Economia

O ABC da Crise, organizado por Sérgio Sister, e Como Reagir à Crise? Políticas Econômicas para o Brasil, organizado pelos economistas Edmar L. Bacha e Ilan Goldfajn.

Inicialmente parecia que a crise era uma realidade longe de nós. Depois, chegou forte ao país em outubro do ano passado. Ainda assim, a literatura econômica brasileira lhe deu pouca atenção, como se não fosse algo relevante. Duas honrosas exceções são O ABC da Crise, organizado pelo jornalista Sérgio Sister, e Como Reagir à Crise? Políticas Econômicas para o Brasil, organizado pelos economistas Edmar L. Bacha e Ilan Goldfajn.

O ABC da Crise, Sérgio Sister (org.). Editora Fundação Perseu Abramo, 2009, 184 páginas

Como Reagir à Crise? Políticas Econômicas para o Brasil, Edmar Bacha e Ilan Goldfajn (orgs.). Imago Editora, 2009, 120 páginas

São dois olhares bem distintos da crise mundial e de seus efeitos. O primeiro olha do andar de baixo da pirâmide da sociedade as mazelas da crise, deflagradas pelo alarmante crescimento do desemprego nas grandes cidades e na indústria. O outro observador olha do andar de cima da pirâmide as diversas dimensões da política econômica, monetária, creditícia, cambial, regulatória e fiscal, preocupado em propor um receituário de salvação do aparato liberal vigente.

E não poderia ser diferente. O ABC da Crise foi publicado pela Editora Fundação Perseu Abramo e pretende refletir o pensamento econômico representativo da linha programática do PT. Como Reagir à Crise? busca difundir os debates do Instituto de Estudos de Política Econômica da Casa das Garças, que reúne os membros mais eminentes da equipe econômica do governo FHC e funciona como uma eficiente fortaleza do pensamento econômico liberal conservador contemporâneo do Brasil.

Os livros não se equivalem como dois olhares de andares diferentes da pirâmide social, ficando em desvantagem o pensamento econômico desenvolvimentista progressista. O olhar do andar de baixo é fragmentado politicamente e eclético economicamente. Em contraste, o olhar de cima é coeso e reflete de modo inequívoco o pensamento econômico liberal-conservador do Brasil contemporâneo.

O ecletismo do diagnóstico da crise e as proposições de O ABC da Crise expressam a fragmentação do espectro político de seus colaboradores. O artigo-âncora do livro é o de Jefferson José da Conceição, que diagnostica didaticamente a crise e lista proposições imediatas e de médio prazo para a defesa do emprego e de mudanças institucionais e de política econômica. Falta, porém, uma análise mais consistente e fundamentada. Em algumas passagens, por exemplo, são citados conhecidos economistas da ortodoxia liberal, como Jeffrey Sachs, o que acaba por confundir o leitor. As proposições de mudanças mais fortes, como o questionamento do atual tripé monetário-cambial-fiscal, estão timidamente argumentadas, mostrando-se pouco convincentes. Os demais artigos são contribuições pulverizadas, sem articulação entre si, faltando consistência entre muitos deles. São reproduzidos quatro artigos de Paul Krugman do The New York Times que não se enquadram bem numa perspectiva estrutural-desenvolvimentista do PT. Ainda que o autor seja liberal-progressista, está longe de defender mudanças mais profundas na política econômica em direção ao maior controle estatal do câmbio e da política monetária.

A coesão política do pensamento liberal-conservador dos economistas da Casa das Garças começa com o time de autores, todos do núcleo duro dos ortodoxos defensores da atual política econômica. A forma de organização do livro, a partir da localizas ção e do dimensionamento da crise, e posteriormente desenvolvendo cada instrumento da política econômica, está consistente com um fio condutor analítico articulado e um objetivo político de que a melhor forma de defesa da atual política econômica é o aprofundamento de seu conteúdo liberalizante: menor controle do câmbio, maior restrição monetária e fiscal pró-cíclica, em detrimento de uma política anticíclica de mitigação do desemprego implementada pelo governo.

O olhar do andar de baixo precisa teoricamente melhorar o foco e consolidar sua coesão programática na perspectiva de uma política econômica estável e capaz de elevar a taxa de crescimento sustentado de longo prazo.

Mauro Borges Lemos é professor de Economia na UFMG