Economia

Inovações econômicas e tecnológicas, aliadas a mudanças nas relações de trabalho, permitiram que as principais nações industrializadas experimentassem uma grande expansão na década passada. As análises convencionais, que atribuem poderes regulatórios absolutos aos Estados Unidos e predisseram a bancarrota do capitalismo, revelaram-se inconsistentes

Após dez anos de crise, caracterizados por estagflação; choques de preços do petróleo; choque da taxa de juros e consequente instabilidade financeira; relativa paralisia dos fluxos de acumulação produtiva de capital e expressiva redução das taxas de incremento da produtividade - entre 1973 e 1983 -, as principais economias industriais reencontraram a senda do crescimento econômico. E em consequência desta decisiva inflexão em sua trajetória, oito anos consecutivos de expansão sustentada, com estabilidade de preços, marcaram a evolução da economia mundial capitalista, entre 1983 e 1990.

Contudo, se as taxas médias de crescimento, nesta fase recente, não foram tão espetaculares, quanto às obtidas na "idade de ouro" do pós-guerra é, contudo, relevante destacar:

A vitória da estabilidade e da capacidade de sustentação do crescimento, sobre os recorrentes surtos de forte especulação cambial, causados pelo gigantesco e continuado desequilíbrio comercial dos EUA contra o Japão e a Alemanha. E, ainda, sobre dois verdadeiros terremotos especulativos ocorridos nos mercados mundiais de capitais, em outubro de 1987 e em janeiro de 1990, a partir das violentas "quebras" verificadas, respectivamente, nas bolsas de valores de Nova Iorque e de Tóquio.

Salienta-se também a retomada firme dos fluxos privados de acumulação de capital (com um pico globalmente sincronizado em 1988), acompanhados por uma sensível recuperação do incremento da produtividade e, mais importante, por uma aceleração crescente da difusão de inovações econômicas (técnicas, organizacionais e financeiras), nas principais economias industriais capitalistas.

A compreensão de que estas duas dimensões foram fortemente interdependentes é intuitiva. De um lado, a capacidade política de coordenar, com credibilidade, a estabilidade macroeconômica e, de outro, a aceleração da acumulação produtiva de capital com inovação, reforçaram-se mutuamente - alimentando um círculo virtuoso de expansão com estabilidade de preços, expressivo incremento da produtividade e aumento moderado, porém contínuo, dos salários reais.

A capacidade política de coordenar a conjuntura, apagando-se incêndios potencialmente devastadores com presteza, ficou evidenciada principalmente pela atuação harmoniosa das autoridades econômicas e, em especial, pela eficácia dos condutores da política econômica norte-americana em algumas situações decisivas. Neste sentido, cabe destacar: a) a rápida e coesa reação à surpresa do default mexicano, em 1982; b) a acomodação das falências financeiras, imobiliárias, agrícolas e especulativas nos EUA, entre 1983 e 1989; c) a notavelmente bem-sucedida orquestração da desvalorização planejada do dólar, entre 1985 (Acordo do Plaza) e 1987 (Acordo do Louvre), com fixação de mecanismos cooperativos de contenção à especulação cambial entre os bancos centrais; d) a competente e rápida atuação compensatória do FED, em 1987, e do Banco do Japão, em 1990, visando neutralizar a propagação dos impactos financeiros das "quebras" de suas bolsas de valores; e) o tratamento coordenado, duro e objetivo dispensado aos países devedores, evitando a ocorrência de defaults simultâneos e a formação de uma efetiva aliança entre aquelas Nações; t) a administração, ao mesmo tempo ágil, fria e calculada, com relação ao financiamento do déficit do balanço de pagamentos dos EUA - evitando-se o acúmulo de tensões críticas, com reação pronta e eficaz diante da instabilidade dos fluxos de capitais (desde a histórica remoção do IR na fonte sobre aplicadores estrangeiros, em 1984) e com sinalização compensatória das flutuações das taxas de câmbio e juros, de forma a domar expectativas instabilizadoras.

A inegável sensibilidade demonstrada pelas autoridades norte-americanas em relação às reações de seus principais parceiros nos campos financeiro e cambial (enquanto praticavam a velha política do big-stick no plano comercial) deve ser creditada, em grande parte, à fragilidade do balanço de pagamentos dos EUA. Deve-se creditá-la, também, à delicadeza necessária às intervenções sinalizadoras sobre os mercados internacionais voluntários de câmbio, capitais e aplicações financeiras. Com efeito, a sucessão de bem-sucedidos encontros de cúpula entre as lideranças da OECD, caracterizando uma fase de intensa coordenação política e de política cambial e financeira entre os Estados capitalistas, parece ter finalmente resgatado a tese kautskiana do "superimperialismo", isto é, de uma tendência à coalização deliberada dos Estados capitalistas, frente às crises econômicas e políticas.

Sem dúvida, afigura-se impressionante a cooperação entre as potências capitalistas, nos últimos anos. Mas mesmo ela não seria suficiente para assegurar a sustentação continuada dos fluxos (decisões) privados de investimento produtivo - num clima de instabilidade global -, sem a articulação e difusão, simultâneas, de um poderoso cluster de inovações, baseado em novas tecnologias de impacto abrangente, sobre o conjunto das estruturas industriais das principais economias capitalistas.

A aplicação (ou criação) através da microeletrônica, de uma base tecnológica comum a uma constelação de produtos e serviços, agrupou um conjunto de indústrias, setores e segmentos na forma de um "complexo eletrônico", densamente articulado pela convergência intrínseca da tecnologia da informação. A formação deste poderoso cluster de inovações capazes de penetrar amplamente, por via direta ou indireta, em todos os setores da economia, configura a criação de um novo paradigma tecnológico, no mais puro sentido neo-schumpeteriano.

As condições fundamentais para tal parecem ter sido preenchidas, a saber: amplo espectro de aplicação em bens e serviços; oferta crescente e suficiente para suprir a demanda na fase de difusão acelerada; rápida queda dos preços relativos dos produtos portadores das inovações, reduzindo de forma contínua os custos de sua adoção pelos usuários; fortes impactos conexos sobre as estruturas organizacionais, financeiras e sobre os processos de trabalho; efeitos redutores generalizados sob-e os custos de capital e efeitos amplificadores sobre a produtividade do trabalho.

As condições técnicas para a constituição do "complexo eletrônico" estavam estabelecidas, desde meados dos anos 70, nas economias industriais avançadas, com a aproximação das bases tecnológicas das indústrias de computadores e periféricos, telecomunicações, parte importante da eletrônica de consumo e um segmento da área de automação industrial. Mas foi ao longo dos anos oitenta, e especialmente na fase de crescimento mundial contínuo, depois de 1983, que a rápida difusão dos bens e serviços do complexo eletrônico preencheram inequivocamente as condições econômicas schumpeterianas, (já mencionadas), produzindo o que Christofer Freeman e Carlotta Perez denominaram um verdadeiro "vendaval de destruição criativa".

A força deste processo de inovações técnicas, sociais e gerenciais será, a seguir, evidenciada. Mas, de início, é preciso ressaltar que ela decorreu, em boa medida, da espantosa velocidade de redução dos preços relativos, viabilizada pela queda do custo real de processamento (bits/ US$), a partir da produção em larga escala de "chips" cada vez mais poderosos (exponencialmente), a preços cadentes. Em texto recente Paulo Tigre assim descreve: "A microeletrônica e suas aplicações têm satisfeito completamente estes requisitos. Tomando os computadores como exemplo, alguns estudos (Flamm, 1987) estimam que a redução média real dos preços dos equipamentos, em nível internacional, ajustados em termos de qualidade e performance, tem sido superior a 20% ao ano, nos últimos 20 anos. Tal redução de preços não tem paralelo na história econômica mundial".

Sete tendências

De forma sintética é possível destacar sete principais tendências de inovação que vêm emergindo no cenário mundial, nos últimos anos e que devem ganhar corpo ao longo dos anos 90, a partir da vigorosa expansão do complexo eletrônico.

• A emergência do complexo-eletrônico como principal complexo industrial e como epicentro da inovação;

• O aprofundamento da automação industrial integrada e flexível sob comando de computadores;

• A revolução correlata nos processos de trabalho, nas relações de trabalho e nos requerimentos educacionais;

• A revolução nas formas de organização e de gestão empresarial, com o avanço das redes-de-cooperação intra e inter- empresas;

• A globalização das relações financeiras e dos mercados de capitais, acompanhada de notável interpenetração patrimonial entre as grandes burguesias capitalistas;

• A emergência de novas formas de concorrência entre grupos de empresas oligopolistas, através de alianças tecnológicas;

• O aguçamento da competição mundial, através da construção deliberada de competitividade, como resultado de estratégias conjuntas entre Estado e setor privado.

O veloz crescimento do complexo-eletrônico (elenco de indústrias baseadas na microeletrônica), propulsionado pela rápida massificação de novos produtos com preços relativos fortemente cadentes, modificou a forma de articulação da dinâmica industrial e impulsionou a difusão ampla e acelerada das tecnologias de informação (genericamente aplicáveis). O peso do complexo eletrônico no valor da produção industrial da OECD ascendeu de cerca de 3% em 1975 para 11 % em 1988, superando em muitos casos a participação do complexo automobilístico, "carro-chefe" do padrão industrial dominante no século XX.