Interpretações das jornadas de junho

Ainda em junho de 2013, assim que as manifestações tomaram conta das ruas e da pauta política do país, as equipes da Boitempo e da Carta Maior idealizaram e deram início à organização desta coletânea de artigos, Cidades Rebeldes: Passe Livre e as Manifestações que Tomaram as Ruas do Brasil. Lançado em julho, o livro prontamente incidiu sobre as disputas de significados e interpretações de um fenômeno que inquestionavelmente marcou a história contemporânea brasileira.

Em meio à profusão de artigos e ensaios que circulou na grande mídia e na imprensa alternativa, os textos da coletânea, em sua maioria encomendados aos autores a partir de uma pauta elaborada coletivamente pelos organizadores, se destacam. Em primeiro lugar porque, uma vez reunidos em um único volume, complementando-se e contrapondo-se, minimizam as lacunas e parcialidades inerentes a qualquer análise que não se propõe sistemática e exaustiva.

Assim, análises circunscritas a determinado local – como a de Lincoln Secco sobre São Paulo ou a de Felipe Brito e Pedro Rocha Oliveira sobre o Rio de Janeiro – podem dialogar com a interpretação de Slavoj Žižek sobre as conexões existentes entre as jornadas de junho, no Brasil, e os diversos movimentos de massa que vêm eclodindo ao redor do mundo desde 2011.

Da mesma maneira, opiniões diferentes sobre o mesmo assunto ou acontecimento específico podem ser confrontadas, como é o caso da reação de Dilma Rousseff diante dos protestos. Enquanto Mauro Luis Iasi classifica os pactos propostos pela presidenta como “patéticos” e “uma enfática afirmação que tudo deve continuar como estava”, Žižek destaca o fato de que “os manifestantes foram imediatamente apoiados pela presidenta Dilma Rousseff”.

Em segundo lugar, os textos se destacam porque, mesmo abrangendo questões diversas – mídia, direitos sociais, violência policial, criminalização dos movimentos, crise de representatividade, trabalho precário etc. – em seu conjunto, dão nítida ênfase à questão urbana, a mobilidade e transporte público. A escolha da arquiteta e urbanista Raquel Rolnik para redigir a apresentação da coletânea e de um texto encomendado ao Movimento Passe Livre – São Paulo (MPL-SP) para inaugurar a sequência de ensaios confirmam esse caráter.

Definir a pauta da coletânea com essa diretriz não parece ter sido uma opção orientada apenas pela necessidade de compreender os principais fatores de eclosão de um fenômeno histórico e social que teve as cidades como palco.

De um lado, como nos indicam os textos de Ermínia Maricato, David Harvey e Carlos Vainer, trata-se do esforço de considerar a cidade não apenas como o espaço onde acontecem as contendas políticas, econômicas, culturais e sociais das lutas de classes, mas sobretudo como objeto mesmo dessas lutas, uma vez que a formação e o desenvolvimento das cidades são processos diretamente relacionados com as contradições do capital e as possibilidades de superação que elas engendram. “Se nosso mundo urbano foi imaginado e feito, então ele pode ser reimaginado e refeito”, afirma Harvey.

Por outro lado, a escolha provavelmente teve por objetivo desconstruir as teses correntes de que os protestos teriam como motivação e alvo principal os políticos, os partidos, os governos, a corrupção etc. Obviamente, nada disso foi poupado nos protestos. Mas seria um reducionismo localizar na desqualificação da política a origem e o centro de um fenômeno com fortes bases materiais concretas.

Por não menosprezar o fato de que o aumento nas tarifas do transporte público teve papel crucial e por direcionar a reflexão para os problemas urbanos vivenciados cotidianamente pelos brasileiros, a coletânea permitiu aproximar as relações entre as condições objetivas e subjetivas que desencadearam as jornadas de junho.

Contudo, um elemento fundamental para compreender “as manifestações que tomaram as ruas do Brasil” não recebeu tratamento adequado: a juventude e a questão geracional. Apesar de compor a análise de parte significativa dos autores, que em geral reconhecem os manifestantes principalmente como jovens, a questão geracional não foi analisada detidamente.

Leonardo Sakamoto foi quem mais se aproximou de uma discussão a fundo sobre essa questão. Seja ao indicar que “o problema entre a velha e a nova esquerda está no contexto em que seus atores foram formados” e que “a solução desse embate se dará com os mais antigos se retirando para dar lugar aos mais novos, formados em uma matriz diferente”; seja ao dizer que “muitos entre os mais jovens desconhecem o valor das lutas que trouxeram a sociedade até aqui – e não fizemos questão de mostrar isso a eles”, Sakamoto coloca a juventude como um importante foco de análise.

Ainda assim, em seu conjunto, a coletânea não dá a essa pauta tratamento adequado, o que poderia contribuir para uma interpretação das manifestações em suas diferentes dimensões.

Ao negligenciar a importância atual da questão geracional na sociedade brasileira, perdem-se de vista as contradições da mudança do tempo histórico no qual as gerações são forjadas. Como são distintas as experiências acumuladas de cada uma delas no momento em que aconteceu este fenômeno histórico, são diferentes também os sentidos a ele atribuídos e as consequências políticas dele extraídas.

Portanto, entender a geração que está vivenciando a condição juvenil é indispensável para compreender os acontecimentos em que esses jovens são os principais agentes.

O livro é certamente uma das melhores contribuições para o debate a respeito das jornadas de junho, mas não deixa de ser preocupante a juventude ter ocupado um espaço tão marginal nas reflexões.

Rodrigo Cesar é estudante de História na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

Creative Commons

Creative Commons
Revista Teoria e Debate. Alguns direitos reservados.