Estudos Brasileiros extramuros

Šárka Grauová é grande admiradora da literatura brasileira. Tradutora de Macunaíma, de Mário de Andrade, e Memórias Póstumas de Braz Cubas, de Machado de Assis, entre outros, a professora doutora da Universidade Carolina (Carolus) de Praga, é chefe do Departamento de Estudos Luso-Brasileiros

Professora Sarka Grauová traduziu, entre outros, Macunaíma e Budapeste

Professora Sarka Grauová traduziu, entre outros, Macunaíma e Budapeste

Foto: Arquivo pessoal

Nossa entrevistada é Šárka Grauová, a quem o Brasil muito deve, pois milita por nossas coisas em várias frentes. Professora doutora da Universidade Carolina (Carolus) de Praga (fundada em 1348 e uma das mais tradicionais da Europa), é chefe do Departamento de Estudos Luso-Brasileiros, presidente da Sociedade Checa de Língua Portuguesa e diretora da coleção de traduções intitulada Biblioteca Luso-Brasileira. Para que ninguém pense que se deixa intimidar por dificuldades, ela própria traduziu Macunaíma, de Mário de Andrade, e Memórias Póstumas de Braz Cubas, de Machado de Assis, entre outros

Como você chegou ao estudo de português, enquanto vocação e carreira?
É uma história meio mirabolante, mas a vida às vezes faz cabriolas assim. Entrei na Faculdade de Letras da Universidade Carolina de Praga em 1983, em pleno regime comunista que tinha a mania de querer planejar tudo, inclusive o número de especialistas a se formar em cada área. Por isso, em certos anos o Ministério da Educação permitia à universidade abrir somente determinados cursos.

Na verdade, eu queria estudar inglês. Antes do fechamento das fronteiras depois de 1969 (que se seguiu à invasão das tropas russas em represália à Primavera de Praga), minha família conseguiu passar um ano na Califórnia, onde meu pai era professor visitante na Universidade de Berkeley. Também um avô, que vi pela primeira vez só anos depois, vivia como imigrante político em Maryland... Acho que a língua inglesa tornou-se desde cedo meu espaço interior da liberdade. E, em 1983, a universidade oferecia o inglês somente em duas combinações possíveis: com o checo, que até muito me interessaria, mas descartei logo por ter a ver mais com a vida do país, e por isso sofrer supervisão ideológica brutal, e o português, do qual não sabia nada.

Havia exames de admissão – tinha sessenta ou setenta pessoas querendo ingressar e o numerus clausus era cinco. Pedi emprestado todos os livros de literatura de língua portuguesa que consegui encontrar... Achava horrível, tinha muito romance português neorrealista que eu detestava. Jorge Amado tinha vivido exilado na República Checa, morando num castelo da Sociedade dos Escritores Checoslovacos em um período em que alguns dos nossos escritores penavam nas minas de urânio. As traduções de suas obras eram publicadas com prefácios dos pontífices do regime...

Era difícil imaginar que tudo isso não tinha um fundo interesseiro. É preciso saber muito sobre Graciliano Ramos para perceber que seu relato da passagem pela Checoslováquia e pela União Soviética em Viagem tem pontos de discordância quanto ao regime que tentava iludi-lo. Lembro que gostei da Clarice, mas, como li no posfácio da tradutora Pavla Lidmilová que o título Perto do Coração Selvagem era inspirado em Joyce, achava que era pela influência do modernismo britânico que o livro era bom.

Passei nos exames, entrei na faculdade – mas continuava detestando o português, que senti como uma entre as muitas coisas impostas pelo regime, como Comunismo Científico ou Defesa do País Socialista, disciplinas especiais nas quais até fiz exames. Depois soube que, numa época mais antiga que minha memória, houvera uma disposição que obrigava a pessoa que queria comprar um quilo de laranja a adquirir um quilo de cenoura para acompanhar. Por assim dizer, o português é minha cenoura... Depois descobriram que, em lugares de clima como o nosso, a cenoura até traz maiores benefícios à saúde que as laranjas.

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