Pelo exercício da história imediata

Tornou-se bastante usual o gracejo que afirma serem dignos de pena os historiadores que precisarão explicar, no futuro, a situação política do Brasil que assistiu ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Ainda que essa afirmação guarde diversos problemas, não se pode deixar de reconhecer que ela é, ao menos, algo otimista, já que projeta a existência de historiadores em um futuro que se vê ameaçado por apressadas reformas e medidas provisórias.

Otimismo sincero, contudo, surge com a publicação de Historiadores pela Democracia: o Golpe de 2016 e a Força do Passado. Mais do que um exercício de história imediata empreendido por um amplo e diversificado grupo de historiadores e cientistas sociais, o livro organizado por Hebe Mattos, Tânia Bessone e Beatriz Mamigonian registra o emprego do raciocínio historiográfico na composição de uma incisiva denúncia do assalto à democracia brasileira, conferindo contornos explícitos ao golpe parlamentar, jurídico e midiático vivenciado nos últimos meses.

Dividindo o material que apresenta em quatro grandes blocos – “Antecedentes”, “A crônica do golpe no olhar do historiador”, “Historiadores pela Democracia” e “O golpe de 2016: primeiras interpretações” –, o livro publicado pela Editora Alameda organiza textos, entrevistas e depoimentos diversos em ordem cronológica, estabelecendo não apenas uma “biografia” do golpe, mas buscando entendê-lo também em diálogo com movimentos mais amplos de um cenário global em que a agenda conservadora parece ganhar cada vez mais espaço e força.

Merece destaque também que os textos reunidos pela publicação sejam, em sua origem e circulação, fruto do próprio exercício da prática democrática – e não apenas retórica: o movimento Historiadores pela Democracia é resultado da força das articulações nascidas em plataformas digitais que surgem como alternativa às blindagens impostas pela mídia golpista. Tendo sua origem em um grupo que recebe o mesmo nome no Facebook – e que hoje conta com quase 13 mil membros –, o movimento reflete o poder de mobilização de instrumentos como blogs, tumblrs, canais no YouTube e páginas pessoais e coletivas nas redes sociais. Talvez o momento mais expressivo do poder de articulação das discussões promovidas nesses espaços tenha sido o encontro, no Palácio do Alvorada, de um grupo de historiadores com a presidenta Dilma, em 7 de junho. O encontro tornou claro que os Historiadores pela Democracia, ainda que reunidos em um grupo amplo e diversificado em sua constituição, congregando diferentes orientações políticas e profissionais, têm na defesa dos direitos inscritos na Constituição de 1988 o elemento fundamental de sua atuação.

Muitos poderiam se perguntar, no entanto, qual a necessidade de uma versão impressa dos artigos apresentados, ou mesmo de um livro que reúna textos que têm vida e dinâmicas diferentes quando acessados nos meios digitais em que surgiram e circularam. Nos últimos meses, torna-se nítido o aumento de títulos que, nas estantes das livrarias, reivindicam-se como explicações irrefutáveis dos processos políticos vivenciados no Brasil desde a reeleição da presidenta Dilma Rousseff, em 2014. Acompanhando esse fluxo, propagam-se também as biografias de supostos grandes juristas escritas a partir do princípio da predestinação, desenhando com traços precisos o herói contemporâneo que se torna um dos últimos bastiões da moralidade com força disciplinadora. O bom moço que estampa a capa desses livros, tal qual o Grande Irmão de Orwell, parece observar todos os movimentos feitos nas proximidades da estante que o guarda.

Enquanto isso, nos jornais de grande circulação, historiadores são acusados de fugir de seu ofício primeiro – aquele de “reconstituir o passado para entender o que somos no presente” (sic) – e também de formação de “quadrilhas” de promoção da propaganda política esquerdista. Nota-se a intensificação de um esforço que caminha no sentido oposto àquele do trabalho do historiador: um esforço que quer desenhar uma unicidade para o passado recente. Falamos do desejo, alimentado por esforços editoriais e midiáticos, de um passado estático, tão imobilizado quanto o historiador que deverá “reconstituí-lo”. Àqueles que nutrem esse desejo, o exercício de história imediata promovido por Historiadores pela Democracia pode mesmo parecer um contrassenso.

Na observação desse cenário, a publicação do livro Historiadores pela Democracia torna-se ainda mais necessária – trata-se de uma coletânea que rompe os limites que se têm tentado impor ao trabalho do historiador e também ao acesso a possibilidades problematizadoras dos recentes acontecimentos políticos brasileiros. Historiadores pela Democracia estão, afinal, dispostos a denunciar a “força do passado” não como o cárcere de seu trabalho, mas sim como motivação para defesa das conquistas trazidas pelos últimos anos do exercício democrático no Brasil – conquistas que passam pela ampliação de políticas de ação afirmativa, pela liberdade de ensino, pela manutenção e ampliação dos direitos dos trabalhadores, entre tantos outros aspectos. Na permanência da “força do passado”, fica também a necessidade de reafirmar: nenhum direito a menos!

Raquel G. A. Gomes é pós-doutoranda junto ao Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

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