2016: em vez de entraves, janelas abertas

Torna-se imperioso promover o encontro das experiências municipalistas do PT para reconstruir uma marca e um discurso homogêneo para serem apresentados ao país, com foco na realidade local, numa estratégia híbrida, para revelar uma identidade nacional e local das candidaturas do partido

As eleições de 2016 serão na base do 'verbo e da sola de sapato'

As eleições de 2016 serão na base do 'verbo e da sola de sapato' e nisso o petismo nada de braçada

Foto: Paulo Polônio/Divulgação

"As eleições de 2016 e a tradição petista" é um artigo do presidente do PT, Rui Falcão, publicado no site do partido. De início, concordo em gênero, número e grau com a assertiva "só quem perde antecipadamente é quem se recusa a lutar – e esta não é a tradição petista", uma vez que, na visão de muitos analistas, o PT irá contemplar uma fragorosa derrota nas eleições municipais de 2016 devido à baixa popularidade do governo, à piora dos indicadores de emprego e inflação (devido ou não ao ajuste fiscal) e ao desgaste da Operação Lava-Jato, que incrementa a expansão do antipetismo.

Entretanto, Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, identificou, em vários artigos, que o antipetismo de hoje é do seu tamanho histórico e Renato Meireles, presidente do Instituto DataPopular, em outras tantas entrevistas, demarcou, em seus seríssimos estudos sobre a classe C, que o dilema atual da reprovação do governo reside, sobretudo, na dificuldade de diálogo com os eleitores que reelegeram a presidenta Dilma Rousseff, despertando neles temor quanto ao seu próprio futuro num cenário de crise econômica. Mas o PT ainda tem força e apoio e conta com a liderança do ex-presidente Lula nas pesquisas, apesar de vivermos o pior momento da maior crise política desde 1964.

Tudo indica que as eleições de 2016 serão as primeiras sem financiamento empresarial de campanha, portanto, com custos reduzidos. Portanto, sem o fantasma de que a oposição seguiria regada a jatos de dinheiro de empreiteiras, enquanto o PT, pelos efeitos dissuasivos de Sergio Moro e cia., amargaria um deserto de apoio, apesar de ter sido o partido que criou um mercado interno de massas, com crédito abundante e novas rotas de exportação extremamente favoráveis ao empresariado. Ou seja: 2016 será na base do “verbo e sola de sapato”, como lembrou o presidente do PT. Nisso, o petismo nada de braçada.

Como também deixa claro Rui Falcão, "nossas campanhas terão de ser pautadas, obrigatoriamente, pela defesa do PT, do legado dos governos Lula/Dilma". Logo, a ideia que passou a ser veiculada por alguns jornais de que o suposto afastamento de Lula da presidenta seria planejado para evitar o pior em 2016 é outra falácia. Ao contrário, admoestado diuturnamente pela velha mídia, será mais uma oportunidade e tanto, assim como em 2014, para a sociedade ouvir verdades sufocadas.

Mais do que essa oportunidade, há outra: talvez, depois de quase 13 anos, podem ser as eleições nas quais os candidatos do PT não disputem mais com os signos "amigo do Lula e da Dilma" e, por isso, tidos pelo povo, com pinceladas do bom e velho marketing político, como os mais aptos à municipalização das políticas sociais do governo federal. Pode ser um retorno aos anos 1990, quando trabalhadores projetados à condição de candidatos a gestores públicos e legisladores – intelectuais orgânicos – venciam eleições promovendo cases de sucesso do PT. Bolsa-Escola, Orçamento Participativo, Banco do Povo foram carros-chefe de uma futura gestão ou da que pretendia se reeleger. Inversão de prioridades com participação popular, a linha política. Mandato coletivo, a "pegada" legislativa.

Em livro daqueles tempos da Fundação Perseu Abramo, Governo e Cidadania1, o então presidente do PT, José Dirceu, comprou uma polêmica entre escritos de expoentes do Poder Local petista, como Tarso Genro, Raul Pont, Celso Daniel, Cristovam Buarque e Edmílson Rodrigues: aquele conjunto de práticas que resumia a expressão cantada em verso e prosa num popular jingle da época – “onde o PT governa dá certo!” – deveria virar, a partir dos prefeitos, governadores e parlamentares do partido, um movimento nacional de oposição ao neoliberalismo. Pois é, o PT precisa fazer isso hoje para vencer – como vencia nos anos 1980 e 1990 apesar de estar na oposição e há três eleições derrotado – para projetar 2018 e para criar uma muralha sócio-institucional contra o impeachment por meio da reaglutinação dos eleitores da presidenta Dilma de baixo para cima.

Para tanto, é imperioso um encontro das experiências municipalistas do PT para reconstruir uma marca e um discurso homogêneo (e uma atualização do modo petista de governar) para apresentar ao país, ainda que com foco na realidade de cada cidade, numa estratégia híbrida: meio nacionalizada, meio municipalizada, para revelar uma identidade nacional e local das candidaturas do partido, com grande capacidade propositiva baseada não só na Presidência da República.

Em resumo, projetar uma gestão democrática e popular à luz de desafios do século 21, dentre os quais se inclui enfrentar disputas políticas "sem medo de ser feliz", apostando no discurso político esclarecedor permanente. É preciso responder, inclusive, aos novos dilemas urbanos criados a partir das mudanças dos períodos Lula e Dilma, com o incremento da democratização do acesso aos automóveis, aumento da renda e escolaridade com a correspondente demanda por serviços públicos melhores, esgotamento da capacidade de gestão municipal diante da gama de "ofertas" de políticas conveniáveis contrastando com a piora do endividamento municipal proveniente dos anos FHC e, agora, as dificuldades inerentes ao aperto fiscal e desaceleração da economia.

Essa construção deve ser coerente com as resoluções do V Congresso do PT. Alguns exemplos serão essenciais para serem sistematizados e projetados para 2016, como a luta de São Paulo pela ciclovia, redução de velocidade para aumentá-la e reduzir mortes, desapropriação de elefantes brancos imobiliários inativos para a moradia popular, inclusão da diversidade – como a população LGBT – em programas como o Minha Casa Minha Vida; a dos maricaenses pela consolidação da tarifa zero; ou, ainda, a belíssima experiência bem-sucedida de consorciamento público intermunicipal (e transfronteiriço) encabeçada pela pequena Dionísio Cerqueira (SC).

Assim, em nível programático efetivo, nos anos 1990 houve uma geração de políticas públicas e formas de escuta social consagradas pelo petismo já citadas aqui, adequadas a uma etapa de resistência ao neoliberalismo, sua ideologia e seus impactos fiscais e deles decorrentes, que vieram a embasar os governos Lula e Dilma. Nos anos 2000, uma nova geração de políticas públicas e métodos de participação social emanados das experiências do governo federal, numa etapa de expansão da economia, da inclusão e mobilidade social, dos direitos, políticas e serviços públicos.

É hora de refazer o caminho à luz das duas sínteses, propiciando uma nova rodada de insumos para aquele projeto de transformação nacional sobre o qual a presidenta Dilma falou na campanha de 2014. Esse conjunto deve contribuir para a ideia de "ir das caixinhas para o sistema democrático de planejamento" e "ir das políticas públicas à reformas de base".

Se o presidente do PT considera que "a construção do programa do governo deve envolver o diálogo com a população, com os movimentos sociais e com aliados nos municípios", é uma questão essencial procurar dialogar com os beneficiários dos programas sociais, nova base do petismo, e organizá-los, assim como estabelecer uma concertação com o sindicalismo. Isso para tentar construir coesão, em nível local, com os mais fortes movimentos sociais, artistas e intelectuais para a formulação de cada plataforma de modo que os eleitores da presidenta se enxerguem, acumulem para reformatar, desde as bases políticas e sociais do PT, o bloco histórico que está disperso, que contribua para recuperar a aprovação do governo federal de baixo para cima. Isso ajuda a materializar a estratégia de uma ampla frente social a se enraizar na luta de projetos, nos locais de estudo, trabalho e moradia, que colaboram com as duas resoluções do parágrafo anterior.

Outras perguntas estratégicas e táticas devem estar na ordem do dia. Como construir novas formas de selar maiorias políticas no plano das cidades e não apenas as tradicionais alianças partidárias, sejam ao centro ou à esquerda, mas envolvendo o ativismo da cidadania? Quem sabe começar por uma pré-campanha com iniciativas de solidariedade social e discussões comunitárias e territoriais abertas à população? Cabe refletir sobre a utilidade premente de se revitalizar os antigos diretórios zonais para esta tarefa, tal como a de ir atrás dos beneficiários dos programas sociais, de preferência empoderando as novas gerações para executar tal missão, engrossando o caldo da renovação da capacidade dirigente em sentido partidário estrito e amplo, o eleitoral.

Na ausência de financiamento empresarial e mesmo com recursos de fundo público, como mobilizar a vontade das pessoas físicas de doarem às campanhas do PT? Talvez utilizando métodos de campanhas coletivas e politizadas de arrecadação, vinculando-as às transformações empreendidas nacional e localmente pelo PT, o estímulo à vontade de fazer mais e o rechaço ao retrocesso. Assim como é perfeitamente defensável, até aqui, o recebimento de doações empresariais de campanha como resultante do novo ambiente econômico criado pelas gestões petistas à frente da Presidência da República, vasta gama de mapas de execução das políticas federais por município permitirão, por exemplo, dialogar com a cidadania sobre como as políticas públicas foram a verdadeira causa da melhora de vida, combatendo a disseminação da ideia do mero “esforço individual” ou o caldeirão de ideologias da dita “teologia da prosperidade”. Outra maneira é usando e abusando das redes sociais para arrecadar fundos  –  crowdfunding – ou resgatar os antigos bingos, rifas e "vaquinhas" nas comunidades articulada com aquela estratégia territorial acima descrita – atividades de solidariedade social, resgate dos zonais etc. – sempre com transparência da prestação de contas em todo período eleitoral, a cada etapa, para encorajar doações ante a demonização da gestão das finanças do PT.

Como estruturar campanhas modernas que dependam menos do marketing político tradicional, na medida em que faltará recursos para contratar este expediente? Quiçá partindo de uma universalização do modelo "Muda Mais", para além do contraponto programático e desconstrução de mentiras de modo inteligente, mas incorporando as ações de projeção de conteúdo de campanha em locais públicos ou iniciativas derivadas, como flash mobs, "isoporzinhos" etc. Nesse caso, é preciso moldar a maneira mais eficaz do uso das redes sociais, transitando de sua utilização em geral, com reprodução de conteúdo, para uma, novamente, articulada com aquela já referida estratégia territorial, para ampliar a potência delas.

Se o Brasil ainda não consolidou uma democracia popular de massas2, as eleições de 2016, na fase de pré-campanha, pode ser um ensaio embrionário. Além do PED, que faz do PT um partido distinto da vocação burocrática dos demais, a escolha de candidatos aos poderes Executivo e Legislativo municipal pode e deve ocorrer de forma pública e aberta, com debates, em cada localidade, das plataformas para a prefeitura e para a atuação da bancada parlamentar. Isso inclusive espanta o fantasma de eventuais prévias para torná-las um elemento mobilizador da sociedade no sentido de dar coesão aos petistas não-filiados e atrair apoiadores e simpatizantes ao projeto a ser apresentado para as cidades. Uma espécie de “primárias” do PT, com engajamento voluntário estimulado do eleitorado interessado.

O PT foi "inventado" nos anos 1980, reinventado nos 1990 e, novamente, nos 2000. Dando todo poder à imaginação, armado com a nova estratégia e programa partidários da Carta de Salvador, é possível ganhar em 2016.

Grandes partidos nacionais, populares e democráticos como o PT podem viver momentos de ascensão, refluxo, erros e acertos e seguir sendo uma força política determinante. Então, é melhor se preparar para a longa marcha da disputa prolongada de hegemonia, em vez de somente para "tempos de guerra", extirpando diagnósticos que tomam tudo por apocalíptico.


Leopoldo Vieira foi coordenador do Monitoramento Participativo do PPA 2012-2015 e do programa de governo sobre desenvolvimento regional da reeleição da presidenta Dilma

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