Reflexões sobre o processo eleitoral de 2014

A presidenta Dilma elegeu-se com um discurso progressista, de esquerda. No entanto, o cenário que se descortinou para o PT não foi dos melhores. Temos muito que analisar, pensar, e a partir dessas reflexões buscar novos caminhos. Continua muito forte, especialmente nos grandes centros urbanos, o sentimento contra o partido

 Belo Horizonte e seu entorno mandaram-nos um sinal inquietante

Belo Horizonte e seu entorno mandaram-nos um sinal inquietante

Foto: Ichiro Guerra/Dilma 13

A reeleição da presidenta Dilma Rousseff deu-se em um contexto de disputa política renhida. No primeiro turno pairou sobre nossa campanha, por um breve tempo, a sombra da candidatura pelo PSB de Marina Silva. Logo a sombra se desvaneceu, em face da inconsistência manifestada pela candidata. No segundo turno, a disputa com o senador Aécio Neves (PSDB) tornou-se o enfrentamento com a direita, que teve nos grandes meios de comunicação, com pouquíssimas e honrosas exceções, seu núcleo mais poderoso e disseminador de outros focos de resistência, alguns, inclusive, assumindo posturas agressivas e violentas.

A intensa participação do ex-presidente Lula, com seu carisma e extraordinária capacidade de empatia e comunicação, e a vigorosa adesão dos movimentos sociais, lideranças e militantes da esquerda foram fundamentais para assegurar a vitória. A aproximação entre velhos combatentes das causas populares e as gerações mais novas constituiu um belo cenário da campanha, que encontrou plena correspondência na votação maciça dos mais pobres e das classes trabalhadoras assalariadas. Ficou claro, por maiores que sejam as concessões que façamos, que a grande maioria dos mais ricos não gosta de nós, como de resto não gosta do Brasil e de nosso povo.

A presidenta Dilma elegeu-se com um discurso progressista, de esquerda.

No entanto, o cenário que se descortinou para o Partido dos Trabalhadores não foi dos melhores. É verdade que ganhamos os governos de Minas Gerais, Bahia, Ceará, Piauí e Acre. Perdemos o do Rio Grande do Sul. Tivemos desempenhos pífios em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina, e na velha e sempre querida Província Rebelde, o estado de Pernambuco, nos salvamos pela esplêndida votação de Dilma no segundo turno. Mas o partido foi muito mal. Tivemos reduzida em dezoito deputados nossa bancada na Câmara Federal. Elegemos apenas dois senadores. Caiu muito nossa votação nas grandes cidades e regiões metropolitanas.

Temos muito que analisar, pensar, e a partir dessas reflexões buscar novos caminhos. Continua muito forte, especialmente nos grandes centros urbanos, o sentimento contra o PT. As causas e as consequências futuras desse estado de espírito de setores da população em relação a nosso partido e a nosso projeto devem ser objeto de estudos em outros espaços.

De outro lado, tivemos em Minas Gerais um resultado positivo. Elegemos o governador Fernando Pimentel no primeiro turno, aumentamos em 25% nossa bancada federal e praticamente mantivemos a bancada de deputados estaduais. A presidenta Dilma foi vitoriosa nos dois turnos, e seguramente foi no estado que governou que Aécio teve sua mais significativa derrota.

Cabe registro, todavia, que Belo Horizonte e basicamente toda a região metropolitana fizeram uma clara opção à direita. Em Contagem, salvou-se com esplêndida votação para deputada estadual a ex-prefeita Marília Campos. Os votos dados à candidata estão diretamente vinculados a seu carisma pessoal e ao excelente governo que realizou na cidade.

Com 80.262 votos, fui o deputado mais votado da capital mineira, tendo o segundo colocado da oposição obtido 46.370 e o segundo do PT, 27.549. Nossos votos decorreram também de nossa relação histórica com a cidade. Penso que o mesmo raciocínio, em outro nível, aplica-se à expressiva votação na capital do governador eleito Fernando Pimentel.

Feitas as ressalvas, podemos afirmar que Belo Horizonte e seu entorno mandaram-nos um sinal inquietante. É preciso compreendê-lo para não nos tornarmos no futuro o partido dos grotões. A propósito, importa lembrar a volta dos currais eleitorais, inclusive nas grandes cidades, como foi o caso de Belo Horizonte. Os novos coronéis são determinadas “lideranças comunitárias”, que prestam alguns serviços às comunidades pobres e depois cobram em forma de votos. Esse novo mandonismo local incide de forma mais vigorosa nas campanhas proporcionais do que nas majoritárias, especialmente para a Presidência da República e o governo do estado, que contam com maior divulgação, debates, e também pelos interesses que despertam. Incide de forma mais vigorosa nas campanhas proporcionais.

Enfim, ganhamos as eleições no Brasil e em Minas. Temos muitos desafios pela frente. A reforma política é um deles.

Patrus Ananias é deputado federal eleito pelo PT-MG

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