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Navalha na carne

O fogo pesado contra a presidenta Dilma recrudescerá, à medida que o principal partido de oposição, a mídia hegemônica, sinta que os efeitos da artilharia estão provocando reflexos, nem que lentos, na popularidade da presidenta. Uma mídia assim partidarizada é inaceitável

A entrevista de Lula aos blogueiros atiçou a arrogância da mídia hegemônica

A entrevista de Lula aos blogueiros atiçou a arrogância da mídia hegemônica

Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Concluo aqui. Digo duas ou três palavras. Não foi por acaso que iniciei esta série com o episódio do suicídio de Getúlio Vargas. Uma leitura me impactou de modo muito especial, me emocionou: o texto de Flávio Tavares – “Getúlio, Rio, mar e lama”. Segundo capítulo do livro O Dia em Que Getúlio Matou Allende, vai da página 31 à 98, leitura indispensável a quem queira compreender aqueles dias.

São muitas as tragédias daquele agosto de 1954. Não só pela coragem de Getúlio – sempre resisti a qualquer subestimação quanto ao suicídio em algumas circunstâncias. Tenho discutido isso neste ano de lembranças dos cinquenta anos do golpe militar de 1964. Aqueles que na resistência à ditadura se suicidaram o fizeram num gesto de coragem, não de covardia.

Getúlio tinha a exata dimensão de seu gesto, sabia ser uma atitude política, a única possível para abortar o golpe em andamento. Ele, na solidão, toma a decisão surpreendente.  

A carta-testamento evidencia a clareza do ator político. Tudo pode ser dito, vá lá, de um ângulo psicanalítico, análise descartada aqui, por impróprio para os limites deste texto. É inegável, no entanto, a coragem presente no gesto, a convicção quanto ao significado histórico, a “vingança” absolutamente inesperada face a seus algozes, quaisquer fossem.

A correlação de forças se alterava com o gesto. Sair da vida para entrar na história, como registraria no texto inesquecível, memorável, preciso em seu vaticínio.

Tinha noção do impacto do gesto.

No íntimo, Getúlio certamente carregava a convicção de que o sangue derramado levantaria o povo, o levaria às ruas, enfurecido, em busca de seus algozes. Como ocorreu. Conhecia o povo brasileiro.

O golpe foi adiado por dez anos.

Mas, a mim, impressionou-me outra característica daquele momento – as manobras golpistas eram conduzidas pela mídia de então, a mesma mídia que vai reincidir e ser vitoriosa em 1964. Identifiquei um DNA golpista bastante anterior aos dias atuais.

E me impressionou também a tragédia pessoal de um jornalista – Pompeo de Souza, cérebro e mentor principal da “República do Galeão”, onde o golpe, à guisa de apurar a morte do major Vaz, caminhava a passos largos. Tratava-se de transformar o atentado que resultou na morte do oficial da Aeronáutica “em motivo para uma modificação política”, como confessou o coronel Adhemar Scaffa Falcão, que conduzia o inquérito, trinta anos depois daqueles acontecimentos, ao historiador Hélio Silva.

Pompeo de Souza acampou na “República do Galeão”, e de lá orientou toda a operação midiática destinada a criar o cenário favorável ao golpe. Chefe de redação do Diário Carioca, foi repórter, pauteiro, chefe de reportagem, ideólogo de todas as manobras golpistas, aceito pelo restante da mídia, que acolhia tudo o que saía daquela inusitada república golpista.  

Quase o vejo diante do espelho, barbeando-se, e a notícia vinda pelas ondas do rádio, e a reação, o choro convulsivo, descontrolado, a vida passada a limpo, e ele, no momento mesmo em que as lágrimas inundavam seu rosto, sentia sumir para sempre em seu coração qualquer raiva contra Getúlio. A catarse veio com a navalha na carne.

Getúlio não era o covarde que ele e Lacerda haviam construído. Tomava consciência disso no exato momento do passar da navalha ao ouvir a notícia.

Chorava de raiva de si próprio.  

Contou isso a Flávio Tavares.

Era um homem íntegro, e acreditava fazer o bem ao combater o getulismo. Tavares o define como respeitado, correto e moderado. Católico e filiado ao Partido Socialista. Difícil pensar nele, com tal perfil, envolvido na tarefa antigetulista, cumprida com rigor e consciência até o momento do tiro no coração. Será senador em 1986, eleito pelo PMDB, ao lado de forças políticas próximas ao ideário getulista.

O suicídio do adversário foi sua Estrada de Damasco.

O antigetulismo fora uma “ideologia” plantada na sociedade brasileira, ao menos em parte dela. E a plantação, por obviedade, fora feita por uma mídia raivosa, inconformada com a presença do getulismo na cena brasileira, especialmente contra aquele novo Getúlio nascido das urnas em 1950, pronto a prosseguir um projeto ousado de nação, industrializante e, de alguma forma, preocupado com as reivindicações dos trabalhadores, um governo determinado a melhorar as condições de vida do povo, ao menos do proletariado urbano.

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