Saques

Waly Salomão

Ainda há focos de incêndio no pavilhão
E a laje ameaça desabar.
Um cruzado mané-ninguém surta em majestade
Rompe o encouraçado cordão de isolamento
Escala a pilha de escombros
Alça os braços aos sete céus e clama:
- Assim me falou o Rei Invisível:
“Sois a alma do Universo”.

Convoca falanges, coortes de legionários desembestados,
Uma gentinha que aplica lances e golpes e vive de expedientes,
Famílias famélicas
E sua prole prolífica
Gatinham no garimpo do galpão em chamas.
O homem do riquixá garante seu espólio:
Comidas, freezers, aparelhos de ar-condicionado.
Blusões e tênis enfarruscados.
Dois homens colocam outro freezer numa carroça
E saem em disparada no foco da fotografia.
Três mulheres de Tatuapé carregam sabonetes sem marcas,
Mesas e cadeiras de ferro.
Um Raimundo empunha um carrinho de pedreiro lotado de britas,
Pedaços de concreto, sacos de arroz, de feijão.
“Nunca comi esse tal de atum, agora vou experimentar” –
Testemunha a desempregada de nascença Josete Joselice, 56,
Mostrando para a câmara da TV uma latinha chamuscada.
Lá nas alturas do monte,
Uma moça banguela ergue no pódio seu troféu de pacotes de mozarelas.

Como os valentes, finca teu estandarte
No meio do deserto.

Waly Salomão

Fiel a sua lira desde cedo, Waly Salomão (1943-2003) só se despediu dela na morte. Praticava uma poesia exuberante, expressão de sua personalidade sem peias, extrovertida e mesmo extravagante. Em consequência, a opulência verbal e rítmica jamais se desmentiria. Libertário, este agitador cultural atirava para todos os lados em luta incansável contra o convencionalismo, fosse estético fosse comportamental. Ao nomadismo de sua sina e de seus ancestrais fenícios acrescentava amplas leituras e uma dedicação jamais desfalecente aos poetas, em corte vertical desde os gregos até os deste momento. Não foi à toa que, nativo da baiana Jequié, viria a adotar o pseudônimo de Sailormoon. Apaixonado pelas galas da linguagem, o poeta tropeça em palavras, em rimas, em sonoridades esdrúxulas, para depois polir o poema como se fosse uma joia, até ficar reluzente e sem arestas. Ou então, ao contrário, enfatiza as arestas, para preservar o grão heterogêneo que contradiz a fluidez enganosa do verso. Atento ao cotidiano brasileiro, Waly dedica-se com frequência a comentá-lo, como no poema aqui reproduzido, uma boa amostra de seus interesses e talentos.

Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da FFLCH da USP, integra o Conselho de Redação de Teoria e Debate

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