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Bipartidarismo francês sofre duro golpe

No dia 23 de abril passado, ocorreu o primeiro turno da eleição presidencial na França e, como previsto pelas pesquisas, nenhum candidato alcançou 50% dos votos mais um e haverá disputa em segundo turno entre os dois candidatos mais votados, no dia 7 de maio.

Quatro candidatos “embolaram o jogo” nas últimas semanas da campanha, deixando os prognósticos incertos quanto aos dois mais votados que se habilitariam para o segundo turno. O resultado final foi o seguinte: Emmanuel Macron (En Marche), 24%; Marine Le Pen (Partido Nacional), 21,3%; François Fillon (Republicanos), 20%; Jean-Luc Mélenchon (França Insubmissa – Esquerda), 19,6%; Benoit Hamon (Partido Socialista), 6,4%; e outros (seis candidatos que se distribuem da extrema-direita à extrema-esquerda), 8,7%.

Ao longo da campanha, Macron e Marine Le Pen se destacaram na dianteira de acordo com as pesquisas, praticamente o tempo todo, desde que Fillon caiu para o terceiro lugar. A campanha dele não decolou devido a uma denúncia de corrupção de que teria utilizado recursos do Parlamento Europeu para remunerar sua esposa. Mélenchon começou a crescer nas últimas semanas, com chances de assumir o terceiro lugar ocupado por Fillon.

Marine Le Pen ocupou o primeiro lugar nas pesquisas praticamente desde o início, mas começou a cair ligeiramente na reta final e foi ultrapassada por Macron. No entanto, não há dúvidas de que ela foi favorecida politicamente pelo atentado ocorrido em Paris às vésperas da eleição, quando um policial foi morto em episódio rapidamente assumido pelo Exército Islâmico, pois o ocorrido reforçou seu discurso xenófobo. O que não se sabe é se houve conluio ou não, para que o atentado ajudasse a estancar sua queda nas pesquisas e interrompesse a ascensão de Mélenchon. As conjecturas sobre possíveis mudanças nas posições se deviam à existência de 31% de eleitores ainda indecisos na véspera da eleição.

O comparecimento às eleições de 62% dos eleitores foi considerado bom para os padrões franceses, e a ida de Macron e Marine Le Pen para o segundo turno foi um duro golpe para o bipartidarismo francês representado pelo Partido Socialista e os Republicanos, que vêm se alternando na Presidência desde a década de 1970. O primeiro foi visivelmente “castigado” pelo eleitorado por ter aderido ao “austericídio” defendido pela direita em toda a União Europeia e o segundo se dividiu ao escolher Fillon em vez de nomes mais conhecidos como Nikolás Sarkozy ou Allain Juppé, e este ficou na berlinda causada pelas acusações de corrupção. A esquerda representada por Mélenchon não se saiu mal, mas ainda carece de um programa capaz de atrair um contingente maior do eleitorado. A soma dos votos de Mélenchon, Hamon e dos partidos da extrema-esquerda alcançaram, aproximadamente, 30% dos votos, padrão tradicional na maioria dos países europeus.

O grande debate nacional sobre a França e a União Europeia foi jogado para o futuro, pois Marine Le Pen defende a realização de um plebiscito quanto à permanência ou não na UE e Emmanuel Macron é a favor da manutenção do status quo, sendo o mais provável vencedor do pleito em 7 de maio, já com o apoio formal do Partido Socialista e de François Fillon. Mélenchon ainda iria consultar suas bases sobre que rumo tomar. Porém, o fato é que o voto antifascista tem muito apelo.

A previsão é de poucas mudanças na política econômica e social atual que, inclusive, Macron ajudou a implementar quando foi ministro da Economia do atual presidente, François Hollande, embora depois tenha se retirado do governo e do Partido Socialista ao qual pertencia. Além do resultado do segundo turno, a atenção dos franceses e dos analistas se volta também para o resultado das eleições parlamentares de junho. Macron é um candidato independente apoiado por um movimento pouco estruturado chamado En Marche, que seguramente não elegerá a maioria parlamentar, o que pelo prognóstico mais provável representará um governo de centro na Presidência e de direita no Parlamento.

Na França, o regime político é semipresidencialista, pois o Parlamento tem muito poder. Por exemplo, o presidente não pode substituir um ministro sem o aval do parlamento. Já houve ocasiões em que o presidente e o primeiro-ministro foram de partidos diferentes, como no segundo mandato de François Miterrand (PS), quando ele compôs um governo de “coabitação” com o primeiro-ministro Eduard Balladour, dos Republicanos, exigindo muita habilidade política para não paralisar o país.

Kjeld Jakobsen é consultor na área de Cooperação e Relações Internacionais

 
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