[Sem título]

Estrela Ruiz Leminski

O mundo é feito de pontos. São muitos se forem pontos de vista. Poucos se forem pontos estratégicos. Muito úmidos se forem pontos de chuva. O mais gostoso é ponto de encontro, mas às vezes desencontra. Os pontos de luz, um homem e uma mulher nus. Todos são pontos. O caminho entre dois uma reta. Uma linha. Um caminho que caminha sozinho. Fim da linha. Ou do fio. Fio da meada é na conversa. Conversas são feitas de pontos de enfoque. O palco também. Amores são pontos em comum. Os pontos são um.

(Poema sem título, Cupido: Cuspido, Escarrado, 2004)

Estrela Ruiz Leminski

O poema em prosa de Estrela Ruiz Leminski aqui estampado enovela-se em torno do balé semântico da palavra “ponto”, esboçando um gracioso minueto enquanto explora suas virtualidades. O jogo coloquial e descolado faz malabarismo com a porfia tanto linguística quanto poética, a que não falta uma pitada ácida de humor – o que já se nota no título Cupido: Cuspido, Escarrado, do livro em que o poema figura. A autora é polivalente, pois, além da escrita, seus múltiplos talentos incluem o jornalismo e a composição musical, tendo a seu crédito vários CDs gravados. Nascida em Curitiba em 1981, não nega o sangue: é filha de dois poetas, Alice Ruiz e Paulo Leminski.

Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da FFLCH da USP, integra o Conselho de Redação de Teoria e Debate

 

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