Neoliberalismo e marchas: o que uma coisa tem a ver com a outra?

O modelo de partidos populares que reunia amplos interesses sociais foi substituído pela ideia da “individualização“, na qual o comportamento de mercado penetra em todas as áreas da vida.

Após a queda do Muro de Berlim, o neoliberalismo se transformou no pensamento

Após a queda do Muro de Berlim, o neoliberalismo se transformou no pensamento único

Foto: Stringer/Reuters

Nesta série de artigos procura-se sublinhar algumas afinidades entre as marchas populares de junho de 2013 e as das décadas de 1970-1980. Em essência, os movimentos anteriores lutavam pela democracia e pelos valores do Estado de Bem-Estar inscritos na Constituição de 1988. Hoje, questionam a qualidade da democracia e da cidadania social que vigoram no país.

Nos textos anteriores, argumentou-se que, entre 1998 e 2013, por diversas vezes as ruas ganharam, mas não levaram. As elites dirigentes várias vezes conseguiram mudar para conservar o status quo. Essas manobras, iniciadas na transição democrática, foram aprofundadas entre 1990 e 2002, quando se formou no Brasil o grande consenso favorável ao projeto neoliberal.

No campo político, inicia-se o longo ciclo de crise da democracia participativa, a mesma que agora, em 2013, está sendo contestada. Assiste-se, nessa quadra, à remontagem da tradicional coalizão que tem sustentado o poder conservador no Brasil. Políticos identificados com a ditadura e outros identificados com o projeto reformista democrático dos anos 1970 passaram a ser a base de sustentação do antagônico projeto liberalizante.

No campo da cidadania social, a conservação do status quo social passava a exigir a eliminação do capítulo sobre a “Ordem Social” da Constituição da República. O Estado mínimo, cerne da agenda liberalizante, é a antítese do Estado de Bem-Estar Social, cujos valores foram consagrados na Carta de 1998 (e, em tese, assegurariam o tal “padrão Fifa” exigido pelas ruas).

É verdade que o neoliberalismo corresponde à etapa da concorrência capitalista no contexto da globalização. Mas muitos autores sustentam que no Brasil houve opção “passiva” ao projeto. No próximo artigo analisaremos o caso brasileiro. Neste, serão privilegiadas as mudanças ocorridas no plano internacional.  

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