Espontaneidade e consciência nas periferias de São Paulo hoje

O recente estudo da Fundação Perseu Abramo “Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo” é importante para reforçar que a conscientização de classe não brota espontaneamente a partir da experiência direta dos trabalhadores e que ela demanda, portanto, uma ação deliberada que leve em conta sua realidade e seus valores para que eles não se afastem da política

A luta do trabalhador sozinho contra o mundo é tão brutal que não dá temṕo para

A luta do trabalhador é tão brutal que não dá tempo para refletir sobre a sociedade em que está inserido

Foto: Rose Spina

O recente estudo da Fundação Perseu Abramo, “Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo”, tem causado certo alvoroço e êxtase entre as correntes antiesquerda. Tudo porque ele teria mostrado que há no imaginário dos trabalhadores da periferia das grandes cidades, a exemplo da metrópole paulista, uma luta não entre capital e trabalho, mas sim entre cidadãos e Estado. Os valores do individualismo, da competitividade, do esforço e do mérito formariam, ao lado do reconhecimento da importância do coletivo, os pilares da ideologia dos entrevistados. Isso supostamente faria cair por terra o padrão de análise tradicional da esquerda.

A cogitada incompatibilidade entre a percepção do mundo real pela população marginal e o esquema teórico da luta de classes vem sendo comemorada por essas correntes, como se algo de completamente novo houvesse sido descoberto. O tal de liberalismo popular tem sido recebido com todo entusiasmo pelas forças conservadoras e reacionárias que se fantasiam de liberais para tentar, ao menos na aparência, se disfarçar de progressistas.

Talvez para a esquerda genérica, sem lastro teórico rigoroso, o resultado do estudo possa se configurar como novidade. Mas a verdade é que, deixando de lado alguns elementos específicos que vão ajudar a reorientar a militância do Partido dos Trabalhadores nos próximos anos, pouco se pode destacar de absolutamente revolucionário no estudo. De fato, a pesquisa indica o que a análise orientada pelo pensamento de Marx já descobriu há muito tempo: que os trabalhadores, em reação à exploração a que estão submetidos em sociedades de classes, se colocam contra o aparato legal que permite essa situação, ou seja, se colocam contra o Estado.

Contudo, e é nessa direção que o estudo pode prosseguir, essa contraposição é pulverizada: sem organização política os trabalhadores buscam sobreviver da melhor maneira possível, contornando os diversos percalços do dia a dia e contando unicamente com seu próprio trabalho individual. Não conseguem sistematizar a lógica da polarização política que subjaz à luta de classes. Por essa razão, “a polarização política não é bem definida ou é inexistente para o público estudado” (p. 13). A luta do sozinho contra o mundo é tão brutal que, sem tempo para refletir e entender a sociedade em que está inserido, ele recorre a entidades tradicionais que o amparam: a família, a igreja, a comunidade local. Todo o esforço do trabalhador é direcionado para que consiga sobreviver no ambiente dado, e não há qualquer consideração da possibilidade de se alterar esse ambiente.

A oposição ao Estado decorre da experiência concreta de que ele é o responsável pelo ambiente dado. Porém, desorganizados, os trabalhadores avaliam que não têm força para mudar a situação: a política fica alheia ao que consideram mais eficiente para melhorar suas condições de vida. O imediatismo emerge necessariamente daí e todo o organograma de arquitetura do Estado, como a divisão dos três poderes em Legislativo, Executivo e Judiciário ou a delimitação territorial das esferas federal, estadual e municipal, é visto simplesmente como “o governo” (p. 15). Nesse contexto, não é difícil entender por que todo o ódio se volta contra o Estado e não contra a força política e social específica que comanda o Estado em questão, qual seja, o Estado capitalista. A vontade de aniquilar o Estado é expressão do interesse genuíno dos trabalhadores de se libertarem da opressão real possibilitada pela máquina estatal em qualquer sistema social, seja ele feudal, capitalista ou até mesmo no socialismo hierárquico. Na reflexão crítica sobre a sociedade, a consciência do trabalhador pula imediatamente da subordinação divina para um anarquismo simplista que identifica o inimigo no Estado.

É preciso perceber que, nessa situação, não há qualquer mediação para considerar que o Estado é um aparelho cujo controle pode ser exercido de um jeito ou de outro. Não se vê no Estado a máquina mais poderosa no embate entre as classes sociais. O acúmulo de experiência política que leva o trabalhador a conquistar consciência sobre sua inserção coletiva no sindicato, na classe, no partido, com vistas a tentar o manuseio da máquina em benefício próprio, é hoje muito raro, inclusive porque o perfil da classe trabalhadora brasileira nas últimas décadas mudou do ABC paulista, educada politicamente na tradição anterior, para uma outra base ainda a ser completamente descrita pelos estudos recentes.

A estratégia da reforma dentro do capitalismo busca influenciar a direção do aparelho de tal modo que ele promova políticas públicas de desenvolvimento social, o que acaba gerando, em economias periféricas e dependentes (como o Brasil, a despeito de seu tamanho), os programas de transferência e assistência. Esses programas buscam resgatar do total banimento as populações que até o final do século 20 sequer faziam parte da oficialidade do mercado de trabalho capitalista, só que têm um efeito colateral curioso: os atendidos pelo programa sentem-se “feridos em seu orgulho” por entenderem que são capazes de conquistar seus objetivos sem o Estado (p. 19). As políticas públicas são entendidas como importantes, porém, melhor do que atingir dignidade humana e status de cidadania completa, por meio de assistência estatal direta, é conseguir ascender socialmente por esforço próprio. Nesse sentido, o estudo confirma que os trabalhadores não se veem como coitados fracos e explorados, mas sim como fortes e capazes de conquistar seus objetivos. Só que o imediatismo desse novo trabalhador o faz crer que essa conquista pode ser feita fora de qualquer coletivo organizado. A falta de consciência de classe leva a um superdimensionamento da capacidade individual.

A sobrevalorização da filosofia “faça por si mesmo” acaba gerando a noção de que pode ser melhor ser um empreendedor em condições materiais precárias do que um assalariado submetido à hierarquia do trabalho formal em empresa em condições materiais satisfatórias. Os trabalhadores se identificam integralmente com empresários, principalmente com aqueles cuja história de vir de baixo por esforço próprio é replicada astutamente pelos meios de comunicação (p. 27). Na percepção da nova classe trabalhadora, pode-se ouvir o seguinte raciocínio: antes ser patrão dono do próprio nariz com dificuldades financeiras do que ser um empregado com estabilidade de renda e submetido às ordens de alguém. Portanto, a agressão psíquica da subalternidade do trabalho assalariado não pode ser menosprezada. Esse é um resultado muito importante que deve ser considerado com cuidado, mesmo que a segurança do contrato com carteira assinada seja valorizada, como o estudo também aponta.

Diante desse cenário, o estudo aborda a relação entre política e religião, naquilo que parece ser o alerta mais direto sobre o que a militância petista precisa revisar, dado seu histórico de formação ligado a determinada corrente religiosa e à concentração dos ataques que sofreu nos últimos anos pelo discurso manipulador da grande mídia que criminaliza a política. A população periférica é extremamente flexível quanto à adesão aos variados cultos, mas também muito rigorosa na hierarquia de orientação moral: a salvação do mundo virá das lideranças religiosas e não das lideranças políticas. Na visão dos entrevistados, a política pode contaminar o espaço religioso, mesmo que muitos tenham tido experiências de exploração por meio da monetarização da fé (p. 52).

A desmoralização da política, combinada com a situação de consciência de classe constatada, permite a ideia de que seria possível criar uma “organização suprapartidária”, que unisse apenas as pessoas de bem dos variados partidos com vistas a trabalhar pelo bem comum de toda a população. Os partidos não refletem, portanto, para o público entrevistado, grupos sociais com interesses específicos e até antagônicos (p. 62), fazendo com que não busquem identificar afinidades entre seus próprios anseios e os programas partidários existentes.

Por fim, ao concluir os resultados, a pesquisa menciona um exemplo que pode funcionar como síntese de todo material coletado. Entre pessoas citadas como exemplo de superação e sucesso, que servem de inspiração para a própria conduta, está Lula. No entanto, Lula não figura nesse grupo por ter sido uma liderança política que teve influência decisiva no processo de desenvolvimento econômico e social do Brasil no começo do século 21, mas sim porque ele mesmo simboliza a realidade de ascensão social por ter saído da pobreza e ter conquistado uma posição de reconhecimento na sociedade. Toda a admiração é voltada para o indivíduo e sua história de superação, e pouco sobra para o significado de Lula enquanto agente instigador de uma transformação de âmbito coletivo. Ou seja, pouco sobra para Lula, o político. Assim, não surpreende que ao lado dele estejam nesse grupo Silvio Santos e João Doria Jr., figuras públicas de São Paulo que representam o antigo e o novo modelo do empreendedor de sucesso.

O estudo da Fundação Perseu Abramo é importante para reforçar que a conscientização de classe não brota espontaneamente a partir da experiência direta dos trabalhadores e que ela demanda, portanto, uma ação deliberada que leve em conta sua realidade e seus valores para que eles não se afastem da política. Em outras palavras, “a questão das relações entre a consciência e a espontaneidade oferece um imenso interesse geral, e exige um estudo detalhado” (Lenin [1902], Que Fazer?, cap. 2.), a partir do qual poderemos agir com precisão no processo de organização política que nosso tempo exige. Nada de novo sob o sol: mãos à obra.

Tiago Camarinha Lopes é professor de Economia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e coordenador de formação do Núcleo Goiás da Auditoria Cidadã da Dívida Pública

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