Insurreições: memórias em busca de um lugar

Alipio Freire procura uma instituição pública para abrigar a coleção que está sob sua guarda, para preservar e divulgar a memória da resistência à ditadura militar. “Isso é parte da história do povo brasileiro, da classe trabalhadora brasileira, e é deles”

Alipio Freire ao lado de autorretrato: expressões artísticas da resistência

Alipio Freire ao lado de autorretrato: expressões artísticas da resistência

Foto: Daniel Garcia

Insurreições, exposição das manifestações artísticas dos presos políticos durante a ditadura militar é uma faceta dos tempos de rememorar e contar as lutas do período. Abrigada no antigo prédio do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), hoje Memorial da Resistência de São Paulo, a exposição é o testemunho do tempo da privação de liberdade, da dor da separação e do horror da tortura. São 76 obras distribuídas entre os temas Terror de Estado, Brincadeiras, Cartas, Solidariedade – Ioshia Takaoka e Ateliê de Radha Abramo, Ateliê de Xilogravura  e Rostos e Retratos.

Alipio Freire, jornalista, escritor e artista plástico e também curador e guardião da coleção, percorre os dois corredores em que estão os quadros, as cartas e as peças, explicando e relembrando para quem quiser saber a história de cada uma.  Histórias que Alipio viveu e conhece muito: como militante da Ala Vermelha – dissidência do PCdoB ­–, foi preso em 1969  e ficou confinado até 1974, percorrendo o presídio  Tiradentes e a Penitenciária do Estado. Alipio, nascido na Bahia, foi editor da revista Teoria e Debate e atualmente integra o conselho editorial do jornal Brasil de Fato e da editora Expressão Popular, e preside o Núcleo de Preservação da Memória Política.
 
A exposição é visitada por grupos de estudantes jovens e o bem-humorado anfitrião não deixa passar: "Os tempos mudaram mesmo, antes essa moçada entrava aqui presa, apanhando pra falar... Agora eles entram e saem, rindo, e nada acontece. Esse mundo tá perdido".

Essa é a 13ª exposição do acervo, que já esteve em outras cidades e atravessou os mares, parando em Portugal, ao lado de trabalhos artísticos de presos pelo regime salazarista. A primeira foi em 1984, instalada na sede da seção paulista da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), e marcava os cinco anos da Anistia.

A história dessa coleção começou na cadeia: Alipio passou a juntar todo o material que era produzido pelos presos, há mais de quarenta anos. "Sempre gostei de juntar as coisas e guardar. Depois, conversando com Sérgio Ferro, ele me falou de uma exposição que tinha visto na Alemanha, ou em outro país da Europa, sobre o Holocausto. Falou de uma pilha de sapatos, e aquilo pegou na minha cabeça. Passei  a ter ainda mais cuidado (com esse material). Como eu ganhava muito desenho, porque eu também desenho, fui mandando para casa." Com a contribuição da Rita Sipahi, quem conheceu no Presídio Tiradentes e é sua companheira até hoje, Alipio foi construindo o legado que hoje está em torno de trezentas peças.

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