Quanto vale o trabalho das mulheres?

O trabalho das mulheres sempre esteve às voltas com discussões sobre seu valor. A entrada maciça delas no mercado de trabalho na metade do século passado teria gerado diminuição dos salários e o recuo das pautas sindicais. Direitos sociais, licença-maternidade e seguridade social seriam indícios de maior discriminação, na medida em que seriam um atestado das desigualdades de sexo? Ainda que presentes na luta de trabalhadoras e trabalhadores, essas questões não têm recebido a atenção devida de estudos acadêmicos. Todavia, Ludmila Costhek Abílio cobre parte importante dessa lacuna com um sólido exame sobre o Sistema de Vendas Diretas (SVD) no Brasil, em livro publicado em 2014 pela Editora Boitempo.

A socióloga entrou no universo de 25 mulheres que trabalham no referido sistema. As consultoras da Natura são bem conhecidas; elas mostram o catálogo, recolhem os pedidos e entregam os produtos. A pesquisa reuniu os relatos de consultoras de diversas classes sociais e aferiu baixos rendimentos para quem desempenha a tarefa. Foi possível também comparar os altos lucros da empresa num negócio muito seguro, com retornos garantidos. A responsabilidade pelo pagamento dos produtos é da consultora, que os encomenda e recebe um boleto, seu único vínculo formal com a empresa. Em 2008, a Natura teve lucro líquido de R$ 500 milhões e aumentou consideravelmente sua receita em anos seguintes. O exército de colaboradoras é incentivado a contribuir com a Previdência de forma autônoma e não conta com nenhum outro direito ou garantia. As consultoras somam 1,3 milhão de mulheres. Em contrapartida, o número de funcionárias e funcionários é de 6 mil.

Sem Maquiagem parte da perspectiva de que tratar do trabalho é também tratar da acumulação capitalista. Consegue demonstrar que a precarização não é uma novidade no capitalismo, haja vista a condição e as relações de trabalho desde seus primórdios: escravidão e fábricas insalubres que, combinadas a jornadas extenuantes, são marcas da história do trabalho. Ao revelar a condição de vendedoras e consumidoras, pois as trabalhadoras muitas vezes vendem Natura para garantir o consumo de seus produtos preferidos, a pesquisa mostra o que chama de “privatização do tempo do não trabalho”, tempo em que as mulheres seguem trabalhando e promovendo a marca.

O valor da marca Natura ganha materialidade na análise de Ludmila. Ao arrepio das denúncias de biopirataria, como a de 2001 quando o uso do murumuru pela etnia Ashaninka se tornou um produto da empresa, sem maiores custos, a marca é lembrada pela opinião pública como símbolo de respeito à natureza e à biodiversidade. A mercadoria passa a ter um valor que supera a troca e o fetiche.

Os altos lucros da empresa se valem muito desse trabalho feito no tempo do não trabalho. Em vez de se ater  aos efeitos do capital imaterial, Ludmila Abílio desvenda o universo de exploração, não tão evidente, que o SVD também compõe. Trata-se de um esforço fundamental para que a exploração de mulheres e homens volte a fazer parte de análises sobre o mundo do trabalho. As noções que apregoam que o capital especulativo teria diminuído a relação entre capitalismo e trabalho baseiam-se na dificuldade em discernir as relações de produção, para quem e em que condições se trabalha. No entanto, as diferentes configurações que as relações de produção assumem ao longo do tempo não levam a pesquisa a relativizar a exploração.

Ao analisar a condição das mulheres no SVD, a autora reconhece a divisão sexual do trabalho e considera que no mercado as tarefas mais mal remuneradas são deixadas para elas. Isso envolve o papel de gênero: a venda direta não interfere nas tarefas domésticas e repõe a opressão de manter as mulheres restritas ao mundo privado. Elas empenham 24 horas semanais em trabalho doméstico não remunerado, enquanto os homens afirmam gastar pouco mais de nove horas nas mesmas tarefas (Censo 2010). Essa desigualdade do uso do tempo sustenta a reprodução da vida, a cargo das mulheres, e há que considerar que compõe o universo de exploração tratado pelo livro. Tanto as consultoras que têm trabalho formal, quanto aquelas que têm nas vendas sua principal fonte de renda desempenham o trabalho doméstico e de cuidados. Além disso, a depender das entrevistas apresentadas pela pesquisa de Ludmila Abílio, dedicam a maior parte de seu tempo a essas tarefas do que à própria venda de produtos. Tratar do tema do trabalho é também tratar da acumulação de riquezas.

No colofão de Sem Maquiagem, uma instigante gravura apresenta o formato do livro e destaca a aprovação da chamada PEC das Domésticas, a mudança constitucional número 66 que equiparou os direitos das trabalhadoras domésticas aos das demais categorias. Direitos sociais e trabalhistas, chamados pela autora de “freios do capitalismo”, fazem parte das explicações para a redução da informalidade no mercado de trabalho. E certamente ajudam a afrontar o ocultamento relegado ao trabalho doméstico, remunerado ou não, desempenhado pelas mulheres. O valor do trabalho das mulheres, como a tese de Ludmila Abílio ajuda a desvendar, não é mesmo uma simples conta de somar.

Glaucia Fraccaro é doutoranda em História Social da Unicamp
 

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