“A Tolice da Inteligência” ou a dívida do vício à virtude

O livro mais recente de Jessé Souza apresenta entre suas virtudes uma trajetória acadêmica de pesquisas empíricas e teóricas de fôlego, um profundo conhecimento sobre o debate contemporâneo na sociologia, uma atitude crítica em relação aos cânones do pensamento brasileiro e uma postura iconoclasta com o muito do que há de pedante e colonizado na nossa universidade. Já entre seus vícios, está o reducionismo pautado na clivagem do 1% contra os 99% restantes da sociedade brasileira, a descontextualização de alguns clássicos nacionais e a limitação das suas análises sobre o capitalismo contemporâneo

No modelo de estratificação social de Jessé boa parte da classe trabalhadora fic

No modelo de estratificação social de Jessé boa parte da classe trabalhadora fica sobrando

Foto: Stringer/Reuters

É difícil fazer uma análise isenta do livro mais recente do sociólogo Jessé Souza, A Tolice da Inteligência Brasileira – ou Como o País se Deixa Manipular pela Elite (Leya, 2015, 272 p.) O autor conseguiu nesse ensaio – gênero literário no qual se sente bem à vontade – a proeza de chacoalhar o debate sobre o pensamento brasileiro.

O livro é composto de quatro partes. Na primeira e na segunda, o autor procura fazer uma discussão crítica sobre o pensamento conservador das “elites brasileiras”. Na terceira, apresenta a sua interpretação alternativa sobre a sociedade brasileira e os mecanismos pelos quais ela naturaliza a desigualdade e cria espantalhos de modo a manter os seus privilégios. Na quarta parte, ele discorre sobre estratificação social e as manifestações de junho, para no último capítulo descrever de maneira antecipatória os atores e a cena política dos primeiros meses do ano corrente. Para o leitor de esquerda, que vive intensamente o clima de radicalização política, o livro pode fornecer um alívio temporário da dor. Mas pode também entorpecer.

Isso porque seus vícios são devedores de suas virtudes. No lado das virtudes, encontra-se uma trajetória acadêmica feita de pesquisas empíricas e teóricas de fôlego, um profundo conhecimento sobre o debate contemporâneo na sociologia, um estilo arrojado e didático, uma atitude crítica em relação aos cânones do pensamento brasileiro e uma postura iconoclasta com o muito do que há de pedante e colonizado na nossa universidade. No lado dos vícios, o reducionismo pautado na clivagem do 1% contra os 99% restantes da sociedade brasileira, a descontextualização de alguns clássicos nacionais, “sequestrados” de sua historicidade, o desconhecimento da tradição crítica da inteligência brasileira, não só universitária, e a limitação das suas análises sobre o capitalismo contemporâneo.

Com certeza, vale a leitura do livro, pois quem o acompanha tem a certeza de que aprendeu com o monólogo. Mas como o autor fecha todas as portas ao debate, não custa abrir algumas delas.

Na primeira parte do livro, o autor mostra como o weberianismo bastardo teria predominado nos quatro-cantos do mundo, especialmente a partir dos anos 1930, por meio da “teoria da modernização”, que estabelece uma dicotomia entre os países “modernos” e os “tradicionais”. Estes deveriam seguir aqueles, adotando seus comportamentos e instituições. Para Jessé, os pensadores brasileiros professariam uma espécie de “racismo culturalista”, de modo a marcar uma diferença abissal entre “nós” e “eles”.

Jessé afirma também que a “teoria da modernização” segue dominando o debate mundial. Isso é apenas uma meia verdade, pois o debate acadêmico é muito mais plural do que o autor dá a entender. Mas o principal problema reside do fato de que ele joga na lata do lixo da história toda uma tradição crítica da reflexão brasileira e latino-americana – desenvolvida por Caio Prado Jr., Celso Furtado, Florestan Fernandes e tantos outros – e que encontra o seu ápice nas assim chamadas “teoria do subdesenvolvimento” e “teoria da dependência”. No caso de Florestan, Jessé recorre ao sociólogo de maneira tópica e com objetivos bem delimitados.

Ora, foram essas formulações que desferiram o maior ataque à “teoria da modernização”, no intuito de compreender a dinâmica das estruturas do capitalismo “subdesenvolvido” e “dependente”. Por meio desses esquemas de interpretação, procurou-se justamente entender de maneira integrada a especificidade dessas sociedades e economias, sem recursos a quaisquer traços pré-modernos. O subdesenvolvimento era encarado como processo autônomo e derivado do processo de expansão internacional. E a dependência remontava à complexidade das estruturas políticas e sociais na periferia durante a industrialização. Jessé, com um simples peteleco, joga essa tradição para as notas de rodapé, apodando os seus autores de “economicistas”.

Essa é uma falha inaceitável para quem procura construir um pensamento crítico no Brasil. Não se trata de tecer loas a esses autores, que devem ser investigados e “atualizados”, na medida do possível, resguardado o seu método de análise – labor deles, nossa herança.

Jessé acaba por comprometer parte do seu empreendimento teórico, na medida em que associa a “tolice” da inteligência brasileira a duas tradições de pensamento: a “culturalista conservadora” e a “economicista”, que ele não conhece, pois usa como “representante” desta última – pasmem! – ninguém menos do que o sociólogo Francisco de Oliveira.

Caso Jessé conhecesse os economistas “mercadistas”, o que pensam e o que dizem sobre o capitalismo brasileiro, ele teria argumentos de sobra para aprofundar a sua tese. Isso porque eles usam o Raymundo Faoro que lhes interessa – não à toa, justamente o que consta da análise de Jessé, o da suposta dicotomia entre Estado e mercado, que tão bem revela o pensamento das nossas elites, não “tolas”, mas colonizadas por formação e interesses de classe bem definidos.

Tal ponto é importante pois aí reside a segunda falha do edifício do sociólogo. Ele não realiza uma sociologia da cultura, ou melhor, da recepção e apropriação das ideias de autores – insisto – “sequestrados” de sua historicidade. Chega a dizer que não importa, para os objetivos do seu ensaio, qual era a intenção daquele que foi guindado à posição de “gênio” da “tolice da inteligência brasileira”, Sérgio Buarque de Holanda.

Se Gilberto Freyre é o “pai-fundador da concepção dominante do senso comum sobre a brasilidade”, Sérgio Buarque de Holanda é o responsável por lhe dar “chancela científica”. O autor de Raízes do Brasil não gosta da “imagem positiva” do “mestiço is beautiful” criada pelo sociólogo pernambucano e a vira pelo avesso. Cunha o mito do “homem cordial” a partir de uma herança portuguesa idealizada. O personalismo se institucionaliza sob a forma de patrimonialismo que impede o desenvolvimento nacional. O Estado distribui privilégios aos “amigos”, o que se explica pelo “estoque cultural” que condena as nações ao inferno ou ao paraíso. Trata-se de um “conto de fadas para adultos”, segundo Jessé. De fato, ele cria o “conto de fadas” para o seu próprio uso e, literalmente, descarta Sérgio Buarque.

Não tenho procuração e, tampouco, conhecimento suficiente para defender Sérgio Buarque das críticas de Jessé, algumas das quais, inclusive, endosso. Se ele (Jessé) fosse menos arrogante na sua fúria iconoclasta, seria mais certeiro, além de mais honesto intelectualmente.

Digo isso porque, de um lado, Sérgio Buarque ao verificar o mau uso que poderiam fazer de suas ideias – especialmente do “homem cordial”, que tantas vezes ele teve que defender das interpretações equivocadas de seus coevos – havia se desgostado da sua obra de juventude. De outro, porque existe tensão e dialética entre os tipos ideais utilizados por Buarque (aventureiro x trabalhador; semeador x ladrilhador; rural x urbano, família x Estado), especialmente a partir da ruptura causada pelo fim da escravidão e a emergência do urbano. Tudo isso passa batido a Jessé, já que o Sérgio Buarque que ele lê não é do liberalismo oligárquico da Primeira República, mas o do Brasil das classes médias “tolas” e “otárias”, como se fossem às ruas convocadas, não pelo Movimento Brasil Livre (MBL), mas pelo livrinho laranja do pai do Chico.

Importa ressaltar ainda que quando Sérgio Buarque se refere ao “lamentável mal-entendido da democracia no Brasil” não está se referindo a algo idealizado, mas situando-se no contexto da predominância de uma “aristocracia rural e semifeudal”. A República, por sua vez, teria criado apenas uma “plutocracia”, sugerindo que os interesses econômicos foram preservados por meio da “separação entre a política e a vida social”. Portanto, a leitura de Jessé é, para dizer o mínimo, interesseira e pouco cuidadosa. Mas ele precisa, para causar frisson, situar a origem do pensamento colonizado no Brasil. Alguém deve ser sacrificado na cruz.

Como se não bastasse a “síndrome conservadora”, que encontraria as suas raízes em Sérgio Buarque, há ainda “a pobreza espiritual tanto da universidade quando do espaço público brasileiro, avesso ao verdadeiro debate e à crítica de ideias”. Esse comentário infeliz vai na contramão do que Jessé almeja. Ao ceder, por vezes, ao tom polemista fácil, ele, infelizmente, se equipara a certos colunistas da Veja.

Algo semelhante se passa na análise sobre Raymundo Faoro. Em vez de uma oposição entre o mercado (virtuoso) e o Estado (corrupto), como insiste Jessé, parece-me que Faoro procura localizar o patrimonialismo brasileiro, ou o estamento burocrático, no contexto de um “capitalismo politicamente orientado” – que constantemente se recompõe por sua maleabilidade em face das mudanças, asfixiando a nação enquanto espaço de aglutinação das forças sociais transformadoras. Confesso que encaro essa abordagem como a-histórica e apriorística, mas a oposição não se dá necessariamente entre Estado e mercado, ainda que ele idealize, sim, o “capitalismo moderno” cujo modelo principal é o anglo-saxão, e acabe vendo o caso brasileiro sob as lentes deturpadas desse espelho. Não obstante, essa interpretação de Faoro lhe permitiu desferir críticas acerbas ao governo FHC pela transferência de recursos ao setor privado por meio de negociatas estatais. Faoro sabia muito bem que não existe mercado que esteja a salvo da presença do Estado no Brasil. O seu problema estava em imaginar que no restante do mundo a situação fosse radicalmente diferente. Nesse ponto, a crítica de Jessé é procedente.

Todavia, os méritos do livro são tão grandes quanto os seus defeitos. Onde avança Jessé? Em relação a suas obras anteriores, especialmente A Ralé Brasileira, muito pouco. Mas permite ao leitor não familiarizado com a sua obra o acesso direto aos conceitos básicos, por meio de uma linguagem fluida e certeira.

O cerne da contribuição de Jessé reside na tentativa de mostrar que as sociedades modernas “centrais” e “periféricas” não são tão distintas como parecem.

Qual a particularidade brasileira? Está na sua classe média que “tira onda” de “revolucionária”, como bem mostra Jessé. Como assim? A “ideologia do jeitinho”, nosso “mito nacional dominante”, cumpriria um papel estratégico ao nivelar todas as classes sociais por baixo. Seríamos todos “pré-modernos” e “relacionais”. Como resultado, o Estado funcionaria como o espaço da “corrupção organizada”. Portanto, todos os males estão no Estado e apenas o indivíduo se salva. Tudo se passa como se o acesso ao capital econômico e ao capital cultural se desse de maneira virtuosa para os grupos sociais abnegados que ascendem pela via da meritocracia.

Essa é a farsa em torno da qual está montada a sociedade brasileira e as suas “classes do privilégio”, compostas pela classe média e pelos endinheirados. Esses capitais não possuem nada de “impessoais”, são “monopolizados” e trazem junto consigo um “capital de relações sociais” poderosíssimo. Eles é que estabelecem a hierarquia social. É justamente no âmbito das instituições do mercado e do Estado que se produzem privilégios para uns poucos. De outro lado, estão as classes que não têm acesso ao mercado ou ao Estado, “as classes do corpo”, que sofrem na pele a precariedade das instituições públicas de ensino, saúde, justiça etc. Essa má-fé institucional seria a responsável por fazer com que alguns brasileiros (a ralé) não assimilem comportamentos associados ao princípio da dignidade, do trabalho útil, da autoestima e do reconhecimento social. A “meritocracia” lhes está vedada desde o “berço”, pois não existe igualdade de oportunidades. Devem servir aos privilegiados, cuidar de seus filhos, fazer o trabalho indigno, se prostituir. Pior, o Estado enquanto espaço de universalização de direitos e de exercício da cidadania não pode ser acionado, pois já foi descartado junto com a água do banho pela "ideologia do jeitinho".

Mas qual o diferencial das sociedades como a brasileira com relação às sociedades centrais? Para Jessé, a diferença é mais quantitativa que qualitativa e pode ser observada pelo percentual de excluídos em cada país ou a partir da “fronteira objetiva da dignidade humana”, que encontra “graus distintos de institucionalização” em cada sociedade. Essa é uma contribuição relevante, apesar de eu achar que as diferenças de fundo sejam bem mais expressivas.

A discussão sobre as classes sociais no Brasil é instrutiva, porém insuficiente. Depois de colocar Marcelo Neri e Marcio Pochmann no mesmo patamar – por serem “economicistas”, já que não percebem “a gênese e a reprodução das classes” no Brasil – ele se remete à “fase atual do capitalismo sob a hegemonia do capital financeiro”. Existe, portanto, uma “lógica abstrata e geral do capitalismo que se expande para todo o globo”. Os “excluídos sociais” conformariam as “classes sociais globais”, sendo encontradiços em todos os cantos do mundo. A sua interpretação do capitalismo é frouxa e não dá conta da diversidade da cena internacional. Ele pega apenas o que salta aos olhos.

Aliás, o modelo de estratificação social que Jessé veio montando aos poucos para o Brasil – e que inicialmente possuía só os extremos, as classes do privilégio e a ralé – mais recentemente veio a ser acrescido pelos “batalhadores” que ascenderam no governo Lula. Mas boa parte da classe trabalhadora fica sobrando, sem lugar no seu esquema. A riqueza está na investigação das suas formas de sociabilidade desses estratos sociais, ainda não plenamente decodificados e “mensurados”.

A sua observação sobre “a fase atual do capitalismo” revela que o autor, tão cioso em questionar o economicismo alheio, mal se apercebe de que acaba incorrendo num  economicismo estreito, ao tomar o capitalismo global como se fosse um bloco. É aqui que a lição de Caio Prado, Celso Furtado e Florestan Fernandes lhe faz falta, como também a de autores como Fernand Braudel, Robert Boyer, Giovanni Arrighi, para citar apenas alguns. Sequer cogita que as engrenagens locais do capitalismo dependem também, mas não apenas, das formas de inserção de cada economia no sistema mundo capitalista reconfigurado em novos centros, periferias e semi-periferias, o que por sua vez afeta os processos espaciais de estratificação social.

Ao fim e ao cabo, a impressão que fica é a de que o livro de Jessé pode ser enquadrado, com suas “ideias claras, lúcidas e definitivas”, como um exemplo da “atonia da inteligência”, que o historiador Sérgio Buarque flagrou, para o seu desgosto, como a “verdadeira essência da sabedoria” entre nós.

Alexandre de Freitas Barbosa é professor de História Econômica e Economia Brasileira do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP)

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