EM DEBATE

A relação homem-mulher enfrenta uma séria crise. Pelo menos é o que dizem Flávio Aguiar, professor de literatura e jornalista, e Maria Rita Kehl, psicanalista. Talvez por isto, tenham proposto abrir um debate sobre o tema. A partir de três filmes, em que se coloca ao subjetivo, mistério da sexualidade - M. Buterfly, Traídos pelo Desejo e Adeus Minha Concubina -, os autores respondem as questões: Não se fazem mais mulheres como antigamente? (ele). E, não se fazem mais homens como antigamente? (ela). Os dois parecem chegar a conclusões semelhantes.

Flávio verifica que, além dos filmes mostrarem que o "papel da mulher tem um sucedâneo", discute o problema mais geral de identificação do ser humano na prática do amor e do sexo.

Maria Rita faz uma análise das posturas masculinas e sugere que, nas relações com as mulheres, os homens pouco evoluíram: "Continuam a querer o que sempre quiseram", e arremata dizendo que os travestis é "que sabem muito bem o que os homens continuam querendo". Está aberto o debate...

Não se fazem mais mulheres como antigamente?

Não se fazem mais homens como antigamente?

Não se fazem mais mulheres como antigamente?

Certamente não. Homens também não. Talvez nem eles saibam ainda disso, e buscam novas alternativas em formas advindas do passado. Uma leva de filmes que passou no Brasil nos últimos tempos expôs a problemática. Os filmes, três em particular, expunham a importância do travesti. Não tratavam propriamente da homossexualidade, embora este tema também estivesse envolvido. A questão dos três era o travesti como sucedâneo do papel feminino na relação homem-mulher. Os três filmes eram M.Butterfly, de David Cronemberg, The Crying Game (Traídos pelo Desejo), de Neil Jordan, e Adeus minha Concubina, de Chen Kaige. Alguns dias atrás, a quieta dona-de-casa que estava na minha frente, na fila do banco, corroborou a oportunidade do tema ao ver a entrevista que Roberta Close dava à Silvia Poppovic na televisão, comentando com naturalidade: "Por que uma mulher como essa tinha de nascer homem?"

Os três filmes têm coisas em comum e muitas diferenças. O aspecto em comum é o anteriormente mencionado: nos três, a relação masculino-feminino se reveste, neste pólo, de algo que advém da força teatral do travesti. Em Traídos pelo Desejo, os protagonistas são um guerrilheiro do IRA, impressionado pela morte de um soldado norte-americano que ajudara a seqüestrar, e o namorado-namorada do morto, cuja perda procura reparar. O travesti, magistralmente desempenhado por Miranda Richardson, sai-se uma mulher como não mais se vê; a descoberta é um choque, mas o amor tudo vence. O militante, que viera de um relacionamento frustrante com uma companheira de partido, termina aceitando o amor do inusitado parceiro, e aceita que o ama também, e lá se vão eles rolando pelas cadeias da história.

Em M. Butterfly, baseado num caso verídico, encena-se a história de um diplomata francês, casado, que se apaixona por um ator da ópera de Pequim, sem saber que nela as mulheres são representadas por homens. Por interesses partidários e amorosos, o ator leva adiante o jogo, e o diplomata, saído de um casamento no qual sua relação, embora afetiva, era a mesmice do mesmo, nada vê nem descobre. Já na França, o jogo inteiro desvenda-se num Tribunal, pois ele-ela revela-se agente duplo: travesti aqui, travesti acolá. Resultado: em desespero, preso como colaborador de alta traição, o ex-diplomata encena na prisão a pungente cena do suicídio de Madame Butterfly na ópera de Puccini, papel que a outra-outro representava. Só que a encenação era para valer: vestido de mulher, grotescamente neste caso, ele se suicida perante todos.

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Adeus, Minha Concubina joga com toda a tradição da ópera chinesa, e põe em jogo a relação tensa e ao mesmo tempo amorosa entre o ator que desempenha o papel de imperador na peça-título do filme e o ator que por amor dele se suicida. Este-esta deseja levar o teatro para a vida, em meio aos corcovos da história na Revolução Chinesa, e o caso termina em suicídio, só que aqui é o travesti, de papel feminino, que o pratica. Há, portanto, uma diferença liminar entre os três filmes: o primeiro é de final "positivo"; os dois outros, "negativo".

Os três filmes não apresentam apenas a questão do papel feminino ter um sucedâneo. Também apresentam a questão mais geral, que atinge a todos nós: afinal, que buscam os homens, além de saber de onde nasceram? E afinal, onde estão as mulheres? Vamos declarar uma coisa liminar, que faz parte das (poucas) crenças-certezas do autor dessas linhas: o amor é indecifrável, o amor é, e ponto. Ele não é freudiano, junguiano, marxista ou neoliberal, não tem forma pré-definida. Nem forma, nem fórmula. O seu entorno sim: a corte, a sedução, o medir das conseqüências e dos antecedentes, tudo isso tem convenções e contra(con)venções bem delimitadas, e socialmente definidas.

Atalhando caminhos, chegaremos à raiz de que o amor, em suas convenções externas, construídas por homens e mulheres, seja lá quais foram os papéis que inventaram e quais cargas diferentes suportaram, é coisa de Deus, de um lado, e do outro, do Diabo. Se ambos são masculinizados em nossa tradição, lembremos que o primeiro era um verbo, que não tem sexo, e o segundo agia por intermédio de uma serpente que, feminina em nossa língua, é neutra no inglês e masculina no francês. A divisão é anterior ao cristianismo, embora este a tenha consagrado. Já se embutira na língua antes do Novo Testamento. No latim, nossa língua-mãe, praticada em nosso Estado-pai, o amor dividia-se entre o "amare" e o "futuere", que, em português, deram, respectivamente, os verbos "amar" e "foder".

Registremos que na antigüidade uns e outras praticavam ambos os verbos. Com o uso é que a última palavra - a descritiva da carnalidade da coisa em si - ficou restrita a um universo "masculino"; ou melhor dizendo, ao universo dominante. Mas voltemos às palavras, que às vezes são mais interessante do que os usuários: em amare a nota dominante é a raiz "am" que, de algum modo, significa a presença, no sentido de envolver, segurar: é a mesma raiz de "ambos" e de "amplexo", por exemplo. Mas também está em amovere, que quer dizer furtar, forma próxima do ammener, do francês, conduzir.

futuere é menos grave, e mais divertido. Deriva de uma raiz "fu", contida na forma verbal "fuam", presente do subjuntivo arcaico de essere, ser: que eu seja. É, portanto, da raiz do desejo. Essa raiz estava também em "futo", bato, ou seja, empurro para diante, que deu fouetter, em francês, chicotear ou simplesmente bater o creme doméstico; fustigar e refutar, ou bater-se contra. Mas é também a raiz de futuro, o que vai ser; de fúnebre, ou seja, da passagem para o outro mundo; e de fútil que, originalmente, designava o vaso que não consegue conter seu conteúdo, e figuradamente, o gabola, o de parolagem fácil. Está também em furto, que nos aproxima do amovere, anteriormente citado.

Os antigos e as antigas não tinham muitos problemas em juntar a prática dos dois verbos. O cristianismo separou radicalmente ambos, e muito da literatura do Ocidente dedicou-se ao ingente trabalho de pensar em como juntá-los, ou se era ainda possível juntá-los. Do ponto de vista dos homens dominantes, instalou-se a linha divisória entre as mulheres-de-culto e as objetos-de-prazer, o terreno dos amare e dos futuere, com especialistas em cada ramo. Na tradição teatral e literária, e fora delas, o travesti sempre foi o símbolo do esforço de se juntar uma coisa à outra, tanto numa direção como na outra. É verdade que nessa tradição os homens que se vestiam de mulher apareciam mais seguidamente do ponto de vista farsesco; ou da imitação de uma feminilidade exacerbada, como a da ópera de Pequim. Já as mulheres que se vestiam de homem apareciam em geral sob a ótica de figuras liricamente exaltadas, como as donzelas-guerreiras.

Lembremos, aqui, de Diadorim, a que nasceu para muito amar e muito sofrer. Em geral, até há pouco, literatura era coisa de homem, quando não de homem para homem.

Fosse como imagem de culto ou objeto de prazer, as mulheres detinham para os homens a chave de um "mistério", gozoso, doloroso, ou glorioso. Tanto o culto quanto o prazer são insaciáveis, quando entregues à sua própria natureza, e as mulheres carregavam essa marca do mais "natural" por oposição ao mais "cultural". A natureza, isso que existe para além da bolha protetora a que chamamos cultura, de certa forma coabitava com as mulheres. Ali se dava o mistério da reprodução, nascimento, do aleitamento, e dessa pequena morte que todo prazer radical encerra: depois dele, somos sempre um pouco outros. As mulheres não só também podiam desfrutar dessa forma de prazer: elas o guardavam. Era necessário "ir buscá-lo", "trazê-lo à tona". Essa forma de prazer, se desenvolva como se desenvolver, não é uma "troca"; é uma construção, e como construção, é mútua, e é celebração, celebração do mistério, daquele amor que é, e ponto. É o que Ana Karenina descobre com Wronski, e mutuamente, na página magistralmente silenciosa de Tolstoi. É o que Brás Cubas e Virgínia descobrem na página de Machado de Assis, cheia de pontinhos e pontos de exclamação. É o que Ceci e Peri descobrem no alto da palmeira. Além de um certo ponto, todas as línguas se calam e as diferenças se apagam. As diferenças entre um e outro sexo não são tantas afinal, e no que têm de diferentes, complementam-se muito bem. Mas para chegar a esse ponto é necessário a travessia da busca, o encontro do mistério, o desdobrar-se e o desembainhar-se das formas amorosas, o preencher do amare pela carne e do futuere pelo desejo do amplexo.

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Hoje vivemos uma crise aguda das buscas: buscar o quê, e para quem? Sobretudo, com quem? Culpa-se uma tal de "destruição" do amor, ou pela permanência do machismo ou pelo advento do feminismo, o que é tolice.

Ambos são movimentos de natureza política, e só remotamente, através de inúmeras mediações no plano da cultura têm a ver com o jogo amoroso propriamente dito, que não é, nem se importa com o politicamente correto ou incorreto. Podem ter a ver com a manutenção desta ou daquela técnica de sedução, ou de sua abominação, por exemplo. Mas muito pouco com a coisa em si.

A questão é que é muito difícil amar, em ambos os sentidos, e conjuntamente, em meio a uma natureza absolutamente dessacralizada. Ou convivendo com o costume dos corpos serem objetos inteiramente devassáveis. Ou com a idéia inculcada de que a nudez é uma foto comprada - não uma questão de pele. É neste contexto que a busca de novos papéis, de novas diferenças e de novas semelhanças se dá. Um certo passadismo é inevitável, uma nostalgia do ser: as mulheres do teatro, portanto, representadas com o mistério do masculino em mutação, são mais irresistíveis do que quaisquer outros mistérios que se apresentem aos personagens em busca. Assim, é verdade que a mulher encenada em Traídos pelo Desejo é mais mulher do que qualquer uma outra possível. Ela situa-se no plano do imaginário, em que a idéia mesmo de amare e de futuere precisa ser remexida em suas próprias raízes, deslindada ou refundida, para se compreender o que é o desejo de companhia, afeto, convivência, e de busca pelo mistério de se encarar aquilo que se é, sem subterfúgios.

Já o diplomata de M. Butterfly nunca consegue descerrar quem é o outro: acostumado, em sua relação doméstica, aos mesmos ademanes da atuação cortesã das embaixadas, deixou-se embotar pela mesmice da fachada que carrega. No final, ao travestir-se de mulher, busca ser um outro que agora lhe persegue como a imagem mesma de sua própria condenação. Ingênuo, morre como o peixe: pela boca, sufocado no mundo que ele mesmo montou para si.

No caso de Adeus, Minha Concubina, as coisas são mais violentas: em meio a uma revolução vitoriosa e traída, na qual todos se traem, o único amor fiel é o da concubina pelo imperador, no palco que encena a vida antiga. Em todos os três, predominam formas de regressão: mesmo em Traídos pelo Desejo o rapaz-travesti deve voltar a ser rapaz para salvar-se da perseguição do serviço secreto britânico. Mas talvez dos três, este filme seja o que aponta o caminho de mais esperança. Temos saudades de Eva, a ambifronte filha e mãe, paraíso em forma de corpo. Mas não há mais Evas, até mesmo porque o Paraíso foi hoje crucificado, morto e enlatado para venda em supermercados, ou em pílulas ideológicas que se compravam prontas. Temos de repensar nossa relação com a natureza, e restabelecer, como sonda umbilical, digo, espacial, nossas relações com ela. As chaves das palavras amare e futuere são apenas duas, entre as muitas possíveis. Quem sabe o mistério se reporá?

Nada temos a perder, a não ser nossas cadeias. Nada temos a mexer, a não ser nossas cadeiras.

Flavio Aguiar é jornalista e professor de Literatura.

Não se fazem mais homens como antigamente?

Nesta primeira metade dos anos 90 alguns vêm colocando em questão o equilíbrio - já desde sempre precário - da relação amorosa entre o homem e a mulher. M. Butterfly, de David Cronenberg, Adeus, Minha Concubina, de Chen Kaige e Traídos pelo Desejo, do irlandês Neil Jordan, têm muita coisa em comum. São histórias de homens que amam demais. Histórias de homens que amam outros homens como se fossem suas mulheres. Ou ainda histórias de homens que sabem se fazer de mulheres tão perfeitas, tão delicadas, tão femininas, que são a encarnação perfeita da fantasia masculina - irresistíveis para seus amantes atônitos.

"Sabe por que na Ópera de Pequim os papéis femininos são representados por homens?" Pergunta a "diva" a uma camarada obtusa do Partido Comunista. "Restos da herança de dominação patriarcal", opina a colega. "Não. É porque só um homem sabe perfeitamente o que uma mulher deveria ser." O curto diálogo resume perfeitamente o espírito que anima os enredos que escolhemos para analisar. São filmes sobre o homossexualidade masculina? Sim, e não. Sim, do ponto de vista do gozo daqueles personagens que encarnam na perfeição os ideais da feminilidade para se fazerem amar loucamente por outros homens. Não, se considerarmos o que se passa com os que ocupam as posições femininas, "ludibriados", se é que se pode dizer assim (em Adeus Minha Concubina, certamente não) pela fantasia do feminino encarnada em seus parceiros.

Não se fazem mais homens como antigamente? Duvido. Tenho a impressão de que os homens continuam a querer o que sempre quiseram: encontrar numa mulher toda à disposição amorosa, quase artificial, passiva, que se convencionou chamar de feminilidade, aliada a uma capacidade de afirmar o próprio desejo e lutar por ele, a uma coragem que eu chamaria, sem, de viril. Virilidade é uma invenção das mulheres a que os homens se esforçam por corresponder, mas que adoram encontrar numa mulher; feminilidade é uma projeção do desejo masculino que as mulheres aprendem a encarar, e se encantam quando encontram, bem dosada, na personalidade de um homem. Sendo assim, não é de espantar que qualquer um, independente do sexo biológico, possa preencher os requisitos para se candidatar ao lugar masculino ou feminino. A produção pós-moderna das "sexualidades alternativas" está aí para atestar que homens e mulheres, afinal, a despeito do imenso esforço repressivo de quase todas as civilizações que tentam manter os dois terrenos bem demarcados, são praticamente uma coisa só, apesar da pequena diferença irredutível que torna o encontro erótico cheio de possibilidades interessantes. Diferença irredutível, mas não fundamental para o desejo, já que todas as formas de amor homoerótico se baseiam justamente no prazer de eliminá-la. Homem e mulher são basicamente uma coisa só, repito, separados por uma pequena diferença, e negociando através da moeda imaginária, valorizadíssima, que chamamos de amor.

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Citei a produção das sexualidades alternativas da pós-modernidade para evitar a banalidade de citar os gregos, mas não se pode esquecer que um valente guerreiro como Alcibíades, tão viril e vitorioso quanto um Clint Eastwood em seus melhores bague-bangues da juventude, não tinha o menor pudor de manifestar sua paixão, seu fascínio e seu desejo pelo velho Sócrates. Como uma mulher, Alcibíades, no Banquete declara seu amor pelo filósofo e seus esforços (vãos) para seduzi-lo, não em função de seus dotes físicos - Sócrates já era um velho, então - mas de sua sabedoria e inteligência. Como uma mulher, Alcibíades se fazia belo e sedutor para atrair seu mestre, sem deixar de ser por um instante um homem, um macho da espécie, um bravo guerreiro.

Voltando aos filmes, as personagens "travestidas" me fazem pensar: por que os homens inventaram a feminilidade e a impuseram docemente às mulheres, sinalizando a elas a fantasia que corresponde ao seu desejo? A resposta a esta pergunta tem alguma coisa a ver com o masoquismo - não aquele mais caricato, do amor pelos saltos de botas e chicotinhos, mas o masoquismo de todos nós, isto é: a disposição para a passividade, a entrega sem limites, a submissão, que se encontra freqüentemente em um dos dois pólos do par amoroso. Que esta entrega passiva é prazeirosa, porque repete a experiência do bebê indefeso entregue aos cuidados, aos carinhos e aos desejos de sua mãe, é fato assinalado em qualquer cartilha de psicanálise. Que esta disposição facilite dominações outras, instrumentalizações e explorações de todos os tipos na dinâmica interna da relação amorosa, estamos cansados de observar e as feministas, há muito tempo, cansadas de denunciar.

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Que os homens tenham inventado a feminilidade como o conjunto de atributos ideais para o sexo oposto fica claro: se alguém tem que encamar a posição masoquista no casal, que ela fique do lado da mulher. Porque a mulher é "naturalmente" masoquista? Nada disso. Porque o homem, pressionado pela angústia de ter que conservar seu órgão sexual como um objeto fálico, é muito mais apavorado, muito mais ameaçado do que a mulher. Uma mulher encara subjetivamente a posição masoquista sem susto: ela "não tem nada a perder" com as dores do amor. Não quero com isto equiparar feminilidade a masoquismo e muito menos - já que a relação feminilidade/mulher é socialmente produzida - afirmar que o masoquismo é uma característica das mulheres. A passagem é um pouco mais complicada. O que estou querendo dizer é que um certo masoquismo é essencial para a fantasia do amor. Que as mulheres tenham se encarregado historicamente do amor (não vou repetir as lições do velho Engels aqui) e que tenham muito menos medo da entrega amorosa explica a associação que a linguagem faz entre "masoquismo" e "feminilidade". Mas o que poderia ser fonte de muito prazer na relação amorosa se transformou, dada a secular posição de poder dos homens dentro da família, em uma experiência de escravidão vivida por gerações e gerações de mulheres cuja "submissão" ao poder patriarcal não tinha graça nenhuma.

Tanto que as mulheres contemporâneas vêm recusando qualquer identificação com a posição daquela que se "entrega" no amor. Em nome de sua recém-conquistada liberdade - com todas as "doenças infantis" de auto-afirmação e desafio fálico que inevitavelmente a acompanham - as mulheres parecem ter perdido uma antiga sabedoria erótica: a de representarem (pois se trata de um jogo, que não deve ser estendido para todos os domínios da vida) o pólo da desmesura, do abandono, do "sacrifício" exigidos pela encenação do "grande amor".

O que não significa que o grande amor tenha seus dias contados. Ainda existem os homens que amam como só uma mulher deveria saber amar. Os travestis, estes últimos defensores da feminilidade. Estes que sabem muito bem que os homens continuam querendo o que sempre quiseram: uma mulher que os proteja de seu próprio masoquismo, tomando o encargo da entrega e da dor do amor, para si. Mesmo que esta mulher se chame João.

Maria Rita Kehl é psicanalista e membro do Conselho de Redação de T&D.