• Edição 121
  • 11 fevereiro 2014
    • Carlos Henrique M. Menegozzo

O debate sobre o papel dos estudantes de classe média

Uma vertente coloca que os estudantes da classe média podem ser a vanguarda ideológica da transformação social. Outra, no entanto, indica que limitações econômicas levam a ações políticas para manter a ordem vigente

Acredito que o debate sobre o papel dos estudantes de classe média envolva três posições fundamentais. Apresento duas delas aqui, discorrendo no texto sobre a terceira, com a qual me identifico. Em primeiro lugar, há quem considere que, não obstante sua condição predominantemente “pequeno burguesa” e sua relativa impotência política (atribuída a essa classe em função da marginalidade de sua posição relativamente à produção), o estudante desempenha ou pode desempenhar o papel de “vanguarda ideológica” de forças revolucionárias, entendidas aí enquanto “movimento operário”. Essa posição, que tende a minimizar o condicionamento de classe do comportamento e da consciência estudantis, encontra-se, segundo Martins Filho (1987), nas contribuições de Chasin (1961 e 1962), Ianni (1968) e Marini (1970), por exemplo. Tais posições tendem a ser teoricamente acompanhadas de concepções crítico-reprodutivistas da educação (Cf. Menegozzo, 2013), resultando em proposições que minimizam o potencial do estudante em termos de mudança do aparelho educacional, valorizando-o todavia como segmento privilegiado ao recrutamento de quadros revolucionários profissionais.

Uma segunda posição pode ser encontrada, por exemplo, em Cavalari (1987). Ela compartilha da ideia da impotência política do estudante em termos econômicos, derivados de sua condição “pequeno burguesa” marginal – o que explicaria, por exemplo, o particular apreço do movimento estudantil por “ações simbólicas” e seu estilo de participação “iluminista” (pretendendo falar em nome de outros setores da sociedade na condição, digamos, de vanguarda esclarecida). Mas se localiza no extremo oposto da primeira posição, no que tange ao aspecto ideológico: aponta uma absoluta limitação política do estudante também nesse quesito, interpretando as manifestações de engajamento estudantil, não obstante as formas radicais que pode assumir, como produto de reações corporativas de classe destituídas de potencial revolucionário. Nesses termos, pautas como a ampliação de oportunidades educacionais poderiam ser interpretadas como manifestação da “ideologia da ascensão social” a capturar estratos superiores da classe trabalhadora numa irrealizável expectativa de ascensão, servindo assim ao comprometimento dos trabalhadores com a ordem social vigente e, portanto, de contenção ideológica de forças potencialmente revolucionárias (C.f. Saes, 2004).

Uma terceira posição, como se pode no artigo Nova classe trabalhadora e o movimento estudantil, considera a potência transformadora dessa “pequena burguesia” de um ponto de vista ampliado.

Carlos Henrique M. Menegozzo é sociólogo

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