• Edição 120
  • 28 janeiro 2014
    • Danilo Morais,
    • Tamires Gomes Sampaio

A reação conservadora à expressão da juventude negra da periferia

A repressão aos rolezinhos patrocinada pelos interesses privados (dos shopping centers) terá o potencial de disseminar a percepção de que os donos do capital são também promotores da violência, do racismo, do classismo e repressão às formas de expressão juvenis, periféricas, negras? Não nos subestimem, o movimento negro e a juventude negra estão dispostos a tornar concreta essa possibilidade

Em alguns templos do consumo, jovens passaram a ser “selecionados” na entrada

Foto: Estadão Conteúdo


Para denunciar mais essa tentativa de criminalização da juventude negra e periférica, dia 18 de janeiro diversas organizações, entre elas a Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), a UneAfro, o Círculo Palmarino e o Movimento Negro Unificado (MNU), convocaram uma manifestação no Shopping JK, um dos que conseguiram liminar para barrar os rolezinhos. O ato transcorreu de forma tranquila, sem grandes incidentes, sem intervenção policial – o que motivou, inclusive, a seguinte palavra de ordem: “Que coincidência: não tem polícia, não tem violência!” –, com intervenções de rap, funk e falas de representantes dos movimentos que construíram a manifestação. A administração do estabelecimento comercial resolveu fechar as portas. Mesmo quando foram baixadas as bandeiras e tentamos entrar individualmente no shopping, também fomos impedidos, o que nos motivou a registrar boletim de ocorrência em que acusamos formalmente o Shopping JK por discriminação racial. É relevante também sublinhar, sobre a manifestação, a atuação destacada de jovens mulheres negras, na organização e condução do ato – o que não é trivial, pois mesmo sendo histórica a luta das mulheres negras, infelizmente, até no movimento negro, o machismo e sexismo tende, por vezes, a dificultar essa participação.

O preconceito contra o funk também é um elemento importante nessa discussão. A campanha contra a realização de bailes funk em São Paulo já demonstrava a repulsa que esse som e estilo gera em parte de nossa sociedade, não apenas entre as classes abastadas, pois a interdição moral ao funk e a busca constante do controle sobre as(os) jovens (de seu corpo e de seus gostos) também estão presentes nas classes populares. Mesmo reconhecendo as contradições desse estilo (quando, por exemplo, há a reiteração do machismo/sexismo e a glorificação do consumismo), trata-se aqui, centralmente, de uma repulsa à cultura da juventude periférica e negra.

O que agora vemos com o funk historicamente ocorreu com o samba, o pagode, o rap e demais elementos do hip-hop, ou seja, expressões que emergiram negras, à margem e muito identificadas com a juventude. O rolezinho nada mais é que um passeio da juventude da periferia que quer um lugar para “curtir”, encontrar amigos, ouvir música e se divertir. Portanto, sem idealizar esses encontros, seus(suas) organizadores(as) e participantes, também não podemos dizer que são simplesmente feitos de “alienados”, que deveriam buscar se manifestar política e culturalmente de maneira pretensamente mais “autêntica”, “rebelde” etc. – erro crasso, que mesmo alguns militantes e intelectuais de esquerda cometem, sem perceber o quanto essa visão é etnocêntrica (e no limite também racista).

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