A luta das mulheres no Brasil

Esse livro é uma segunda edição, revista e ampliada por Amelinha, como é conhecida a autora no movimento de mulheres, e, como ela mesma diz, tem servido há duas décadas e meia para a formação de novas gerações que procurarem informações sobre a história da luta das mulheres no Brasil.

Eu mesma, quando assessora da Coordenadoria da Mulher da Prefeitura de São Paulo entre 2002 e 2004, numa gestão do PT, propus e foi efetivada a aquisição desse livro, então publicado pela Editora Brasiliense, para todas as bibliotecas e salas de leitura da Secretaria Municipal de Educação como parte de um esforço de iniciar a discussão de gênero na rede municipal de ensino.

Menciono esse como um dos muitos exemplos da importância do pequeno livro que veio suprir uma lacuna na história contada sem a presença das mulheres, tirando-as da invisibilidade.

Essa nova edição inclui alguns ensaios que documentam momentos importantes para a luta das mulheres no Brasil, para o feminismo e sobre a presença das mulheres contra a ditadura e a construção da memória e da verdade numa perspectiva de gênero, que compõem uma segunda parte.

Breve História do Feminismo no Brasil conduz leitores e leitoras numa viagem histórica panorâmica. A autora parte da condição das lutas das mulheres desde o Brasil Colônia até a República. No entanto, a narrativa torna-se mais viva ao referir-se à história recente, pois as marcas da militância da autora, sua presença nas lutas do período testemunham fatos que revelam a importância da organização das mulheres a partir do golpe militar de 1964.

O fato mais marcante para a autora foi a participação das mulheres de classe média na “Marcha com Deus, pela família e a liberdade”, catalisadas pelas forças de direita que organizaram o golpe. Segundo Amelinha, tais fatos deveriam chamar a atenção da esquerda e das forças progressistas sobre a necessidade do trabalho com as mulheres, e principalmente atentar para as suas necessidades coletivas e para a articulação das lutas contra a ditadura.

Sem dúvida, o texto traça a trajetória da participação intensa das mulheres nas principais lutas do período. Assim, é possível compreender as dificuldades, dilemas e esforço combatente das mulheres na esquerda, sobretudo na luta armada, nas lutas populares e na organização das mulheres nas periferias das cidades.

A cidade de São Paulo foi o epicentro da organização das mulheres na periferia, e o livro enfatiza o movimento contra o custo de vida ou carestia, cuja liderança teve representantes de destaque, dentre elas a própria autora.

Assim, conhecer as principais lutas em que as mulheres se envolveram, suas formas de organização contra a ditadura, como a luta pela anistia, a edição dos jornais feministas como o Nós Mulheres e o Mulherio revela o quanto as mulheres estiveram presentes nas lutas sociais e como se organizaram e se fortaleceram nessas lutas.

A questão das mulheres reaparece no livro como questão feminista. As novas lutas e manifestações do 8 de Março, a articulação do movimento de luta por creches, a participação nos sindicatos e greves culminam nos Congressos da Mulher Paulista. Mesmo que de forma breve, os dilemas e polêmicas que envolveram a auto-organização das mulheres são expostos de modo franco, incitando a esquerda a repensar a questão do feminismo e da militância.

Nessa primeira parte apresenta, ainda, a organização da luta contra a violência sofrida pelas mulheres no início dos anos 1980, a luta pela saúde integral das mulheres, a mulher e a Assembleia Nacional Constituinte e os encontros feministas.

Enfim, as principais pautas e demandas feministas que deram origem a mudanças e alimentaram a agenda das políticas públicas são apresentadas de modo conciso e claro. Um ótimo roteiro para novos estudos e pesquisas.

A segunda parte, Outros Ensaios, apresenta documentos e sínteses importantes para a memória do movimento feminista, entre eles a defesa do aborto feita pela autora enquanto representante das feministas junto aos constituintes. Esse documento respaldou a emenda popular com milhares de assinaturas coletadas pelo movimento feminista em defesa do direito ao aborto, que ainda faz parte da agenda de lutas pela realização plena de nossos direitos.

Amelinha faz uma síntese da luta por creche, tão importante para feministas, tarefa muito relevante, pois graças a esse movimento a creche se tornou um direito no nosso país.

Mas é nessa conjuntura de desmanche de direitos e de novas violações, pela qual passamos hoje, que se faz importante a memória das mortes e torturas perpetradas pela ditadura. Nesse sentido o livro contribui enormemente ao apresentar três ensaios: a violação dos direitos humanos das mulheres na ditadura; a construção da Memória e da Verdade numa perspectiva de gênero e a republicação da introdução à obra Infância Roubada, na qual podemos conhecer melhor as infâmias das torturas e as sequelas em crianças e torturas sexuais às mulheres militantes que foram presas, sequestradas e mortas.

Por fim, o livro apresenta o feminicídio, um conceito a respaldar um novo instrumento legal, mas aqui principalmente escrito para dignificar a memória das vítimas.

Amelinha nos mostra, com esses ensaios vívidos, novas faces da opressão de gênero, com depoimentos e histórias tocantes que devemos conhecer para que não se reproduzam. Em tempos de golpe, mostrar as dores e as lutas de companheiras valorosas da história das mulheres no país é alimentar a resistência de que somos parte incontornável.

Maria Lucia da Silveira é socióloga, doutora em Sociologia e feminista

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