Quais lições chegam da Inglaterra?

O caráter de massas de um partido, tomado em si mesmo, não explica a política deste partido. No passado, o Labour já havia se reinventado com a eleição de Tony Blair, tornando-se um instrumento do neoliberalismo

Jeremy Corbyn fazendo campanha pela liderança do Partido Trabalhista, em Edimbur

É cedo para falar em "impacto transcendente" da eleição de Corbyn

Foto: Russell Cheyne/Reuters

Fiquei extremamente contente com a eleição de Jeremy Corbyn, novo líder do Labour.

Mas não tiro daí as conclusões expostas por Leopoldo Vieira, em artigo que pode ser lido aqui

Na minha opinião, Vieira faz deduções incorretas. Vou dar exemplos.

1. Vieira diz que ao eleger Jeremy Corbyn como líder, "o Labour mostra que o caráter de massas do partido é a solução".

Pergunto: e a eleição de Tony Blair, mostrou o quê?

Que o Labour então não era de massas?

Ou que o caráter de massas pode ser acompanhado de diferentes linhas políticas?

Na verdade, o "caráter de massas" de um partido, tomado em si mesmo, não explica a política deste partido.

A ideia de que a forma de organização define a política é típica das seitas esquerdistas.

Curiosamente, algumas pessoas que migraram da ultra-esquerda para o centro-direita trouxeram junto esta concepção e, agora no oposto do espectro político-ideológico, continuam tratando as formas organizativas como um valor "em si".

2. Vieira diz que a eleição de Corbyn demonstra "que partidos nacionais, populares, de base laboral profunda, antigos podem se reinventar e, quando o fazem, têm um impacto muito mais transcendente do que o mero surgimento de forças alternativas a eles próprios".

A conclusão é unilateral.

Todo partido pode se reinventar.

O próprio Labour se "reinventou" na época de Blair, indo para a direita.

Naquela ocasião, o "impacto transcendente" foi ver o Labour converter-se num instrumento do neoliberalismo.

Agora, ainda é cedo para falar em "impacto transcendente" da eleição de Corbyn.

Seja o que for que aconteça na Inglaterra, cabe perguntar: o caso do Labour pode servir de base para uma frase tão generalizadora acerca dos "partidos nacionais, populares, de base laboral profunda, antigos"?

Na minha opinião, não.

Aliás, quem conhece a história do Labour sabe que ele sempre foi um caso extremamente singular.

O problema é que Vieira constrói seu raciocínio de trás para frente, mais ou menos como fazem os editores de Veja, que adotam uma tese e mandam os repórteres garimpar "aspas" para "sustentar" esta tese pré-concebida.

Ou seja, o que o preocupa não é estudar a experiência concreta do Labour, mas sim buscar pontos de apoio para uma opinião prévia segundo a qual é mais importante "reinventar" os partidos tradicionais do que apostar no "surgimento de forças alternativas".

Eu sou petista e luto para que o PT supere a crise atual. E estou convencido de que se o PT não tiver êxito, viveremos um longo e reacionário recesso até que surja uma alternativa.

Mas nunca usaria o Labour, muito menos um episódio na vida do Labour, para sustentar teoricamente meu ponto de vista.

Aliás, nos anos 1980 e 1990, era muito comum em certos grupos de ultra-esquerda o abuso de "paralelismos" históricos deste tipo.

3. Vieira diz que em julho deste ano, escreveu para Teoria e Debate um artigo sobre o plebiscito grego no qual afirmava que "a vitória do ‘não’ no referendo grego, no último 5 de julho, não levou a Grécia ao socialismo, como fantasiaram alguns, mas à negociação de condições melhores de seu resgate, o que pode abrir um ciclo de vitórias para as novas (e velhas, porém, renovadas) forças populares europeias".

Não vou discutir as fantasias dos outros.

Mas pergunto: o que aconteceu na vida real?

Na vida real, não houve "condições melhores de seu resgate".

Pelo contrário, o acordo assinado pelo Syriza é, sob vários aspectos, mais agressivo contra a soberania nacional grega e mantém a regressão social.

Nestas condições, vincular a presença e ação do Syriza no governo a um futuro "ciclo de vitórias" para as forças populares europeias é excesso de otimismo.

Aliás, achar que da Europa possa surgir a luz é, na melhor das hipóteses, uma concessão tardia ao eurocentrismo.

No que toca a Europa, o argumento poderia ser outro, do tipo: as mesmas condições que geraram o Syriza também estão presentes em outros países e poderão gerar efeitos similares.

Mas não é isto que Vieira diz. Suas generalizações são indevidas.

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