• Edição 118
  • 12 novembro 2013
    • Alexandre de Freitas Barbosa

A agenda antidesenvolvimentista

Os antidesenvolvimentistas partem do pressuposto de que o “nacional-desenvolvimentismo” do governo Dilma naufragou. Como alternativa pregam uma agenda voltada para a ampliação da produtividade, o que seria conseguido “facilmente” com a redução das tarifas de importação, a assinatura indiscriminada de acordos comerciais e redução da carga tributária. Propõem um teto aos gastos do governo e criticam a fórmula de valorização do salário mínimo, pois engessa a competitividade do país

Os anos 2000 significaram uma inflexão na história brasileira. Ainda sabemos pouco sobre o que aconteceu em vários aspectos: o novo padrão de inserção externa da economia brasileira, as transformações na estrutura de classes, as relações entre o Estado e o setor privado, a divisão inter-regional do trabalho, para falar apenas dos temas mais palpáveis, sem ingressar no âmbito mais subjetivo da cultura e das aspirações coletivas.

Nesse período, as palavras desenvolvimento, projeto nacional e planejamento voltaram a ser proferidas, mas não praticadas em sua plenitude. Se quisermos usar um termo retirado do nosso passado – mas desgastado pelo uso economicista que geralmente se faz dele no presente –, podemos dizer que avançamos, mas sem ultrapassar o limiar do pré-desenvolvimentismo.

O objetivo deste artigo é identificar mais uma barreira a nos manter na incômoda antessala do desenvolvimento. Trata-se do retorno da agenda antidesenvolvimentista.

Essa barreira – que havia sido apenas parcialmente deslocada – volta agora com força redobrada. É importante reconhecer que ela não emergiu como mero fruto do acaso. A incapacidade de construção de uma nova perspectiva desenvolvimentista – para o que contribuíram várias ilusões gestadas no campo progressista sobre a variedade de capitalismo no Brasil e sua estranha coalizão de poder – foi parteira do seu adversário, que tenta voltar ao passado (será possível?) e recuperar a agenda mais ampla do Plano Real, abortada pela crise externa dos anos 1990 e pelas reações da sociedade.

Quem são os antidesenvolvimentistas? De maneira sintética, pode-se dizer que fazem parte desse grupo economistas com formação obtida em centros de prestígio no exterior, os quais se socializam nos departamentos de Economia de algumas importantes universidades brasileiras. Hoje seu quartel-general encontra-se no Instituto de Estudos de Política Econômica, mais conhecido como Casa das Garças, no Rio de Janeiro.

Por que antidesenvolvimentistas? A afirmação pela negativa não tem nenhuma conotação pejorativa nem busca desqualificá-los. Eles próprios rejeitam qualquer filiação com a tradição do desenvolvimentismo no Brasil. O prefixo “ant(i)-” se justifica ademais pelo desapreço que têm com relação às peculiaridades e potencialidades nacionais – ponto de partida central do desenvolvimentismo –, preferindo aplicar uma farmacologia, pretensamente universal, mas em desuso inclusive nos centros onde adquiriram sua formação acadêmica.

Mais recentemente, eles estão se reorganizando em torno de grupos sociais poderosos. Vejamos o que querem os antidesenvolvimentistas1.

Em primeiro lugar, partem do pressuposto de que o “nacional-desenvolvimentismo” do governo Dilma naufragou. Segundo seu diagnóstico, a combinação entre juros cadentes desde 2011 com a política de contenção à valorização cambial acionada em 2012, maior “protecionismo à indústria” e “relaxamento fiscal”, num cenário de “pleno emprego”, em vez de produzir crescimento contribuiu apenas para incrementar a inflação. O recuo recente do governo – leia-se elevação dos juros – seria uma admissão de que a estratégia não deu certo e, portanto, precisa de uma guinada radical.

Como alternativa, os antidesenvolvimentistas pregam uma agenda voltada para a ampliação da produtividade, o que seria conseguido “facilmente” com a redução das tarifas de importação, a assinatura indiscriminada de acordos comerciais e uma redução da carga tributária. De modo a não afetar a dívida pública, eles propõem um teto aos gastos do governo, que deveriam se expandir a um ritmo inferior ao da economia brasileira. A fórmula de valorização do salário mínimo também passa a ser criticada, pois engessaria a competitividade do país.

Notas
  • 1. Tomamos como referência as ideias de um dos principais mentores desse grupo, o economista Edmar Bacha, expostas no artigo “Abrir ou abrir, eis a questão”, Valor Econômico, 27 de setembro de 2013.
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