Cultura

Cinco livros acabam de ser publicados, remando contra a maré da "modernidade". Esforço dos familiares. E amigos.

Sônia Angel, Luiz Eurico Tejera Lisbôa, Paulo Wright e Carlos Marighella são apenas alguns dos assassinados pela ditadura militar implantada no país em 1964. São 30 anos.

Por uma característica própria da resistência dos anos 60 e 70 no Brasil e sobretudo pelas características da transição que ainda vivemos, a história daquele tempo permanece à sombra para a maioria da sociedade. A imagem dos militantes de então permanece muitas vezes ligada à versão oficial dos militares, ou a variantes criadas por alguns dos que sobreviveram e que, por serem apenas variantes, ganharam espaço na mídia.

Os debates, os projetos e sobretudo a singularidade daquelas pessoas que levaram sua generosidade ao limite, dificilmente vêm à tona. Não são tão poucos assim os trabalhos que tratam seriamente do assunto, sejam expressões de pesquisas, ficção, poesia, memórias etc. Mas, o fato é que esses não se massificaram enquanto informação, enquanto consciência, enquanto política ou enquanto memória coletiva.

Muitos fatores contribuíram e contribuem para isto, desde a "conspiração da mídia" (aqui vale lembrar comparativamente o filme Os anos de chumbo, da alemã Marghrette von Trotta), até pequenos e menores interes ses no meio da própria esquerda formada, a partir do final dos anos 70 etc.

A mesma esquerda que foi capaz de ser tão generosa em determinados momentos, é também capaz de grandes mesquinharias em outros. De jogos perigosos com sua própria história. Não adianta porém lamentar. É apenas o quadro hoje. Um dia, quem sabe, voltará a dar ibope (votos ou prestígio) ligar-se à retomada dessa história. Quem sabe?!

Hoje, em todo caso, não é de bom tom. Isto fica para os rotulados de "saudosistas", para "aquele pessoal que anda por aí carregando bauzinho de ossos".

Sobram familiares e meia dúzia de Branca Leone, os primeiros muitas vezes desrespeitados, "incapazes que foram de politizar o movimento".

São os mesmos e cada vez em menor número os que ainda hoje tentam esclarecer os assassinatos e ocultações de cadáveres, e recuperar a memória de uma luta que - queiram ou não alguns senhores - faz parte da história dos confrontos de classe no Brasil.

Neste momento em que palavras como "modernidade", "cidadania", "democracia" e "ética", sem qualquer qualificação clara do que significam e a quem servem, são as grandes panacéias nacionais, certamente é mesmo de mau gosto tratar desses outros assuntos.

Só queremos ser felizes? Só queremos "cidadania".

Sônia Angel, Luiz Eurico Tejera Lisbôa, Paulo Wright e Carlos Marighella são apenas alguns dos assassinados pela ditadura militar implantada no país em 1964. São 30 anos.

Por uma característica própria da resistência dos anos 60 e 70 no Brasil e sobretudo pelas características da transição que ainda vivemos, a história daquele tempo permanece à sombra para a maioria da sociedade. A imagem dos militantes de então permanece muitas vezes ligada à versão oficial dos militares, ou a variantes criadas por alguns dos que sobreviveram e que, por serem apenas variantes, ganharam espaço na mídia.

Os debates, os projetos e sobretudo a singularidade daquelas pessoas que levaram sua generosidade ao limite, dificilmente vêm à tona. Não são tão poucos assim os trabalhos que tratam seriamente do assunto, sejam expressões de pesquisas, ficção, poesia, memórias etc. Mas, o fato é que esses não se massificaram enquanto informação, enquanto consciência, enquanto política ou enquanto memória coletiva.

Muitos fatores contribuíram e contribuem para isto, desde a "conspiração da mídia" (aqui vale lembrar comparativamente o filme Os anos de chumbo, da alemã Marghrette von Trotta), até pequenos e menores interes ses no meio da própria esquerda formada, a partir do final dos anos 70 etc.

A mesma esquerda que foi capaz de ser tão generosa em determinados momentos, é também capaz de grandes mesquinharias em outros. De jogos perigosos com sua própria história. Não adianta porém lamentar. É apenas o quadro hoje. Um dia, quem sabe, voltará a dar ibope (votos ou prestígio) ligar-se à retomada dessa história. Quem sabe?!

Hoje, em todo caso, não é de bom tom. Isto fica para os rotulados de "saudosistas", para "aquele pessoal que anda por aí carregando bauzinho de ossos".

Sobram familiares e meia dúzia de Branca Leone, os primeiros muitas vezes desrespeitados, "incapazes que foram de politizar o movimento".

São os mesmos e cada vez em menor número os que ainda hoje tentam esclarecer os assassinatos e ocultações de cadáveres, e recuperar a memória de uma luta que - queiram ou não alguns senhores - faz parte da história dos confrontos de classe no Brasil.

Neste momento em que palavras como "modernidade", "cidadania", "democracia" e "ética", sem qualquer qualificação clara do que significam e a quem servem, são as grandes panacéias nacionais, certamente é mesmo de mau gosto tratar desses outros assuntos.

Só queremos ser felizes? Só queremos "cidadania".

Aliás, ainda há poucos dias, dois companheiros mais jovens me procuraram. Precisavam de fotos de um arquivo sob minha responsabilidade. Entre outras me pediam uma foto da "cidadania". Fiquei desentendido comigo mesmo. Sabemos todos que hoje em dia se fotografa e até se mede a aura. Outros conversam com duendes em seus jardins (acredito que não sejam os "anões" do Orçamento). Mas, foto da "cidadania"...

Apesar desse quadro "ideológico" os que não aceitam o gueto que lhes querem impor, continuam seu trabalho.

Cinco livros acabam de ser publicados, remando contra a maré da "modernidade". Esforço dos familiares. E amigos.

Os livros falam por si. E a impertinência e recalcitrância desses velhos jurássicos que insistem em resgatar essas memórias, é um grito ainda maior que os livros ou qualquer artigo que se possa escrever.

O livro O calvário de Sônia Angel, organizado por seu pai, João Luiz de Moraes, e narrado por Aziz Ahmed, tem certamente a história mais patética, retrato da transição: trágica, como a dos demais livros, Sônia é uma das "desaparecidas" políticas cuja família conseguiu resgatar a trajetória dos seus últimos dias, e chegar ao seu corpo.

Pois bem: não bastasse o fato do Estado jamais ter sido responsabilizado por este e demais, assassinatos e os torturadores jamais terem sido sequer processados, o juiz Gilberto Fernandes, da 8ª Vara Cível do Rio de Janeiro, atendendo ao pedido do brigadeiro João Paulo Burnier, mandou apreender o livro. O militar sentiu-se "difamado e caluniado" por trechos da publicação que o colocam na condição de torturador e autor de várias mortes de presos políticos. Ora, de acordo com várias denúncias e depoimentos de ex-presos políticos, o brigadeiro Burnier, à época comandante da Base Aérea do Galeão, teria participado diretamente de torturas a presos políticos. Segundo carta do escritor Alex Polari Alverga, dirigida ao Supremo Tribunal Federal, Stuart Angel Jones foi torturado até a morte na Base Aérea do Galeão pessoalmente pelo brigadeiro Burnier. Além disto, o capitão Sérgio Miranda de Carvalho (o "Sérgio Macaco") em sua conhecida denúncia sobre o caso Parasar, afirma ter sido convidado em 1968 pelo brigadeiro Burnier para participar de um plano terrorista, que previa vários atentados a bomba no Rio de Janeiro, inclusive a explosão do gasômetro. O objetivo seria o de responsabilizar a esquerda pelos atentados e provocar o fechamento ainda maior do regime, o que acabou sendo realizado com a decretação do Ato Institucional nº5, em 13 de dezembro daquele ano.

Os demais livros são: a reedição do Por que resisti à prisão de Carlos Marighella (1964), agora apresentado por Antonio Cândido e prefaciado por Jorge Amado; Rondó da liberdade, que reúne poemas de Carlos Marighella, com apresentação de Clóvis Moura (ver matéria à página 80).

O coronel tem um segredo - Paulo Wright não está em Cuba, uma delicada reconstituição da história do revolucionário de matriz cristã Paulo Wright, escrita por sua sobrinha Delora Jan Wright - a Lali, ainda adolescente quando do desaparecimento do tio, em 1973. Trata-se de um livro forte, força que vem do cuidado e carinho com que foi tecido. O trabalho é prefaciado por D. Paulo Evaristo Arns.

Por fim, uma belíssima declaração de amor à vida: Condições ideais para o amor, reunindo "poemas, manifestos e correspondência de um poeta-guerrilheiro", Luiz Eurico Tejera Lisbôa, o Ico. O livro foi organizado por Antonio Hohlfeldt, vereador em Porto Alegre pelo PSDB. Ico "desapareceu" em 1972, em São Paulo. Sua história e seu corpo só foram resgatados com o empenho do Comitê Brasileiro pela Anistia e de sua companheira, Suzana Lisbôa. O título do livro foi extraído de uma carta de Ico a Suzana, em 5 de julho de 1968:

"Não entendem que nós buscamos, em últimna análise, as condições ideais para o amor. Tanto no plano coletivo, como individual".

Ico, além de tudo, foi um grande poeta.

Alípio Freire é editor de T&D e do jornal Brasil Agora.