Nacional

No número passado de Teoria e Debate, nosso repórter relatou sua visita a três cidades do Nordeste administradas pelo PT. Agora, ele apresenta suas impressões a respeito de outros três municípios em que o partido exerce o Poder Executivo: Amambai (MS), São João do Triunfo (PR) e Ronda Alta (RS)

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Conhecer as cidades que o PT administra no Mato Grosso do Sul, Paraná e Rio Grande do Sul equivale a investigar um dos motivos que levaram o partido a acolher em seu corpo a diferença. Diversidade é pouco para denominar este país.

Amambai (MS), São João do Triunfo (PR) e Ronda Alta (RS) formam um mosaico de culturas. Um painel que acolhe, com a mesma generosidade, a ânsia de esconder os 4 mil guaranis miseráveis e a multidão de brasiguaios que vivem nos arredores de Amambai, a resistência dos descendentes de poloneses a novos métodos de produção em São João do Triunfo e o efeito devastador de sucessivas políticas agrícolas nas médias e pequenas propriedades de Ronda Alta.

Construir o partido e tecer alternativas de desenvolvimento que não excluam a "maioria", nessas cidades, é um exercício de tolerância que nem sempre está presente no xadrez da disputa interna no PT. Marcadas pela "vocação" conservadora, as três cidades encontram na ação partidária inovações que tornam a política mais sofisticada e interessante.

De maldito a salvador, o PT percorre um caminho repleto de polêmica, esperança e até mesmo ódio. Mas não passa batido. E cresce, nas três cidades.

Cara-pálida

Andar de manhãzinha pela principal avenida de Amambai, a Pedro Manvailer, dá a impressão de que a trilha do dinheiro, e o conseqüente poder, ficam por ali. O movimento nos entrepostos das fazendas, nos bancos, nas lojas de implementos confere um visual bacana, misturando pick-ups importadas, gente com botas, chapéus no estilo John Wayne, uma ou outra bombacha e a cuia de mate.

De fraca tradição em organização popular, o município possui várias entidades onde os donos de fazendas, temas e lojas se reúnem. E decidem as coisas. Quem escolhe o ritmo do jogo e coloca as cartas na mesa está nas lojas maçônicas, nos escritórios das fazendas, nas lojas de implementos agrícolas, no Clube do Laço. A prefeitura é apenas mais um espaço passível de ser ocupado. Na definição de um antigo militante do PT, o partido "bateu a carteira da direita em 88. Ninguém esperava que o PT pudesse ganhar as eleições aqui".

É nesse caldeirão que os donos das botas de cano alto e dos chapéus John Wayne falam grosso contra partido e administração. Mesmo que essa tenha feito 47% do asfalto, esteja construindo sob consulta popular - a rodoviária, investindo 12% do orçamento em educação e mostre as contas da prefeitura. De quebra, a relação com o governador Pedro Pedrossian, do PST, é nenhuma. Pedrossian é seguidor da máxima de enviar o dinheiro público e firmar convênios apenas com gente de seu time.

Adenilson Rodrigues, o Prego, é um prefeito polêmico. Fundador do PT junto com o Movimento Sem-Terra, foi vereador da Arena e do PMDB antes de chegar ao partido. Embora não goste de falar no trabalho que realizou antes de ingressar na vida pública - "eu procurava sempre beneficiar, através do meu escritório de despachante, a população mais carente, que não podia pagar para tirar os documentos" -,ele avalia que seu carisma tenha contribuído para a vitória eleitoral em 88. Mas ressalta que "esse sempre foi um trabalho desinteressado".

Munido de noções que incluíam a democratização dos serviços prestados pela prefeitura, a defesa dos direitos da minoria indígena e a inversão de prioridades, Prego iniciou uma administração elogiada pela competência, mas intranqüila na relação com o partido. Sem gente para tocar a máquina, o prefeito concluiu que "o único caminho era avaliar os quadros existentes na administração e aproveitá-los de acordo com a capacidade técnica. Isso trouxe dificuldades".

Essas "dificuldades" ficaram insuportáveis quando os caminhos da administração se dividiram entre as prioridades exigidas pelo partido e a atuação da prefeitura. "A coisa ficou ruim quando o partido exigiu a demissão do meu irmão, que era secretário de obras."

Entre a administração e o PT, Prego ficou com a primeira. Houve renúncia coletiva dos petistas e o problema só foi superado um mês depois, quando o prefeito voltou atrás -"eu vi que havia uma contradição muito grande. Acabei entendendo que estava sendo injusto com a maioria que me elegeu. Demiti meu irmão e retomei os compromissos que só o Partido dos Trabalhadores tem".

Do contra

A oposição é poderosa e exercida diariamente, principalmente, na Câmara de Vereadores formada majoritariamente pelo PST - com sete vereadores. PRN, PMDB, PDS e PTB têm um parlamentar cada, completando os onze que a cidade elege. Qualquer iniciativa do Executivo pára no Legislativo, que dispõe de 25 minutos diários na Rádio Jornal AM, única na cidade, de propriedade do deputado estadual Zenóbio dos Santos, homem do esquema do governador.

Essa oposição se dispersa em três coligações para a disputa das eleições municipais de 92. E ela tem nome: Alteres Olimpios Zanella Fistarol. Sem papas na língua, Fistarol define a atual administração com petardos: "a máquina é inchada, a prefeitura emprega quarenta pessoas nas reservas indígenas para ganhar votos e esse prefeito desviou verbas e não fez nada nessa cidade".

Dono de uma grande loja de implementos agrícolas, vereador eleito com 680 votos em 88, Fistarol se altera quando fala sobre o partido, índios e brasiguaios. Ele explica, exaltado, que o PT levou à cidade os brasiguaios "para invadir as terras da dona Júlia Cardinal e fazer a CUT, o Movimento Sem-Terra e o PT ficarem por cima da carne seca. Agora o partido quer até que índio seja candidato a vereador. O PT só sabe administrar a miséria. Coloca isso aí...". Quando pergunto se seu partido, o PST, deve ceder legenda a índios, o comerciante é taxativo. "Não. Eles vêm aqui, gastam um dinheirinho no comércio, mas têm que viver lá na aldeia deles, junto com a gente deles." E, esquecendo-se da Constituição que jurou no dia em que tomou posse no Poder Legislativo, declara, às gargalhadas, que "senão, daqui a pouco, essa indiarada toma conta da cidade". A cara gorda e branca faz lembrar o filme Mississipi em Chamas, do cineasta britânico Allan Parker, nas passagens em que vários brancos de cara gorda criticam a imprensa e os almofadinhas "da cidade", que metiam o bedelho na vida deles, na forma como tratam os negros deles. A diferença é que em Amambai não existem negros. É a vida deles, os índios deles, os brasiguaios deles. Lei e Constituição são coisas da gente das cidades.

Muamba e gado

Para chegar à única cidade onde o PT está à frente da prefeitura no estado é preciso paciência, um carro com bons amortecedores e, a partir de Dourados, algumas horas de viagem por uma estrada de terra.

Distante 360 quilômetros da capital, Amambai é a quarta em importância política e econômica no estado. Seus 26 mil habitantes vivem do cultivo da soja, arroz, trigo, mandioca, milho e sorgo, do gado, da extração de madeira e erva-mate, além do comércio. Dessas atividades, o motor é a agricultura, que responde por quase 60% do dinheiro da cidade. Segundo a Funai local, cerca de 4 mil índios vivem nas aldeias de Limão Verde e Amambai, onde plantam milho, mandioca e feijão para o sustento.

O ônibus, que demora sete horas pela MS-156 para completar o percurso partindo de Campo Grande, sai de uma rodoviária barulhenta e movimentada pelo "pequeno" contrabando.

Os "muambeiros" vão e voltam de cidades como Ponta Porã, que faz divisa com Pedro Juan Cavallero, no Paraguai. Com alguma imaginação e um rápido passeio pode-se supor qual a atividade econômica que impulsiona seu crescimento. A cidade é equipada com alguns aeroportos para pequenas aeronaves e o portunhol é o idioma oficial.

Sob a descarada conivência do fisco e as vistas grossas das autoridades de fronteira, passam pela divisa todos os artigos vendidos pelos mascates do centro de São Paulo. E mais alguma coisa.

Ao largo das estradas planas, gado e mais gado. É uma imagem poderosa, herança dos gaúchos que colonizaram a região desde o início do século 19. Mas a paisagem do lado de cá das cercas não é tão plácida. E revela que a desigualdade econômica foi construída de mãos dadas com a segregação. Colocados à margem da economia formal, índios e mestiços perambulam pelas cidades.

Em Rio Brilhante e Dourados, crianças e adolescentes pedem dinheiro ou vendem um melancólico "artesanato indígena". Arcos, flechas e cocares feitos de fios de plástico e penas de galinha pintadas de azul, amarelo e vermelho.

Programa de índio

O ritual dos índios da Aldeia de Amambai, a oito quilômetros da cidade, é monótono e não pode ser chamado de exótico. Também não rende o Ibope que o roqueiro Sting desfila pela Europa. Em pequenos grupos, andam com a roupa de domingo revirando o lixo da cidade, pedindo em bares e mercearias. Pedindo é modo de dizer, já que o verbo dar é pronunciado no imperativo.

Entrar na área indígena esbarra na burocracia da Funai. Esses entraves não são experimentados pelos inúmeros ambulantes que vendem de chaveiros a comida na aldeia. Enquanto percorríamos a área, um fusca com algumas peças de carne no capô mostrava que esses comerciantes não primam pela honestidade. Vendem apenas sebo e os pulmões do boi. A Funai não deve achar tão repugnante quanto a presença da imprensa. Nosso passeio teve que ser clandestino.

Para implantar as escolas que ensinam o guarani, a prefeitura comprou uma briga feia. Só deu certo pela pressão dos índios e do Conselho Indigenista Missionário, da Igreja Católica.

A Funai privilegia a Missão Caiowá, ligada às igrejas protestantes, que mantêm uma escola onde é ensinado o português e o cristianismo. As crianças freqüentam as aulas de uniforme e recebem merenda. Depois, voltam às choças.

Além das escolas e do posto da Funai, a reserva se resume às malocas, pequenos cemitérios, algumas plantações e muita miséria. Pouca coisa ficou do tempo em que os guaranis chamavam de amambai uma pequena planta de folhas largas, usada como "calha" para construir abrigos momentâneos.

A história da cidade tem algo de peculiar. O Mato Grosso do Sul foi colonizado por gaúchos que buscavam tranqüilidade e o lucro certo da pecuária. Se pintasse algum ouro pela frente, seria bem aceito. Mas os metais preciosos foram encontrados apenas no norte da província. O sul só se desenvolveu depois que os trilhos da ferrovia Noroeste se estenderam de São Paulo até Campo Grande.

A cidade tinha um atrativo econômico - a erva-mate, logo explorada pela Companhia Mate Laranjeira Mendes, que abriu as estradas por onde chegaram os gaúchos, em 1889.

A partir de 1900, Amambai se integrou à forma de colonização do resto do estado e o gado passou a desempenhar papel fundamental na economia. Inicialmente chamado Vila União, o povoado ganhou status de município em 48. O poder municipal foi ocupado por membros dos clãs dos fundadores e depois por representantes do poder econômico local.

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Abrigo passageiro

A vocação de "abrigo" voltou à baila no início de maio deste ano, quando cerca de 2,5 mil brasileiros que viviam no Paraguai chegaram ao município, com a ajuda do Movimento Sem-Terra. Numa situação muito delicada, os chamados "brasiguaios" são fruto da gula brasileira pelas fronteiras. Na perspectiva do "bruxo" Golbery, o governo do Brasil investiu na construção de um cinturão ao redor da usina binacional de Itaipu. Para a ocupação, os brasileiros encontravam crédito e terras. Hoje, são 500 mil brasileiros, sem cidadania paraguaia e nenhuma boa vontade do governo brasileiro. José Prudente chegou na cidade paraguaia de Amarangatu em 75, quando obteve créditos para plantar hortelã. Depois de muitos anos descobriu que seus títulos de posse de terras eram irregulares, não conseguiu alfabetizar os filhos e enfrentava a ganância da polícia paraguaia, uma espécie de exército de PCzinhos. Ele é um dos agricultores que, sob a coordenação do Movimento Sem-Terra, migrou de volta ao Brasil e chegou com as primeiras famílias à cidade. O acampamento é marcado por uma forte disciplina e possui leis próprias. É dividido em grupos de trabalho, mas as decisões mais importantes são encaminhadas pela direção para aprovação em assembléia geral. Essas resoluções, às vezes, extrapolam o limite da política: casos como alcoolismo e comportamento moral podem valer uma expulsão ao infrator.

A acolhida dos brasiguaios pela cidade não foi exatamente calorosa. Logo nas primeiras tentativas de entrar em território brasileiro eles enfrentaram a Polícia Militar do estado, que não permitia a entrada dos brasiguaios, alegando "transporte irregular". No Mato Grosso do Sul, isso cheira a piada.

O objetivo era ocupar a fazenda Itapoti, de propriedade da família Cardinal. A reação foi imediata, com ocupação militar da propriedade. Como solução intermediária, a prefeitura cedeu 34 casas populares e um terreno municipal para o acampamento dos brasiguaios.

A reação popular não foi menos hostil do que a apresentada pelo governador. Lorival Vieira, um senhor de 65 anos que possui uma pequena propriedade nos arredores da cidade diz que é a favor da reforma agrária, mas acha que os brasiguaios "não têm nada que vir pra cá. Vieram só porque o prefeito é do PT, então eles acham que é democracia, que pode ficar o quanto quiserem. O dinheiro que a prefeitura gasta com eles deixa de vir pra gente, que vive e paga imposto no município".

Embora tenha apenas arranhado o jeito de fazer política na prefeitura, o PT sai dessa primeira experiência deixando como prioridades os investimentos em saúde e educação, interferindo na organização de quatro sindicatos e colocando na mesa a indigesta miséria da periferia.

Na serra da esperança

Dividido em pequenas e médias propriedades, num cenário de pinheiros, entre a Serra da Esperança e a Serra do Tigre, São João do Triunfo é uma simpática cidadezinha, no sul do Paraná, cortada por afluentes e pelo próprio rio Iguaçu.

Num cenário típico do estado, o município está na borda do Planalto Central, a 120 quilômetros de Curitiba. Seu retrato pode ser tirado a qualquer hora do dia: carroções, herdados dos poloneses, circulam com gente de cabelo cor-de-palha pelas ruas de paralelepípedos, num miúdo núcleo urbano.

Na praça central estão a igreja, a prefeitura, o mercado, a padaria. De tradição pacata, o município vive basicamente da agricultura, um ou outro frigorífico e empresas que exploram a erva-mate.

Levado à prefeitura nas eleições de 88, o petista José Maria Tardim é respeitado por todos os setores sociais, até mesmo no pequeno comércio, núcleo da oposição. O partido e a administração é que levam as cambadas - "o Tardim faz força, mas esse PT não ajuda", diz um encarniçado opositor da prefeitura.

As relações com o governo estadual são ótimas, para incômodo do PT paranaense. É que Tardim subiu aos palanques de Roberto Requião (PMDB) no segundo turno e comandou a lavada sobre o candidato do PRN, José Carlos Martinez. São João do Triunfo foi a cidade onde o governador venceu com maior folga, cerca de 74% dos votos.

Do orçamento que orbitou nos Cr$ 370 milhões em junho, 46% saíram do Fundo de Participação dos Municípios, 19% do ICMS e 17% de convênios com o estado, além de outras pequenas receitas.

São João do Triunfo viu o PT crescer junto com alternativas para o modelo econômico, que dá evidentes sinais de cansaço e empobrecimento da população.

Formado por gente da igreja, profissionais liberais, funcionários públicos, pequenos e médios produtores, o partido existe desde 86. Nas palavras do agricultor Sebastião Angelo "os outros partidos não serviam, não".

A base para a vitória eleitoral foi, além do prestígio pessoal de Tardim, um nível razoável de organização popular. Ao lado do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, fundado em 86, o Conselho de Desenvolvimento Comunitário, uma espécie de fórum que discute e encaminha projetos para a cidade, foi a principal alavanca da mudança da cultura política local. Com dois mil filiados, busca verbas no Banco do Brasil e nas três esferas de governo, para promover compras, implantar pequenas fábricas de material de construção e equipamentos para beneficiar a produção agrícola. Tudo comunitário.

Apoiado pelo Conselho e Sindicato, Tardim levou para a prefeitura a modificação das relações entre população e poder público, a democratização dos serviços, e, principalmente, um esboço de projeto para a cidade sobreviver aos sucessivos vendavais econômicos do país.

Grandes idéias

A história da cidade começou a ser escrita com a chegada do português João Nunes de Souza, em 1854, descrito nos livros como "um caçador que fixou residência e depois trouxe a família". Os habitantes mais antigos preferem acreditar que João não estava atrás de lebres, veados, pacas e outros animaizinhos. Para se internar num sertão daquele, ouro era um motivo mais atraente. O "caçador" lusitano não encontrou nada, mas ficou. O status de vila chegou em 1890, quando o capitão de mar e guerra José Marques Guimarães levou o povoado de Porto de Vila Palmira às margens do rio Iguaçu, onde até hoje é o centro da cidade.

O município passou pelos diversos ciclos econômicos que agitaram o estado do Paraná desde o começo do século XIX - a madeira, os tropeiros, a erva-mate. Do Porto de Vila Palmira resta apenas um povoado e o cemitério. Dali saíam a erva-mate e a madeira, por ali chegaram os poloneses e italianos.

Com os imigrantes se desenhou uma forma de organização camponesa que resiste até hoje - o faxinal. É um sistema de produção arcaico. Entre a lavoura e a casa, o agricultor cria animais para seu consumo e, às vezes, para vendê-los. Quando existem, as condições de saneamento são precárias e o resultado é catastrófico. Isso explica o grande número de casos de cisticercose e o alto consumo de psicotrópicos na cidade, principalmente nas áreas rurais.

Para combater o faxinal, a prefeitura atua em dois campos: promove programas de modernização da produção e coloca em campo uma equipe de agentes sanitários para esclarecer a população.

Em convênio com o estado, a Secretaria Municipal de Agricultura fornece matrizes de animais e assistência técnica. "O nosso objetivo é não apenas garantir condições sanitárias mínimas para a produção, mas também ajudar a resolver o problema econômico das famílias. Os frigoríficos não compram mais animais criados no faxinal e esses agricultores têm que ter alternativas para essa situação", garante o vice-prefeito, Bernardino de Souza Moreira.

Esses projetos são implantados individualmente ou em cooperativas e associações. Dionizio Zakrevski, morador da comunidade de São Lourenço, a 18 quilômetros do centro, é pequeno agricultor e filiado ao PT. Ele diz que a associação funciona como uma maneira de modernizar a produção e fugir da pobreza: "Com a associação, nós já conseguimos fazer o pixirum da luz, colocamos um triturador de grãos e bomba de água. Isso seria impossível sem a ajuda da prefeitura e a união do pessoal".

A associação da comunidade foi organizada a partir de um programa de eletrificação rural elaborado pela prefeitura - o pixirum da luz. Os moradores se reúnem e substituem a mão-de-obra fornecida pela companhia de luz do estado, reduzindo os custos em até 60%. O êxito do programa foi tão grande que o estado estendeu o pixirum, que significa mutirão, a todos os municípios.

Outra iniciativa que pode ajudar na luta contra a baixa renda dos agricultores é a promoção das "parcerias". Com a tendência de terceirização na economia, grandes corporações têm buscado os pequenos agricultores para responder pela produção. Em São João do Triunfo, a Souza Cruz investe em fumo e a Sadia na criação de suínos.

Em ambos os casos, as empresas financiam as instalações, como chiqueiros e estufas, em matrizes de animais selecionados e sementes e o produtor tem um prazo para pagar os benefícios. A margem de lucro e os riscos para o produtor não fazem da parceria um negócio da China. Mas é muito menos arriscado do que pegar dinheiro nos bancos e o empréstimo não hipoteca as propriedades.

A prefeitura vê as parcerias com bons olhos, apesar dos riscos: "é uma maneira de tentar combater a pobreza e a escassez de investimentos; mas tem que ser muito criterioso para não se voltar contra o produtor", avalia Bernardino. O grande trunfo é que o faxinal fica em xeque, e a cidade vai cavando alternativas.

Outra maneira de melhorar a renda das famílias é a Usina de Lixo. Construída sob o modelo de José Lutzemberger, ela processa todo o lixo da cidade, reaproveitando 90% das 3,4 toneladas mensais de detritos. Papel, metais e vidros são vendidos; os resíduos líquidos depois de tratados caem em um córrego e o lixo orgânico vira adubo. A prefeitura distribui esse adubo a pequenos produtores e empurra um outro programa, que destina, além do adubo, mudas e cal para a formação dos pomares e hortas residenciais. Coisa de Primeiro Mundo.

A oposição gira em torno de alguns caciques e nessas eleições se agrupou em uma frente que reúne PTB, PDT, PST, PRN e PMDB. Todos contra o PT. Se eles conseguem juntar dinheiro e forra para sustentar a candidatura de Elias Hauagge, essa união apresenta a mesma consistência da dobradinha Collor/Itamar em 89. O eixo da campanha dessa frente nas eleições é esquecer o país onde vive, xingar a prefeitura e "ajudar a população". Remédios, ferramentas agrícolas e transporte entre a cidade e comunidades rurais são as ajudas mais comuns.

A conservação das estradas é o principal problema levantado pela oposição e aumenta quando as chuvas inviabilizam o trânsito entre o centro e as comunidades rurais. De resto, a oposição se contenta em alimentar um ou outro ressentimento. E só fala à imprensa quando "encomenda" a entrevista.

Uma cidade chamada PT

Além de Porto Alegre, Ronda Alta é a única cidade administrada pelo PT no Rio Grande do Sul. Numa região que aparece nos jornais há quarenta anos devido às disputas fundiárias, o município é um dos mais caros modelos do "modo petista de governar". Distante 100 quilômetros de Passo Fundo, no norte gaúcho, a cidade figura nos discursos de muita gente, quando a "competência" do partido para administrar é posta em xeque.

Berço do Movimento Sem-Tema, Ronda Alta virou vaca sagrada para o PT quando o prefeito Saul Barbosa anunciou o índice de mortalidade infantil do município de janeiro a junho de 92: zero.

O mito vira pó quando o microfone vai à boca da oposição: "A administração do PT é péssima, uma das piores. Dá para dizer que o PT assassinou Ronda Alta. Até a sede da prefeitura, um dos prédios mais belos da região, anda descuidado. Gasta-se em publicidade o que nenhum outro prefeito jamais imaginou gastar, o PT é muito fraco e luta contra um projeto ambicioso de implantar um pólo industrial na cidade. O PT não tem competência para se manter no poder". Jovem e arrogante, o empresário Rubens Graciolli, candidato do PDT à prefeitura, fala pelos cotovelos para definir o que é o PT na Prefeitura de Ronda Alta.

Longe do céu e do inferno, a cidade tem 12 mil habitantes que vivem da agropecuária. A maior parte da população está no campo, embora exista também o comércio, responsável por grande parte da receita própria da prefeitura, cerca de 20% do que o município arrecada. O Fundo de Participação dos Municípios responde pelo resto da arrecadação, além dos 8% bancados pelo convênio com o Sistema Único de Saúde e outras receitas menores.

A diferença em relação aos municípios vizinhos está na estrutura fundiária e organização popular. Comum empurrão dos assentamentos efetuados pelo estado e a divisão de terras da Igreja em 83, a zona rural de Ronda Alta chama a atenção pela ausência de grandes propriedades.

Em todas as comunidades existem associações que organizam, em maior ou menor grau, a coletivização da produção e seu resultado. Ivo Barriquello, descendente de italianos, foi um dos pioneiros da ocupação da fazenda Macali,ocorrida em 79. Junto com outros colonos expulsos da área indígena de Nonoai,eles conseguiram fazer, na mama, um arremedo de reforma agrária. Recebeu um lote e alguns votos de boa sorte.

Sem recursos e crédito, os colonos começaram a se organizar a partir da Igreja Católica e constituíram um dos primeiros núcleos do Movimento Sem-Terra no estado. Ivo conta que "de início, era tudo individual. Só em 89 a gente conseguiu comprar maquinário em conjunto e agora trabalhamos juntos e repartimos o que é produzido". Perguntado se há problemas na divisão de tarefas e benefícios, Ivo afirma que não e cita um exemplo: "o número de matrizes de suínos dobrou depois da coletivização".

A melhoria mais evidente é o grau de mecanização do trabalho. O que antes era feito com tração animal e no braço, hoje é executado com ajuda de dois tratores, grade, semeadora e pulverizador. As quatro famílias que moram em Macali I contam com assessoria da prefeitura e da Emater - um órgão subordinado à Secretaria de Agricultura do Estado - para implantar um projeto de microbacias, controle biológico de pragas e aumento da produtividade. A área plantada é surpreendente; de 131 hectares, 120 estão cultivados.

O problema não resolvido das pessoas assentadas é a renda: conseguir sobreviver da agricultura é muito duro. O acesso aos serviços públicos também é difícil, mesmo os prestados pela prefeitura, que Ivo considera "de casa". As estradas são precárias e quando chove a coisa fica feia. "Quem não está organizado não agüenta ficar", diz Ivo.

Revolução e medo

A história do Movimento Sem-Terra começou com o primeiro grande movimento de lavradores, ainda desorganizados, depois da experiência das Ligas Camponesas da década de 60. Sob a liderança da Igreja, cerca de setecentas famílias acamparam na Encruzilhada Natalino, na saída do município, em 81. O movimento durou três anos e é exemplo para a organização dos acampamentos que acontecem ainda hoje.

Quando o acampamento começou a dar sinais de cansaço, em 83, a Igreja comprou uma fazenda para o Movimento Sem-Terra. Em seus 128 hectares foram assentadas dez famílias que teriam a incumbência de constituir um modelo social. Começava a experiência de Nova Ronda Alta.

Permaneceram em Nova Ronda Alta oito das dez famílias iniciais. Apenas o terreno das casas é individual. O restante, da caminhonete que leva as crianças às escolas até as máquinas de costura industrial, é coletivo. Há cerca de oito anos suas normas de organização estão em vigor. São rígidas e, como nos acampamentos, incluem o comportamento moral.

Todas as quartas-feiras a comunidade se reúne para conversar sobre problemas e encaminhar soluções. Sua representação política é muito forte - além da participação nos conselhos de saúde e movimento de mulheres da cidade, Nova Ronda Alta tem uma vereadora, Salete Campigoto.

Eleita pelo PT, atualmente sem partido, Salete se diz desiludida com o parlamento, "os poderes, como estão constituídos, não permitem o avanço dos trabalhadores na luta pela conquista de seus direitos". Embora tenha algumas críticas, ela classifica a administração como "próxima do ideal". Salete acredita que apenas os movimentos sociais podem "fazer a revolução". Mas não abdicou de seu mandato, e respectivo salário, na Câmara dos Vereadores.

Além dos herdeiros da Encruzilhada Natalino e dos agricultores organizados, há um grande número de pequenos e médios produtores na zona rural. Eles são a outra Ronda Alta. Donos das granjas, geralmente, são famílias que vão crescendo e construindo suas casas ao redor da "casa do pai". A organização do trabalho também é coletiva. Essas propriedades são mecanizadas e, dependendo das posses, têm um ou outro empregado.

Quando se roda nas estradas vicinais, entre campos de trigo e cevada verdes em muda, brotando no rigoroso inverno gaúcho, não se distingue o que é granja, o que é assentamento.

Mas essas duas cidades só começaram a comungar quando o PT ganhou a prefeitura, nas eleições de 88. No próximo pleito, o partido tem a candidatura de um granjeiro. Ivo Antônio Georgin, o "Padre", divide com os irmãos e o pai alguns hectares na comunidade Conquistadora. Eles têm sete tratores, arrendam outras terras e possuem algum dinheiro. Ivo cresceu vendo o pai apoiando a ditadura, participando da Arena e hoje no PDS. "Ele tinha muito medo dos comunistas", explica. Nas eleições de 89, Padre votou em Collor nos dois turnos. O que o levou ao PT, há cinco meses, foi a comparação entre a ação da prefeitura e a do governo federal. Ele conta que na safra passada foram colhidas 1.500 sacas de soja nas terras que a família arrenda, e dela sobraram duzentas. O resto foi para o banco. Quando seu pai Casimiro Georgin fez as contas, guardou o medo no saco: "acho que comunismo é isso que o governo e o banco fazem com a gente".

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Dois lados

Mesmo que o PT esteja mudando, no vocabulário local, a divisão política da cidade acontece em "lado de lá" e "lado de cá". De um lado, estão o partido, a maioria das associações, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a administração. Do outro, a Cotrisal (Cooperativa Tritícola Sarandi Ltda), o Sindicato dos Produtores Rurais, a Associação Comercial, o Lions Clube, PDS, PDT e PTB.

Esse divisor de águas foi traçado a partir de 85, quando Saul Barbosa foi eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Sua gestão foi marcada pela ajuda aos camponeses dos assentamentos, luta pela reforma agrária e a busca de tecnologias alternativas para a produção. Até hoje, se um agricultor quiser um empréstimo do Banco do Brasil, tem que vender sua produção e comprar implementos agrícolas da Cotrisal. Comprovadamente, ela rouba na hora de vender e na hora de comprar. E sustenta financeira e politicamente os "outros" partidos.

Mas a menina dos olhos do Sindicato foi o trabalho na área da saúde. Para sair do isolamento e vencer a desconfiança dos associados que votaram contra a candidatura Saul, a diretoria começou a mudar a cara da cidade pela saúde. Na cultura popular, saúde significava hospital. O negócio era tão lucrativo que havia três hospitais particulares. Eles simplesmente compraram um dos hospitais, fizeram uma dívida fabulosa e atendiam qualquer cidadão que chegasse à sua porta. O resultado foi um misto de pânico, surpresa e felicidade.

Quando o PT ganhou a prefeitura, o hospital foi passado para uma fundação que recebe verbas do governo federal, do Sindicato e principalmente do município. Investindo nos agentes sanitários, na cultura da medicina popular e na mudança de hábitos alimentares, a administração transformou a cidade em referência para toda a região em matéria de saúde.

O bunker da oposição é a Câmara dos Vereadores. Dois representantes do PDT, incluindo o candidato do partido às eleições, Rubens Graciolli, um do PTB e um do PDS formam o time que não consegue apitar muito. A atuação do PT é arrojada: existe um rodízio entre eleitos e suplentes, que assumem por três meses a vaga. Por ter dificultado a atuação da bancada, o rodízio sofre uma pequena modificação na próxima legislatura: os titulares permanecem no cargo, mas dividirão os salários com suplentes, que se revezarão na assessoria. Um outro problema fica sem solução: alguns dos dezenove candidatos que pleiteiam a vereança podem, eleitos, se desligar do partido.

Mas o que paralisa os outros partidos é a ausência de projetos para a cidade seus caciques se afogam em projetos pessoais. E o que tem feito o PT no Executivo pode ser resumido em uma frase de Saul Barbosa: "A prefeitura era uma instituição isolada do processo de desenvolvimento da cidade. Isso acabou. Ronda Alta não será mais a mesma".

Edson Campos é editor do boletim Linha Direta.

Amambai

População - 25.921

Área em km2 - 4.376

Número de eleitores - 14.146

Filiados ao PT -170

Orçamento - CR$ 920.000.000 (em julho de 92)

Trunfos - A prefeitura conseguiu driblar a Câmara e está construindo a primeira rodoviária da cidade. A implantação de escolas que ensinam guarani e português é a primeira iniciativa do poder municipal nas aldeias.

Desafio - Implantar alternativas de desenvolvimento para a cidade, que sofre a concorrência direta dos municípios vizinhos que crescem com o contrabando e o narcotráfico.

Pensamento - Um aluno da rede de ensino em um debate sobre brasiguaios: "Dá para resolver o problema. É só mandar os brasiguaios matarem os índios. Depois disso, os brasiguaios estarão fracos, então a gente vai e mata os brasiguaios".

Estilo - Prego é espírita, seguidor da doutrina de Allan Kardec. Aparece nos jornais locais como um prefeito arrojado, "jovem e empreendedor". Mas não é conhecido pela virtude da paciência. Nas duas legislaturas que empreendeu teve o mandato cassado por seus próprios partido; primeiro Arena, depois PMDB.

São João do Triunfo

População - 12.259

Área em km2 - 664

Número de eleitores - 6.604

Filiados ao PT - 270

Orçamento - Cr$ 370.000.000 (em junho de 92)

Trunfos - A prefeitura está próxima de zerar o déficit habitacional do município. Implantou o Conselho de Educação deliberativo e caminha para o Conselho de Saúde, nos mesmos moldes. Está inaugurando duas escolas que atenderão toda a demanda na zona rural, construiu o hospital e o mercado do município.

Problemas - Investiu pouco e não consegue vencer a resistência contra o PT no núcleo urbano.

Frase - Helena Chikanoski, 37 anos: "Aqui o PT é forte. Os camaradas já estão levantando a cabeça, engrossando a voz".

Repercussão - O PT tem chances de ganhar dez prefeituras no estado. Da região, Palmeiras, Rebouças e União da Vitória. Nos programas eleitorais de cidades como Ponta Grossa, as referências ao modo petista de governar em São João do Triunfo são presença obrigatória. O prefeito é convidado para dar palestras em vários municípios vizinhos. O partido fará uma numerosa bancada de vereadores na região.

Ronda Alta

População - 11.655

Área em km2 - 457

Número de eleitores - 7,800

Filiados ao PT - 510 filiados

Orçamento - Cr$ 289.596.000 (média do primeiro semestre de 92)

Trunfos -Oferece um sistema de saúde gratuito e de boa qualidade para os padrões regionais. Está ligada a todos os movimentos populares da cidade, oferece assessoria técnica aos produtores e dinamizou a estrutura da administração, que não contava sequer com uma Secretaria de Agricultura.

Problemas - Toda a administração faz um estilo "eu me amo" que, às vezes, prejudica sua ação. A situação da agricultura nacional estimula o êxodo dos moradores.

Frase - Rubens Graciolli, candidato do PDT à prefeitura, acusado por companheiros de seu partido de ter comprado a convenção que o indicou: "O Brizola é o meu líder. Acho que é uma liderança incontestável.(...) No segundo turno, eu votei no Collor, não por ele mesmo, mas por ser contra o PT. Eu só voto contra o PT." Estilo - Saul Barbosa tem ótimo trânsito na zona rural. Não dá nenhuma importância à Câmara Municipal e governa apoiado por todos os setores organizados.

Desqualifica as críticas feitas ao seu governo com o argumento "esse é do contra". É muito simpático e quase um mito para os movimentos sociais do estado.

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