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Golpes e internacionalismo

Assim como o capital se internacionalizou, é a hora de os trabalhadores internacionalizarem mais sua atuação e compreenderem que a luta restrita aos limites nacionais não basta. A absoluta injustiça da condenação de Lula só pode ser barrada se a mobilização do país se der ao lado da luta dos outros povos que também resistem à até aqui avassaladora hegemonia do capitalismo

Lula em coletiva

Lula é a maior figura histórica do Brasil contemporâneo, só comparável a Getúlio Vargas

Foto: FPA/Sergio Silva

Ultimamente, tem chovido em Salvador. Faz frio. Mundo louco, esse de hoje. Muito louco. Procuro pistas para entender outros climas. O da política, por exemplo. O golpe, por exemplo. São tantos os caminhos, um incessante caminhar na floresta, caminhar às vezes às cegas, em outros momentos alguns pontos de luz na densidade da mata, e a gente corre atrás, não para de andar, que há horizonte. Certamente há, mas ainda sem certeza da direção porque há uma tempestade, e na tempestade há que navegar, navegar é preciso, viver não é preciso, ondas gigantescas a nos levar de um lado para outro, sem que o barco esteja completamente sob controle, tentando pensar como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar, sem deixar de seguir viagem.

Tenho dito, insistido, por onde passo, e olhe que tenho andado, tenho falado, discutido, dialogado, tenho dito enfaticamente, quase gritado, que esse golpe não nasceu em 2016. Para falar como o velho sábio não foi um raio caído num dia de céu azul, não, não foi, vem lá de trás, segue nossa tradição, fortemente golpista, e nós nem sempre cuidamos de lembrar isso, cuidamos pouco ou quase nada da luta pela hegemonia, seguimos mal, ou não seguimos, a lição do outro sábio, o da Itália, o dos Cadernos1, a nos alertar, propor a luta cotidiana por corações e mentes, trincheira por trincheira, a nos falar de casamatas, do partido-mídia, e a gente a acreditar na domesticação da besta, do inimigo, crendo ser possível cevá-lo com algum, muito, dinheiro. Nem em outras casamatas pensamos, nem Judiciário, nem nada. E dançamos. Fomos abalroados já frágeis, os piratas subiram no nosso navio, e não querem sair tão cedo.

Procuramos entender, e não é fácil. Os piratas estão aí, por todo lugar. Curioso, não é fácil entender, ou não se quer entender, como um governo tão frágil, fruto de um golpe, muito frágil, um presidente golpista absolutamente titubeante, a promover gafes mundo afora, a envergonhar o país e nisso ele não economiza, como é que um presidente assim, nem simulação de bonapartismo, como é que faz reformas tão profundas, nessa rapidez estonteante. As coisas estão no mundo, minha nega, só é preciso entendê-las. Paulinho da Viola é mestre também para isso. É o mundo, cara-pálida, o mundo mudou, a roda gira, e agora numa velocidade com a qual não estávamos ainda acostumados, o capital percebe antes da gente, eis a verdade, o capital está mudando o mundo, e o quer à sua imagem e semelhança.

Não, não há um golpe no Brasil, desculpem a brincadeira, não tão brincadeira assim. Ele faz parte de um pacote bem pensado, arrumado, um projeto mundial, decorrente do sequestro da política pelo capital financeiro. Frágeis robôs, um Temer hoje, um qualquer amanhã, lição chinesa assimilada pelo capital, não importa a cor dos gatos, importa que cacem ratos, qualquer que seja o golpista à frente do governo, o importante é que entregue os produtos prometidos, tal e qual foi combinado, pensado, planejado, que nada aconteceu nem está acontecendo por acaso. Por isso, lembrar, o golpe vem de longe. Talvez não percebêssemos, mas desde o primeiro momento da chegada do PT ao poder, desde que Lula se tornou presidente o golpe é ideia fixa das classes dominantes locais e do capital internacional. Cresceu a ideia, é verdade, a partir de 2013, mas vem desde antes, desde a ficção mensalão, desenvolvida pelo partido-mídia, levado à frente com disciplina pelo sistema de justiça, abraçado por nossas classes dominantes e pelo partido meritocrático.

O golpe não é fenômeno localizado, não é apenas brasileiro ao menos. A crise do capitalismo, a partir de 2008, acelerou as exigências por mudanças profundas no mundo do trabalho, ou dito de outro modo, peço licença aos economistas por entender quase nada do ramo, mudanças no padrão de exploração, na organização de uma economia absolutamente espoliativa, na desregulação completa do universo dos que vendem sua inteligência e sua força ao capital, de uma extração selvagem da mais-valia, o trabalho à disposição do capital qualquer hora do dia ou da noite, nada de direitos, que isso é coisa do passado fabril-industrial, não da fase superuber uberista do capital. E aí o porrete desceu. Com uma força descomunal. Se já havia chegado aos países centrais, é olhar para a França e ver o que está ocorrendo lá, olhar para a Europa toda, tudo que é sólido desmancha no ar, e nada a favor dos trabalhadores, como se está vendo, se já havia chegado ao centro, era preciso chegar aqueloutros países que haviam feito ensaios de soberania.

A América Latina havia suspirado por uma década, com tantos governos progressistas, de esquerda, reformistas. Uma década e pouco de ouro, de mudanças. Agora, levada na mão grande a adequar-se aos novos tempos, nada democráticos, com o chamado Estado de Direito mandado às favas, Estado de Exceção como regra, e como é necessário ler o livrinho tão genial de Giorgio Agamben sobre tal Estado, golpes de novo tipo espalhando-se pelo continente, Brasil, a joia da coroa. Golpes ou eleições convalidando as novas políticas. Lembro sempre que os momentos de recessão, de depressão econômica, e que nunca é apenas econômica, atingem também e profundamente a subjetividade das pessoas. Nesses momentos é que se abrem as brechas para lideranças fascistas, autoritárias, não custa lembrar o nascimento de um Mussolini ou um Hitler na conjuntura dos anos 1930. O Estado de Exceção, no qual a lei é suspensa para dar lugar à interpretação livre do Estado sobre a lei, para o surgimento de um judiciário capaz de ignorar as constituições, esse Estado está inteiramente a serviço da nova fase de acumulação, da superexploração do trabalho, da desregulamentação completa autorizada, legalizada e apregoada como a libertação do indivíduo, como a liberação da energia de cada um, como a afirmação pela via do mérito. Que os orixás nos salvem dessa meritocracia tão arrogante, pretensiosa e autoritária.

O golpe de Estado no Brasil, sem direito sequer a um Luís Bonaparte, está inserido nesse cenário mundial, não podemos nos iludir, não devemos esquecer isso. Se o capital havia muito tempo se mundializava, e o velho sábio falava disso desde meados do século 19, agora sim não há para ele mais fronteiras. Há efetivamente uma multinacional capitalista, da qual se fala também desde há muito, a intervir na política, a submeter a política, sem que a elimine, mas constrangendo-a fortemente, e mais ainda quando consegue, como agora, muda inteiramente as condições de existência dos que vivem do trabalho.

A população trabalhadora, não mais concentrada em grandes unidades, horizontalizada, trabalho intermitente, seus sindicatos em fase de transição, às vezes perdida porque desacostumada a esse surpreendente mundo novo, está à procura de novas formas de organização e mobilização, de expressão, de luta, e não é fácil encontrá-las, sobretudo em tempos de comunicação em rede, na qual muitas vezes conta menos a presença física, e mais a atuação na rede midiática. O esforço do capital é matar a política, criminalizar a política, pensar em governos à Friedrich Von Hayek, pai do neoliberalismo, com seu conselho de governo de sábios com cidadãos brancos engravatados de paletó preto, a disputar eleições de 15 em 15 anos.

Assim como o capital se internacionalizou, e internacionalizou sua atuação política, disseminou sua ideologia, colocou em prática o seu programa por todo o mundo, consegue fazer aplicar suas palavras de ordem, é a hora, e é urgente, de os trabalhadores, não obstante suas dificuldades, mesmo em meio a alguma perplexidade, internacionalizarem mais sua atuação. É preciso compreender que a luta restrita aos limites nacionais não basta, não tem a eficácia de antes. Que a absoluta injustiça da condenação de Lula só pode ser barrada se, lado a lado com a mobilização do país, ela se der ao lado da luta dos outros povos que também resistem à até aqui avassaladora hegemonia do capitalismo, hegemonia que há de encontrar contraponto com outras vozes, com um outro programa para a humanidade.

Se é verdade que a luta se dá em cada país, com suas singularidades, não há como nos afastarmos da clara noção de que não podemos seguir nos estreitos limites de cada Nação. Se ontem o velho sábio insistia na consigna de trabalhadores de todo o mundo uni-vos, hoje com muito mais razão. Trabalhadores do Brasil, uni-vos, de braços dados com os trabalhadores de todo o mundo. Para derrotar o golpe aqui, para lutar pela democracia no mundo todo, para lutar contra a exploração da humanidade, para pensar e lutar por um outro mundo, só possível com a construção dessa unidade, por mais difícil que ela se nos apresente.

Está visto, no caso brasileiro, para completar-se o golpe, o grande capital já decretou quem é seu João Batista. Querem a cabeça de Lula, e para tanto não precisam de provas. Lula é a maior figura histórica do Brasil contemporâneo, só comparável a Getúlio Vargas, que as classes dominantes pretenderam tirá-lo de cena, e o fizeram, com ele imolando-se para evitar o golpe já consumado. E querem a cabeça do Lula porque sabem o que ele significa, sabem o lado dele, sabem o que significou sua irrupção na cena política brasileira, sabem que ele conseguiu promover a maior distribuição de renda do planeta no período em que governou, é contra isso que os senhores do capital se batem.

Ele não pode voltar – esta a palavra de ordem do grande capital nacional e internacional. E há funcionários dispostos a cumprir a tarefa, insista-se, mandando-se às favas quaisquer conjeturas sobre Estado de Direito ou outras formalidades. Resta que a política diga não a essa pretensão. A política é efetivamente o reino do milagre, aquela que pode contrariar o que parece impossível, e será a mobilização do nosso povo que pode impedir isso, garantir que Lula dispute as eleições de 2018, reconquistar a democracia, retomar a caminhada de distribuição de renda apenas iniciada nos governos de Lula e continuada no primeiro mandato de Dilma, que o segundo praticamente não existiu.

E ir além, chamar o mundo pra essa luta, incorporar a América Latina nesse combate, solidarizarmo-nos com aqueles países vítimas da mesma ofensiva conservadora, promover quem sabe uma espécie de Caravana da Cidadania latino-americana pela afirmação da política, aquela voltada à continuidade da jornada de libertação do continente, chamar os povos da região a essa luta compreendendo que o destino de todos está entrelaçado. E nessa caminhada preservar Lula como grande liderança não só do Brasil, isso é reconhecido por tantos líderes mundiais, que sempre soube defender os interesses do Sul contra a voracidade do Império do Norte, e sempre ao lado dos trabalhadores de todo o mundo.

Emiliano José é jornalista e escritor

Notas
  • 1. Nota da redação: O autor se refere a Antonio Gramsci, autor de Os Cadernos do Cárcere.
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