Tusp: teatro estudantil e resistência

Nos anos 1960, em meio à extraordinária efervescência política e cultural que caracterizou a década, verificou-se uma expansão ilimitada do teatro. Todo grêmio de escola que se prezasse tinha seu grupo de drama e produzia espetáculos relevantes. É nesse cenário que surge o Teatro dos Universitários de São Paulo, ou Tusp

Em cena, no Teatro dos Universitários, Os fuzis da Senhora Carrar, de

Em cena, no Teatro dos Universitários de São Paulo, "Os Fuzis da Senhora Carrar", de Bertold Brecht

Foto: Acervo Iconografia

Quem passasse por perto de Flávio Império quando assumiu a direção do Tusp em 1968, seria tragado pelo poder de imantação de seu fervor. De mim, queria apenas uma mão no texto da próxima encenação, numa espécie de assessoria literária durante os ensaios, para aparar as arestas e melhorar a fluência das falas. Ensaiava-se onde houvesse espaço e boa vontade, na Faap ou nas casas de Thomaz Farkas e Miriam Muniz.

A primeira tarefa que me destinou foi dar uma aquecida na introdução, uma análise da Guerra Civil Espanhola escrita por Boris Fausto a pedido do diretor. Um tanto longa e austera, segundo Flávio, precisava ser reduzida e dramatizada. Isso foi só o começo.

O teatro estudantil na década

Nos anos 1960, em meio à extraordinária efervescência política e cultural que caracterizou a década, verificou-se uma expansão ilimitada do teatro, em geral, e mais ainda daquele feito por alunos. Todo grêmio de escola que se prezasse tinha seu grupo de drama e produzia espetáculos relevantes. Entre as peças mais encenadas em todo o território estavam O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, ambas de inspiração sertaneja e popular, típica da década. Modelo e padrão, a encenação desta última pelo Tuca em 1966, com música de Chico Buarque tocando violão no palco, ganharia o prêmio do festival de teatro estudantil de Nancy, na França. Em São Paulo, a Comissão Estadual de Teatro fornecia verbas para essas realizações, e até consta que a grande montagem do Tuca teria sido financiada pela conjunção de recursos concedidos pela Comissão ao Tusp, ao Mackenzie e ao próprio Tuca1. A militância do Centro Popular de Cultura, ou CPC, muito tinha a ver com essa eclosão e com o prestígio do teatro como instrumento de resistência à ditadura.

Foi nesse quadro que entrou na liça o Tusp, ou Teatro dos Universitários de São Paulo, título que só utilizou nesse período, quando assumido por alunos da FAU e da Faculdade de Filosofia da USP. Ajudava muito que as duas escolas, uma na rua Maranhão e a outra na Maria Antônia, ficassem pertinho uma da outra, facilitando o leva e traz. E ambas passariam a maior parte do ano de 1968 ocupadas pelos estudantes.

Antes de mais nada, é bom lembrar que a sigla Tusp foi apropriada pela USP bem depois, passando a ser um órgão da Pró-Reitoria de Cultura. Em São Paulo, o Tusp já vinha de antes, e fora criado como Teatro Universitário de São Paulo. Este dos universitários (e não da universidade), em fase anterior, dirigido por Paulo José, e já na voga de Brecht, montara A Exceção e a Regra em 1967, levando-a a percorrer sindicatos e incitando a debates com os operários. Depois, chegamos à fase sob a direção de Flávio Império.

A peça escolhida foi Os Fuzis da Senhora Carrar, de Brecht.  Renomeada para a ocasião como Os Fuzis de Dona Teresa, abrasileirando o nome da protagonista e talvez despistando a censura, peça e autor figuravam entre os favoritos. Em 1962 fora encenada profissionalmente pelo prestigioso Teatro de Arena, com Dina Lisboa no papel-título e direção de José Renato, tendo Flávio por cenógrafo e figurinista.  

Dentre as muitas montagens amadoras espalhadas pelo país, menciona-se aqui só uma, a da Faculdade de Engenharia Mackenzie, dirigida por Antonio Ghigonetto em 1962, com a secretária da faculdade como protagonista. Seu nome era Dina Kutner futura mãe da atual atriz Bel Kutner, havida de seu casamento com Paulo José e sua carreira se desenvolveria sob o nome profissional de Dina Sfat. No momento, fazia no Arena o papel secundário de Manuela na mesma peça. O espetáculo mackenzista ocupou o palco do Teatro Leopoldo Fróes,  na Vila Buarque, e depois excursionou a Porto Alegre, para o festival criado por Paschoal Carlos Magno2. Como tantas outras iniciativas culturais, esta tinha tomado impulso no governo Kubitschek, quando Paschoal Carlos Magno, seu chefe de gabinete, recebera todo o apoio para as artes cênicas. Paschoal criara o Teatro do Estudante há tempos, com festival anual próprio, modelo que se disseminou pelo Brasil. Tanto o grande homem de teatro como suas iniciativas seriam ceifados pelo golpe de 1964.

Dentre os autores estrangeiros, sem dúvida era Brecht o dramaturgo da década. Um sem-número de suas peças foi encenado em toda parte, e dentre as preferidas pelos amadores vinha justamente esta. Peça curta, em um ato, não apresentava maiores dificuldades e, justamente, pregava a militância política – fator nada desprezível para sua extrema popularidade numa época como aquela.

Notas
  • 1. Jefferson Del Rios, “Os Fuzis do Tusp”, Bananas ao Vento – Meia década de cultura e política em São Paulo. São Paulo: Senac, 2007.
  • 2. Em Porto Alegre, a trupe também levou ao palco Moleque Tião, com Dina Sfat no papel de Dona Borrachinha, em peça didática alertando o público infantil para cuidar do material escolar. Informação de Walmes Nogueira Galvão, que fez o papel-título e em Os Fuzis mackenzista o Segundo Soldado.
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