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A dinâmica econômica de Cuba

Embora o turismo ainda seja visto como o segmento mais dinâmico do país, os investimentos no setor agroalimentar têm crescido 14% ao ano e as discussões sobre o desenvolvimento da indústria sidero-mecânica têm sido intensas. Do ponto de vista político, com todas as mudanças pelas quais Cuba vem passando, o Partido Comunista Cubano e a União dos Jovens Comunistas continuam a ter papel muito importante, totalizando em torno de 1 milhão de militantes

O projeto do governo cubano é comercializar mais de 500 mil linhas de telefonia

O projeto do governo cubano é comercializar mais de 500 mil linhas de telefonia móvel em 2017

Foto: Enrique de La Osa/Reuters/Latinstock

Diversos indicadores da economia cubana na atualidade despontam quando se tenta avaliar os caminhos de desenvolvimento escolhidos pelo núcleo dirigente daquele país. A reativação da produção de derivados de açúcar (como nas áreas voltadas para a energia elétrica a partir de biomassa, ração animal, álcool, rum e insumos para a agricultura), que se encontrava estancada, indica o paulatino robustecimento do setor. Em conjunto com a China, a ilha está desenvolvendo diferentes equipamentos agrícolas, como carregadores de cana, a “combinada cañera” CC 500, bulldozers, minicolheitadeiras de arroz e betoneiras. Vale recordar que se em 1986 os cubanos atingiram a cifra de 286 mil toneladas de arroz, em 2010 o número foi de 86.100 toneladas, um descenso bastante acentuado. Por isso, em 2012 seria aprovado o Programa de Desenvolvimento Integral do Arroz, que resultou na produção de 315 mil toneladas do produto para consumo (no ano seguinte, foram 338 mil toneladas). Se inicialmente o “programa” contava com seiscentas unidades e 18 mil produtores agrícolas em doze províncias, hoje possui 23 mil associados a essa atividade (em relação às empresas agroindustriais ligadas ao projeto estão a Sur del Jíbaro em Sancti Spíritus e a Ruta Invasora de Camagüey, por exemplo). Os números globais da safra arrozeira iriam apresentar uma diminuição até 2015 (em grande medida por causa de forte seca nas regiões produtoras), atingindo o patamar naquele ano de 240 mil toneladas. Em 2016, contudo, pela melhor utilização da água e maior eficiência produtiva, houve a retomada do crescimento, com uma produção de 263 mil toneladas desse item (ainda assim, o setor agrícola executou somente 76% dos investimentos na área). Com o recebimento de 486 novos tratores a expectativa é de aumento da colheita, que deve chegar a 307 mil toneladas em 2017, segundo o plano anual, ainda que o grão nacional não seja dos melhores.

Há um interesse nítido em construir e ampliar plantas de beneficiamento de sementes, estimular o processo de modernização de moinhos, a aplicação do uso racional da água, assim como o incremento em inversões em canais, obras de irrigação e drenagem. O objetivo é substituir totalmente a importação de produtos da cesta básica para consumo da população e turismo (principalmente feijão e milho), o que não deve ocorrer, entretanto, no curto prazo (em 2006, a importação chegou a 147 mil toneladas de feijão; dois anos depois, foram gastos US$ 75 milhões para comprar o produto do exterior).

Por isso, é mister para as autoridades da ilha fortalecer concomitantemente acordos comerciais mais favoráveis ao país (tanto em termos de qualidade como de preços mais competitivos no mercado internacional). Nesse campo, a aproximação com os Estados Unidos tem sido considerada importante. O atual secretário de Agricultura e ex-governador da Geórgia, Sonny Purdue (que em 2010 havia liderado uma delegação de seu estado à ilha), em audiência recente no Senado, explicitou seu interesse em ampliar as relações comerciais com Cuba, indicando a urgência do apoio do Congresso a medidas de financiamento que permitam que os produtores ianques possam vender seus produtos à nação caribenha, já que isso seria importante não só para o sudeste norte-americano (arroz) como para o meio-oeste (feijão e grãos diversos). O embaixador cubano em Washington, José Ramón Cabañas, por sua vez, esteve no final de março de 2017 em Columbus (Ohio), onde se reuniu com o presidente da Câmara de Representantes daquele estado, Cliff Rosenberger; com David Daniels (diretor do Departamento de Agricultura local); com Michael Drake (presidente da Ohio State University); e com representantes da Ohio Farm Bureau, da Columbus Association, da agência Columbus 2020, da Jobs Ohio e da comunidade cubano-americana local. Na ocasião, houve forte demonstração de interesse de ambas as partes em incrementar os investimentos e as relações econômicas mútuas, assim como ampliar conversas em relação às potencialidades de comércio na área agrícola.

De qualquer forma, a produção interna de culturas como o feijão tem, sem dúvida, se incrementado. Afinal, a partir de 2014, o governo começou a investir substancialmente no setor, com a aquisição de 196 colheitadeiras de grãos, 302 semeadoras, 578 tratores, 510 fumigadores, 252 carretas graneleiras, 200 máquinas limpadoras de grãos e 139 máquinas de irrigação (para 5.600 hectares). Tudo isso acompanhado do apoio e pesquisa do Instituto de Investigación de Granos do Ministério da Agricultura, que desenvolve, desde 2010, um programa de aperfeiçoamento genético de arroz e feijão, com sementes certificadas.

O Movimiento de Cooperativas de Frutales, por seu lado, constituído por 206 unidades integradas (cooperativas de créditos e serviços e de produção agropecuária), atua num território de 14 mil hectares. De 2012 a 2017, o aumento das áreas dedicadas ao plantio e colheita de frutas (ligadas ao movimento) foi de 15%, resultando, em 2016, numa produção global de 104.867 toneladas. Na prática, a cifra representa 20% a mais do que vislumbrado pelas perspectivas da planificação e 19% de tudo o que foi produzido na ilha naquele ano.

De maneira geral, os investimentos no setor agroalimentar têm crescido 14% ao ano. Para isso, o governo cubano está implementando 21 programas de ação (com estudos de factibilidade) para diferentes áreas, como o uso eficiente da irrigação (junto ao Instituto Nacional de Recursos Hidráulicos) para enfrentar as consequências da estiagem recente; o estímulo a práticas de agroecologia; a construção de fábricas de biopesticidas e de biofertilizantes (projetos encabeçados pela Azcuba e Labiofam); a consolidação do encadeamento de setores produtivos distintos; a criação de usinas bioelétricas (com biomassa de cana), além de compra de maquinaria e da aquisição e incorporação de novas tecnologias no campo.

Discussões sobre o desenvolvimento da indústria sidero-mecânica em Cuba também têm sido intensas em tempos recentes. Ramos como siderurgia, reciclagem, construção de maquinaria, meios de transporte e setor metal-mecânico, concentrados nas mãos do Grupo Empresarial da Indústria Sidero-Mecânica (Gesime), criado em 2012, contam hoje com 74 organizações e 36.500 trabalhadores. O uso racional da produção, o melhor aproveitamento e reciclagem de material e a substituição de importações são algumas das prioridades do grupo (incluída na lista de atividades da empresa a produção de envases e embalagens, cilindros de gás, estruturas metálicas no setor de construção civil, implementos agrícolas e sistemas para irrigação). A Antillana de Acero e a Scinox Las Tunas, por exemplo, estão focadas na exportação de aço e barras (ou cavilhas). Ambas cumpriram o estipulado pelo Plano da Economia no primeiro trimestre de 2017, ainda que investimentos significativos tenham sido feitos pelo Estado para que isso pudesse ocorrer (aportes de “maior envergadura” precisarão ser alocados para a Antillana nos próximos meses).

Já o projeto de ônibus interurbano “Diana” (a cargo Minfar, Mitrans e Sime, com a colaboração do grupo Gaz da Rússia e Yutong da China), iniciado em 2010, está dando bons resultados, de acordo com o governo cubano, com a fabricação, até o momento, de 1.300 coletivos e uma previsão de mais 480 unidades até o fim deste ano. Um novo ônibus, mais longo (10,8 metros), deverá ser testado em 2018 e efetivamente entrar em produção a partir do ano seguinte. Como parte do esforço combinado entre os diferentes setores econômicos, a Empresa Integral de Servicios Automotores, por sua vez, tem se dedicado a ampliar a oferta de peças de reposição na ilha, o que garantiria o pleno funcionamento dos equipamentos em boa parte do território nacional. A produção de bicicletas, por sua vez, deve atingir o patamar de 60 mil unidades até o final de 2017 e 115 mil em 2018. Com o apoio do capital chinês, se pretende, igualmente, erigir em breve uma fábrica de latas de alumínio na Zona Especial de Desenvolvimento (ZED) de Mariel, local que já conta com dezenove usuários de nove países.

A redução do consumo de energia, contudo, se mostra uma prioridade. As medidas são variadas e vão do autoabastecimento nos processos produtivos e troca de telhados por material transparente para diminuir o gasto com iluminação elétrica até a instalação de painéis solares nas fábricas e uso de bancos de capacitadores para reduzir as perdas. Todas essas opções têm sido estudadas pelas autoridades do país no sentido de racionalizar o consumo energético do setor industrial. Para isso se efetivar, estão sendo propostos também projetos como a construção de torres de geração eólica pela Companhia Metunas, turbinas de hidroenergia para a “Planta Mecánica” em Villa Clara e a montagem, no futuro, de ônibus elétricos. No caso da indústria de condutores elétricos e telefônicos (a Eleka), haverá um processo de modernização a partir de aportes financeiros da ALBA. A intenção do governo, em 2017, é de incrementar em 4,6% a produção de energia a partir de fontes renováveis.

Em relação à internet, a ETECSA planeja, aos poucos, penetrar nas casas de muitos cubanos, não só reduzindo os preços nacionais do serviço de navegação (que, a partir de abril, passou de 25 centavos de CUC para 10 centavos de CUC; ainda assim, um valor alto para a maioria da população), como criar 38 mil conexões nos lares dos consumidores. O objetivo oficial é facilitar o acesso a sites de “interesse cultural, informativo e investigativo de conteúdos nacionais”. O serviço Nauta chegou, em 2016, a 15 milhões de cartões temporais comercializados e 1.157 áreas públicas de navegação na rede (a cabo ou wireless), como sedes de companhias, correios, aeroportos e hotéis. Já sobre os telefones (99,29% digitalizados), o país possuía, em 2016, 5.323.000 linhas, das quais 1.323.000 linhas fixas e 4 milhões de linhas móveis, representando uma densidade telefônica de 47,37 linhas para cada 100 habitantes (por sua vez, são 5,32 telefones públicos para cada mil habitantes, com 59.800.000 aparelhos desse tipo em toda a ilha). A empresa criou, recentemente, novas formas para facilitar o pagamento dos serviços. Entraram em atividade, no ano passado, 108 novas estações de rádiobase em Cuba (44 somente em Havana) e a substituição e modernização tecnológica de 118. Em 2017, só no primeiro trimestre, começaram a funcionar 14 estações de rádiobase (GSM) e 99 “nodos B” (3G) em escala nacional. O projeto para 2017 é comercializar em torno de 500 mil novas linhas de telefonia móvel, inaugurar pelo menos cem novas salas de navegação de internet, criar mais 128 áreas públicas com cobertura wi-fi nas cidades e se esforçar para melhorar o serviço de atendimento e relacionamento com o público. Isso tudo é fundamental para aumentar a qualidade da internet local, que ainda está muito aquém dos serviços oferecidos na maior parte do mundo. As reclamações da população são constantes e aportes nesse setor poderão incrementar a velocidade e a capacidade geral dos equipamentos utilizados pelos cubanos.

Ao se tratar da racionalização produtiva, é importante também mencionar o papel da Unión de Empresas de Recuperación de Materias Primas, que engloba 25 companhias com 6 mil funcionários (sem contar com quinze cooperativas não agropecuárias de reciclagem). O resultado do trabalho da Unión foi a entrega de 240 mil toneladas de sucata ferrosa para as siderúrgicas (produção de aço líquido e derivados), representando uma economia de US$ 75 milhões em 2016, além de 28 mil toneladas de metais não ferrosos (cobre, bronze, aço inoxidável, chumbo e alumínio) reciclados, o que significou, por sua vez, uma poupança de US$ 30 milhões para o país. De outro lado, a mesma tonelagem de papéis descartados foi reciclada pela indústria da celulose, que teve como saldo US$ 4 milhões de economia. Além disso, o setor de garrafas e envases de vidro entregou mais de 106 milhões de unidades no ano passado (se as mesmas tivessem sido importadas, teriam custado em torno de US$ 23 milhões). Foram US$ 6 milhões as vendas para o exterior de “alambrón” de cobre, arame trefilado, sistemas de regadura geoestacionárias, implementos agrícolas e peças de reposição, em grande medida, para os mercados centro-americano e caribenho.

O quadro econômico mais amplo, ainda assim, certamente necessita de maiores avanços. Vários problemas ocorreram na ilha em 2016. O furacão Matthew, por exemplo, atingiu a província de Guantánamo, causando danos consideráveis em termos econômicos (como a produção de coco e cacau) e afetando 38 mil casas, além da infraestrutura viária, de comunicações e setor elétrico. As dificuldades internas da Venezuela, por sua vez, tiveram reflexos na importação de petróleo por parte dos cubanos. Em 2015, houve uma redução de 30,6% no total de bens e serviços exportados pela nação caribenha, e estimados 16,3% de diminuição em 2016 (a importação de bens, por sua vez, decresceu 10,4% em 2015). O níquel foi bastante afetado no ano passado (a produção foi de apenas 56 mil toneladas), assim como o açúcar, com uma safra insatisfatória. A importação de alimentos, de maneira geral, foi reduzida em 14% do previsto pelo governo. Não custa lembrar que houve um decréscimo de 0,9% do PIB no ano passado e que o prognóstico de crescimento para 2017 é de 2%, uma porcentagem ainda insuficiente para alavancar a economia da ilha.

Questões como o envelhecimento da população, taxa de natalidade pouco robusta, novos interlocutores cuentapropistas nas relações econômicas internas e a emigração são fundamentais no momento atual. É só lembrarmos que desde 2013 a emigração sustentada se elevou para mais de 50 mil pessoas por ano (em torno de 2 milhões de cubanos vivem nos Estados Unidos). O dinheiro enviado por eles para seus familiares na ilha é significativo. Os cubanos residentes no exterior, por sua vez, representaram, em 2016, o segundo grupo de visitantes provenientes de outros países (só ficando atrás dos canadenses).

A ampliação e a sofisticação da rede hoteleira são nítidas e se mostram como uma tendência para os próximos anos. Cuba tem hoje mais de 65 mil quartos de hotel e 17 mil em casas particulares. Vale recordar que na ilha a propriedade hoteleira é do governo, através de cinco cadeias (Cubanacan, Gran Caribe, Gaviota, Islazul e Palco), em grande medida, a partir do sistema de empresas mistas e associação econômica internacional. Das treze redes estrangeiras atuando no país, onze são da Espanha. Só a Meliá possui 28 hotéis. Além das companhias espanholas, estão operadoras do Canadá, França, Portugal, Jamaica e até mesmo dos Estados Unidos (em 2016, a Starwood assinou o primeiro contrato de gestão de uma rede norte-americana na ilha desde o triunfo da revolução em 1959). A estimativa é que até 2030 sejam criados 108 mil novos quartos de hotel.

O turismo, portanto, é visto como o setor mais dinâmico da economia cubana na atualidade. Afinal, em 2015 chegaram ao país 3.524.779 visitantes, representando um aumento de 17,4% em relação ao ano anterior e um cumprimento de 11% acima do estipulado pelo plano para o setor (foram 125 mil do Canadá, 36 mil da Alemanha, 35 mil da França, 32 mil do Reino Unido, 30 mil da Espanha e 26 mil da Itália, entre outros). Em 2016, por sua vez, a quantidade de turistas se elevou, significando 5% a mais do que o planificado pelos órgãos do Estado, com uma cifra estimada de 4 milhões de pessoas ingressando em seu território.

Ainda assim, com todas as mudanças pelas quais vem passando o país, é sempre bom recordar que o Partido Comunista Cubano e a União dos Jovens Comunistas continuam com um papel muito importante. Mesmo que tenha havido uma diminuição de 14% no número de filiados do PCC entre 1997 e 2016, o partido ainda conta com 670 mil membros. Se juntarmos o PCC e a UJC, perceberemos que ambas as organizações possuem em torno de 1 milhão de militantes, o que é algo bastante emblemático. Como se pode perceber, o país, apesar de suas limitações estruturais, tem se esforçado para intervir constantemente nos gargalos da economia e estimular seu desenvolvimento.

Luiz Bernardo Pericás é professor de História Contemporânea na USP, doutor em História Econômica (USP) e pós-doutor em Ciência Política pela Flacso (México) e pelo IEB/USP. Autor de Caio Prado Júnior: uma Biografia Política, em 2016 ganhou o Prêmio Juca Pato, intelectual do ano, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE)

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