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A extrema direita assimilou bem a lição de que, para destruir por dentro a democracia como ela pretende, é essencial o enfrentamento simbólico com seus adversários. Nada estranho que a extrema direita tenha declarado a guerra cultural

Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Recorro a um termo da moda para iniciar o texto: disputa de narrativas. No chamado “tempo da política”, como fala a população quando estamos imersos em eleições, mais que nunca o termo é utilizado para se referir a algum acontecimento e/ou embate político. Disputa de narrativas para cá, disputa de narrativas para lá, as disputas de narrativas parecem ser onipresentes e estar na moda no momento das eleições. Termo relativamente novo, ele atualiza, ainda que existam dúvidas a esse respeito, noções anteriores como: batalha de ideias, luta por hegemonia, disputa ideológica etc. Não que elas tenham significados idênticos, mas todas elas foram acionadas para designar a disputa política em dimensão simbólica, que ocorre na sociedade.

Alguns desses termos foram cunhados e eram patrimônios das esquerdas, especialmente daquelas que não colocavam as armas como instrumento escolhido de chegada ao poder. Paradoxalmente, o declínio e o quase esquecimento da utilização da disputa política no plano simbólico aconteceu quando movimentos e partidos de esquerda fizeram a opção pela transformação da sociedade por meio da luta democrática. O estranho é que a via democrática exige disputa legítima em diversos patamares e um deles, que adquire grande destaque na recente circunstância histórica, é a luta política democrática em âmbito simbólico.

Desde Gramsci tal conexão adquiriu centralidade. Como atuar ativamente na democracia, visando a transformação democrática da sociedade, sem propor o enfrentamento no patamar das ideias, emoções, sentimentos, percepções vigentes na sociedade? Hoje, a circunstância histórica se tornou ainda mais complexa. Se as esquerdas democráticas passaram a menosprezar a disputa em tal horizonte, a extrema direita assimilou bem a lição de que, para destruir por dentro a democracia como ela pretende, é essencial o enfrentamento simbólico com seus adversários. Nada estranho que a extrema direita tenha declarado a guerra cultural. Nela, todos seus adversários são transformados em inimigos a serem destruídos. Assim, a guerra cultural não pode ser igualada à alguma disputa de valores própria do ambiente democrático. Ela é intrinsecamente autoritária e sua distância de qualquer perspectiva democrática é mais que evidente.

Com a promoção assumida da guerra cultural, a extrema direita passou a constituir seus aparelhos ideológicos, visando desenvolver o combate simbólico em termos autoritários na sociedade. Nele, pouco importam argumentos e sensibilidades mobilizados, como acontece na disputa democrática, pois a guerra cultural assume a feição de um vale-tudo de: manipulações de informações, as famosas fake news; de utilização de robôs, para falsear números de sujeitos políticos e potencializar intervenções autoritárias; de ataques violentos, física e simbolicamente; de mobilização do ódio; de invenção de dados e interpretações, sem nenhum compromisso com a realidade, a autenticidade e a veracidade. Um vale-tudo simbólico inconcebível no horizonte de disputa democrática e altamente perigoso para a própria democracia.

As redes sociais se tornaram palco da virulenta guerra cultural. Ela não se limitou às redes, como diversos agentes, grupos e entidades, confortavelmente, querem insinuar. Inúmeros outros aparelhos foram invadidos pela guerra cultural. Ela perpassou ambientes religiosos fundamentalistas, evangélicos ou católicos; recintos militares das Forças Armadas e policiais; espaços empresariais, especialmente financeiros e do agronegócio; setores sociais conservadores, moral e politicamente; e obteve na grande mídia, se não apoio expresso, pelo menos simpática condescendência com suas concepções de mundo. Na grande mídia, o tratamento dado às forças políticas presentes na sociedade brasileira tem sido na história sempre muito desigual. O pluralismo de ideais e opiniões políticas, um dos fundamentos da democracia, inclusive em uma perspectiva liberal-representativa, nunca se realizou no país. A grande mídia não abre espaço para opiniões divergentes. A sua submissão às classes dominantes e a sua facção dita “mercado” é escandalosa.

A convergência de interesses e ideias da extrema direita com o capitalismo neoliberal, cada vez mais contrário a qualquer horizonte democrático, por certo, facilitou a expansão do ideário autoritário da extrema direita na sociedade brasileira. A confluência com a tradição autoritária presente no país, alimentada pela história de genocídios dos povos originários, pela violenta escravidão racista de povos negros e pela repressão brutal das rebeldias dos trabalhadores e subalternizados, também colaborou na difusão das visões autoritárias, porque permitiu emergir todo o horror, que estava contido em outros tempos da nação brasileira. Em suma, a extrema direita, no vácuo deixado pelas esquerdas e por setores democráticos liberais, que praticamente desapareceram no país, constituiu-se em um ator autoritário e nada desprezível no âmbito da luta política por ideias e sentimentos no Brasil, como no mundo.

Impossível pensar nas eleições de 2026 sem considerar essa fundamental dimensão da competição eleitoral. Ela tem um peso potente nas condições da disputa. Por melhor que estejam os dados econômicos e sociais do país, as entregas do governo Lula, a presença do Brasil no mundo, dentre outros aspectos considerados, eles, por mais relevantes que sejam e certamente o são, não bastam como elementos para galvanizar e garantir a vitória nas eleições. A disputa no patamar simbólico não pode ser menosprezada, como tem sido por muitos dos setores democráticos e de esquerda. A sempre falada disputa de narrativas serve para lembrar e chamar atenção para isso e para explicar as dificuldades com os índices de popularidade de Lula e do governo.

Os acontecimentos não se impõem às pessoas por si mesmo, mas eles, quase sempre, são acessados por meio de narrativas, que dão sentido e interpretam a realidade. Não se pode esquecer isso. Achar que as obras bastam, por mais maravilhosas que sejam, é quase um suicídio político. Obras são vitais para a melhoria e a qualidade de vida e de trabalho da população brasileira, mas não são apreendidas de imediato, senão por meio das mediações oferecidas pelas narrativas. A atenção com tal dimensão da disputa política emerge como essencial para a vitória eleitoral, pois ela é altamente mobilizadora.

Outro aspecto, próximo a essa temática, não pode deixar de ser lembrado aqui quando se trata da capacidade de mobilizar a população. Sem nenhuma dúvida, o governo Lula, dentro das amplas limitações dos contextos internacional e nacional, com destaque para a perversa correlação de forças no Congresso Nacional, quase todo inimigo do povo, fez uma gestão possível, com conciliações, por vezes necessárias e, outras vezes abusivas. Ele conseguiu arrancar algumas conquistas emblemáticas e simbólicas para o Brasil e mesmo para o mundo. Foram desenvolvidas: mudanças tributárias, com isenção dos mais pobres e cobrança de mais ricos; afirmação da soberania nacional, em contexto de agressões e taxações do império; políticas públicas sociais, ambientais, educacionais, culturais, de saúde, de agricultura familiar e outras em benefício da maioria da população, apesar das armadilhas do Congresso, inimigo do povo, e da oposição.

Todas elas e outras medidas conviveram com impasses e mesmo com retrocessos, dada a complicada composição, em especial, do Poder Legislativo e das Forças Armadas, mas também do Poder Judiciário e do Executivo. Parte significativa dos governos, no âmbito estadual e municipal, está tomado por partidos de direita e extrema direita, além do que ocorre na esfera federal, com ministros quase adversários, provenientes de partidos ditos “governistas”, mas, em verdade, opositores à gestão de Lula.

O governo, no admirável trabalho no limite do possível, sofreu com algumas fragilidades dele próprio e de sua composição eclética, além da debilidade das forças democrático-progressistas, em especial de esquerda, presentes na administração e na sociedade. Os partidos verdadeiramente aliados poderiam ter tensionado bem mais o contexto político-social, em viés democrático-progressista, com mais iniciativas potentes e, principalmente, com mais participação e mobilização político-social, para ajudar e pressionar o governo em seus embates contra a extrema direita e o mal chamado Centrão, cada vez mais fisiológico, aliado ao bolsonarismo e distante de qualquer perspectiva de centro político.

O próprio governo, apesar das muitas iniciativas, não conseguiu fazer com que elas aparecessem articuladas em um projeto, claro e vibrante, para a sociedade. Muito disso foi atribuído, sem mais, à comunicação deficiente do governo. Ela teve sua parcela de responsabilidade, mas o problema não pode ser reduzido a uma questão de comunicação, por mais relevante que ela seja. A sensação, que parece vigorar na sociedade, é de que muitas medidas governamentais eram isoladas, descoladas de um projeto nacional mobilizador. No geral, parecia, ainda que assim não fosse sempre, que o governo agia reativo às circunstâncias políticas, cheias de armadilhas da oposição, sem qualquer compromisso com os interesses nacionais e submetida aos imperativos das minorias dominantes.

Superar tal percepção e tal realidade é algo vital para as eleições e para o quarto mandato de Lula. Fundamental para as eleições porque a existência de um programa eleitoral e de um projeto democrático-nacional claro e popular, por certo, constituem-se em condição ativa para ampliar a mobilização eleitoral e para servir de componente potencializador da disputa de narrativas. Um projeto democrático-nacional não se produz, em plenitude, no calor das eleições, mas elas podem servir de estímulo-compromisso e de embrião de um plano democrático-nacional, tão imprescindível ao país. Ele visa aglutinar os setores oprimidos da sociedade brasileira, a classe trabalhadora, setores das classes médias, democratas, nacionalistas e todos aqueles adversários e distantes do horizonte político-ideológico das classes dominantes e da extrema direita.

O drama histórico das revoluções deriva da manutenção e do aprofundamento posterior das medidas decretadas no instante revolucionário, pois os retrocessos ameaçam o vigor e a consolidação das transformações continuamente. Não raro na história ocorrem derrocadas contrarrevolucionárias e regressões sociais. Já a transformação democrática da sociedade demanda uma temporalidade bem mais longa. Ela exige combinar as disputas simbólicas contínuas de valores com progressivas reformas, orientadas por um projeto democrático de transformação de médio e longo prazos. Sem a conexão virtuosa entre ambos, tanto as mudanças no horizonte simbólico paralisam e até retrocedem, quanto às reformas perdem seu ímpeto e definham, porque se descolam do horizonte do projeto de país. O risco do cansaço, dado que as mudanças demoram de se realizar em plenitude, ameaça a política de transformação democrática da sociedade. A população, muitas vezes, exige ritmos temporais mais acelerados, pois fica difícil de suportar as imensas carências e os enormes privilégios vigentes na sociedade brasileira.

O projeto de país precisa ser radicalmente democrático para garantir o respeito ao processo formal-legal necessário à vida democrática e para fazer com que a democracia brasileira seja uma democracia cada vez mais ampliada, que assegure direitos para os brasileiros, combatendo desigualdades, explorações, privilégios, violências e todas as formas de exploração e de opressão de classe, gênero, etnia, faixa etária, discriminação sexual, origem regional etc. O projeto, por conseguinte, disputa a própria concepção de democracia. Ela não pode ser apenas formal-legal, dado fundamental, mas precisa ir além. Ela necessita democratizar não só o Estado, a política, mas também a sociedade, em todas as suas dimensões.

Um projeto político democrático, que seja radicalmente nacional, não o sentido de um nacionalismo obtuso, mas que busque inserir o país soberanamente no mundo, lute pelos interesses nacionais, pelo multilateralismo, pela paz, pela cooperação internacional na preservação ambiental e enfrentamento às alterações climáticas, e tenha atitudes firmes contra desigualdades, violências e guerras. Em suma, um projeto democrático-nacional que seja comprometido efetivamente com a construção de um mundo mais democrático, justo e criativo.

A disputa de narrativas necessita ser assumida como componente vital do pleito, pois sua incidência nas eleições tem peso significativo. Além disso, ela necessita, para ser mais potente, do desenvolvimento de um projeto democrático-nacional, capaz de representar e ser assimilado pela maioria da população. Um projeto que mobilize os setores explorados-oprimidos, os progressistas, os democratas e as forças das esquerdas democráticas. Em suma, que articule, de modo consistente e verdadeiro, eleições, governo e transformação da sociedade no Brasil.

Antonio Albino Canelas Rubim é pesquisador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)