
“Eu vou à luta é com essa juventude
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco é dessa mocidade
Que não tá na saudade e constrói a manhã desejada”
Essa estrofe da canção “E Vamos à Luta” (1980), de Gonzaguinha, estampava um marcante cartaz da campanha de 1989, quando Lula disputava a Presidência da República pela primeira vez. O cartaz, com a ilustração de jovens em um cabo de guerra contra burgueses e banqueiros, marcou o início de uma importante missão para o PT e, em especial, para a juventude petista: o incentivo à emissão de títulos de eleitor aos 16 anos. Na época, a campanha foi denominada “Lula: 16 tire seu título” e hoje é batizada pela Secretaria Nacional da Juventude do PT de “Meu Primeiro Voto”. É um cartaz de 37 anos atrás que ainda reflete uma demanda real e importante até os dias de hoje.
Desafios com a Geração Z: o surgimento de uma “direita jovem”
Um recorte de uma pesquisa da AtlasIntel em parceria com a Bloomberg, divulgada em dezembro de 2025, chama muito a atenção em relação aos eleitores jovens e seus comportamentos perante os presidenciáveis para o próximo pleito. Os dados sobre o pré-candidato Renan Santos, do Missão — partido recém-fundado pelo Movimento Brasil Livre (MBL) —, apontam que 18,6% dos jovens entrevistados têm a intenção de votar nele, superando nomes mais conhecidos da direita e extrema direita, como Flávio Bolsonaro (PL), com 16,4%, Ratinho Júnior (PSD), com 13,1%, e o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com 8%. O único candidato que pontua mais que o fundador do MBL é justamente Lula, que aparece no levantamento com 33,5% de intenção de voto. Mesmo com uma ampla margem de diferença, precisamos entender o que o Missão representa para a geração que, muitas vezes, votará pela primeira vez.
Mesmo com denúncias do jornal The Intercept Brasil sobre coleta indevida de assinaturas para conseguir o registro eleitoral, o Missão se tornou o mais jovem partido do Brasil, com registro aprovado por unanimidade pelo TSE em novembro de 2025. O partido é fruto do Movimento Brasil Livre, fundado em 2014, que ganhou fama na organização de atos a favor da Operação Lava Jato e do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Ao longo dos anos, o movimento se entranhou no bolsonarismo e hoje abriga parlamentares e lideranças — no mínimo polêmicas — da extrema direita brasileira, como Kim Kataguiri, Guto Zacarias e Amanda Vettorazzo.
A conexão entre a Geração Z e o partido do MBL pode ser lida pelo fato de a legenda apresentar, de maneira genérica e sem embasamento teórico, o que seriam soluções fáceis de se viabilizar — como “endurecimento das leis penais”, “combate à corrupção”, “aumento da qualidade na saúde” e “guerra contra o tráfico de drogas”, conforme descrito no próprio site do partido. Em uma geração na qual o mundo, muitas vezes, se resume a telas e recortes de vídeos, esse discurso é um grande atrativo. Além disso, o partido quer carregar uma identidade de que seria "o partido do século": “Nossa jornada para transformar o país e representar uma nova geração de brasileiros que sofre há décadas nas mãos do cartel partidário (...) Carregamos a visão do Brasil do século 21, marcado pelas nossas cores, nossos valores e nossos sonhos.” Esse público cresceu em meio à Lava Jato, aos governos Temer e Bolsonaro e em meio à despolitização de massas promovida pela mídia hegemônica burguesa e até mesmo dentro das escolas. Está “cansado” da polarização política, do Lulismo x Bolsonarismo, sem ter a dimensão de que a jovem democracia brasileira sempre foi polarizada e de que o Missão e o MBL estão intrinsecamente ligados ideologicamente ao bolsonarismo e ao Centrão.
Resgate da luta estudantil pelo voto facultativo aos 16 anos
Neste importante momento, é nosso papel relembrar para sociedade e mostrar para a juventude que o voto facultativo aos 16 anos foi uma vitória encabeçada pelo Movimento Estudantil, pelo campo progressista e da esquerda, liderado pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) que foram ponta de lança nas campanhas pró-democracia e pelas Diretas Já na década de 1980. A proposta foi aprovada na Assembleia Constituinte de 1988 e obteve o voto favorável de 355 constituintes, 98 votos contrários e 38 abstenções.
Como apresentado nos dados acima, mesmo com o avanço de um candidato de uma “nova direita” entre os eleitores da Geração Z, Lula aparece com uma margem muito acima de Renan Santos. Pelas redes sociais, o pré-candidato do Missão disse: “Se houvesse uma eleição agora apenas entre jovens, eu estaria no segundo turno”. As pesquisas e afirmações mostram que essa “direita jovem”, além do bolsonarismo, também irá para a disputa de ideias com a juventude brasileira.
A diferença entre nós e eles é que nós somos a base: estamos nas periferias, nos bairros, nas escolas, nas igrejas, no chão de fábrica. É nosso dever mostrar para essa juventude — muitas vezes iludida com figuras que querem representar o novo, mas são a síntese do passado — o que o governo do presidente Lula vem fazendo por nós. Estamos tirando o país do Mapa da Fome, aumentando a empregabilidade e diminuindo a média histórica de desemprego. Temos programas sociais reais, como o Pé de Meia, ID Jovem e Juventude Negra Viva. Precisamos mostrar que, historicamente, quem defende a juventude é o Partido dos Trabalhadores. Somos nós que estamos puxando o fim da escala 6x1, a regulamentação de motoentregadores e motoristas de aplicativo, e a expansão do orçamento para as universidades — exemplos de onde essa juventude está, vive e sente.
A campanha “Meu Primeiro Voto” é a oportunidade para que, além de incentivar a juventude a ir às ruas votar, possamos falar: “pô, quem defende você é o PT”. É o momento de apontarmos caminhos, de mostrar que Lula merece e o Brasil precisa de seu quarto mandato. Nós, da Juventude do PT, também disputamos e ocupamos as câmaras e conselhos municipais, as assembleias legislativas e a Câmara dos Deputados. Nosso discurso não é raso; nós estamos espalhados em todos os lugares defendendo de verdade os direitos da juventude, sem mentiras e com embasamento para a construção de um novo Brasil: democrático, soberano, popular e para todos.
“Não adianta ficar em casa na internet, falando mal de político e da política. Não adianta ficar sendo rebelde na frente da tela do computador. Nós temos que dizer à juventude que ser rebelde é ter ação, é se movimentar. E se movimentar significa escolher pessoas que têm compromisso com o povo brasileiro para que a gente possa mudar definitivamente este país”, fala de Luiz Inácio Lula da Silva no 5° Congresso Nacional da Juventude do PT, em 2021.
Arthur Gimenes é diretor executivo de Políticas Educacionais da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), estudante de Administração Pública na FCLAr/Unesp de Araraquara (SP), é militante da Juventude do PT, Coletivo ParaTodos e Núcleo Caravana do PT. Também é membro do Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores de Araraquara e foi presidente do Conselho Municipal de Juventude (COMJUVE).