalize essa insatisfação? Um caminho talvez inclua alterar a postura da esquerda frente à União Europeia. Quem sabe, aliás, seja essa uma maneira de materializar a “outra Europa” que consideramos possível, necessária e urgente: desmontando pela esquerda, a realmente existente.

Valter Pomar é militante do PT e professor da Universidade Federal do ABC

 

 

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