Um pensador ímpar

José Luís Fiori é um pensador ímpar no cenário intelectual brasileiro. Poucos como ele dispõem de uma sólida formação econômica e política, manejando uma enorme gama de autores, de Marx a Keynes, de Polanyi a Prebisch, de Weber a Norbert Elias, entre tantos outros.

Esse manejo seria um bom equipamento acadêmico, mas Fiori faz disso instrumento de compreensão da história como geopolítica, das disputas hegemônicas em escala mundial e regional, o que torna sua obra das poucas indispensáveis nos tempos contemporâneos – tão recheados de clichês e tão pouco substantivos.

Em um tempo em que predominam os catastrofismos, que preveem o fim do imperialismo e do próprio capitalismo em prazos determinados, salvo que as previsões ecológicas do fim do mundo cheguem antes, Fiori prima pela lucidez. Longe de qualquer apologia e naturalização da dominação norte-americana no mundo, conhece a força e os elementos de debilidade desse predomínio, por isso não cai nas esparrelas fáceis das análises em que a correlação de forças se concentra nas fraquezas do inimigo, esquecendo-se de que se trata de uma correlação, em que entram a força e a debilidade dos dois campos que se enfrentam.

Numa tese defendida em 1984 (O Voo da Coruja, Editora Record, Rio de Janeiro, 2003), Fiori advertia sobre a ilusão de pôr todas as expectativas de solução da crise brasileira, na saída da ditadura, na democracia, sem se dar conta do esgotamento do modelo econômico e do próprio Estado. Visão que se confirmou rapidamente, quando ficaram claros os limites da democratização, paralela à crise da dívida e a suas consequências.

Fiori e Maria Conceição Tavares (Poder e Dinheiro, Editora Vozes, Petrópolis, 1997) foram responsáveis por desmontar as ilusões que corriam pelo mundo sobre o fim próximo da hegemonia norte-americana, demonstrando como tinha se dado uma recomposição dessa hegemonia, que terminou desembocando no triunfo da Guerra Fria e num novo impulso.

Depois dos textos reunidos em O Poder Global, publicado também pela Boitempo, em 2007, Fiori selecionou uma parte dos seus artigos publicados de lá para cá, introduzidos por um longo e substancial texto, intitulado “Conjeturas e história”.
        
Nele o autor desenvolve, em sete teses teóricas e históricas, os conceitos e hipóteses fundamentais que têm orientado suas reflexões.

As duas primeiras trazem sua visão do poder e da acumulação de poder e de sua relação com as guerras de conquista e com os tributos. As duas teses seguintes sintetizam sua leitura histórica do sistema interestatal capitalista.

Na sequência, Fiori apresenta o ponto de partida de seu estudo sobre as grandes potências. E finalmente resume sua visão da conjuntura contemporânea e das transformações mais recentes do sistema internacional.

Baseado nesses teses, Fiori analisa dezenove países que já tiveram ou ainda têm posições de liderança política e econômica para formular algumas generalizações sobre as condições geopolíticas do desenvolvimento econômico das grandes potências e de alguns países ricos que não foram potências militares, mas ocupam posições estratégicas importantes na luta entre as grandes potências.

Surpresa especial está reservada para a parte final desse texto, em que Fiori esboça uma interpretação da história da América do Sul a partir da construção da hegemonia argentina e sua substituição pela hegemonia brasileira. Embora curto, esse trecho aponta uma reinterpretação – e, de alguma maneira, compromete o autor com ela – da história latino-americana, a partir das férteis observações contidas no texto.

Em seu conjunto, o livro constitui-se numa das poucas leituras indispensáveis produzidas hoje no Brasil sobre o que Fiori chama de geopolítica do capitalismo.    

Emir Sader é cientista político, professor doutor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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