Os rolezinhos e o que acontece no Brasil desde a eleição de Lula

O conflito presente nos rolezinhos de alguma maneira evidencia o impasse da estratégia dos governos Lula e Dilma. De um lado, o governo precisa evitar a radicalização, por motivos eleitorais e também econômicos. De outro, à medida que os trabalhadores ascendem, inevitavelmente a polarização social aumenta, por motivos econômicos, mas também culturais

Rolezinho representa a expectativa da juventude pobre, trabalhadora

Rolezinho representa a expectativa da juventude pobre, trabalhadora

Foto: Estadão Conteúdo

Neste artigo, não tratarei dos rolezinhos em si. Pretendo partir do fenômeno – que alguns sustentam ser novo, enquanto outros dizem ser antigo – para discutir questões de fundo ligadas aos processos de mudança e resistência à mudança em curso no Brasil.

Para efeito de clareza e didatismo, optei por expor as ideias em forma de tópicos, cada qual respeitando uma questão, com vistas à reflexão e ao debate.

A política do governo está alimentando expectativas, sobretudo entre os jovens

Com a eleição de Lula em 2003, iniciou-se um processo de ascensão social da classe trabalhadora, verificado pelo emprego com carteira assinada e pelo consumo de massas. Mais do que acesso a bens, serviços e direitos, tal processo criou expectativas, sobretudo entre os mais jovens. Expectativa de fazer parte da classe média, com tudo o que a acompanha: consumo, lazer, perspectiva de futuro, trabalho digno, status, prestígio.

Os rolezinhos não são um mero passeio no shopping. Muito mais do que mero evento, rolezinhos representam a existência de expectativas no seio da juventude pobre, trabalhadora, alimentadas pelo processo econômico em curso, mas também pela ideologia e pelos valores preponderantes em voga, em torno do sucesso individual.

A rejeição às mudanças não tem motivação econômica, mas cultural

A reação aos rolezinhos, tendo encontrado amparo e eco na classe média tradicional, evidencia não apenas a restrição desse setor à integração dos pobres ao seu mundo, mas também um preconceito de classe e de raça fortemente enraizado.

Daí se entende por que os rolezinhos foram rejeitados e violentamente reprimidos. Afinal, do ponto de vista econômico, os lojistas deveriam querer esses jovens no shopping center. Ocorre que, se os rolezinhos não forem criminalizados e reprimidos, a classe média simplesmente deixará de frequentar os shopping centers, como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo de 24/1: “Com medo de tumulto, paulistano dá um tempo de shopping após ‘rolês'”.

Nesse sentido, a não aceitação dos rolezinhos tem paralelo com a não aceitação das cotas nas universidades públicas, ou com o desconforto sentido pelos indivíduos de classe média ao desferirem frases como “este aeroporto está parecendo uma rodoviária”.

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