Internacional

Entrevista com Gregor Gysi, líder da bancada do PDS que fala sobre o fim da RDA, a conjuntura atual e as perspectivas futuras da Alemanha

As grandes manifestações populares no outono de 1989 levaram ao fim do "primeiro estado socialista em solo alemão". A República Democrática Alemã (RDA) deixava de existir por obra e vontade de seus próprios cidadãos.

Ao contrário de Praga em 1968, ou Budapeste em 1956, os 400 mil soldados russos acantonados no país assistiram a tudo sem sair dos quartéis: em Moscou governava Gorbachev com sua política de glasnost e perestroika.

A poderosa Alemanha unificada, que surgiu depois de 3 de outubro de 1990, é caracterizada por desigualdade e assimetrias sociais, políticas, econômicas e culturais.

O Partido do Socialismo Democrático (PDS), sucessor do SED que deteve o poder durante os 40 anos da RDA, é parte desta nova Alemanha. Sem socialismo" (Programa, 1993).

Praticamente inexistente na Alemanha Ocidental ele tornou-se a terceira força eleitoral nos estados da ex-RDA e, em Berlim Oriental, o maior partido após as últimas eleições regionais.

Teoria & Debate conversou com Gregor Gysi, líder da bancada do PDS, sobre o fim da RDA, a conjuntura atual e as perspectivas futuras da Alemanha. Aos 47 anos ele é seguro de si, carismático, irreverente e polêmico. Admirador do PT, acredita que o impulso de uma nova esquerda virá da América Latina.

Em que fracassou a tentativa de construção do socialismo na Alemanha Oriental (RDA)?
O socialismo real fracassou em primeiro lugar por ser absolutamente ineficaz. E isto vale para a economia, para a ciência, para a cultura e também para a sociedade como um todo. Nada era baseado em critérios de eficiência, o desperdício era determinante. Não existia quase nenhuma pressão econômica e em certo momento começamos a viver acima de nossas possibilidades. O pãozinho, por exemplo, não aumentou de preço desde 1949. Exigimos demais de nossos próprios recursos, as dívidas tornaram-se sempre maiores e todas estas deficiências econômicas foram disfarçadas, encobertas pela propaganda. O segundo aspecto é que esta estrutura socialista não era democrática e isto teve conseqüências: não possibilitou renovação porque não permitia novas idéias. Nosso Politburo desde 1946 até 1989 não sofreu nenhuma mudança significativa, apenas houve algumas mortes, uma ou outra expulsão e algumas renovações. Eles ainda pensavam como em 1946.

Do Politburo só se saía morto ou expulso?
Não havia na direção do partido e do Estado de fato nenhuma renovação.

Eles tinham o seu próprio mundo e viviam extremamente isolados, ou seja, não tinham mais nenhuma relação com a população, com sua maneira de pensar e de sentir.

Eles tinham até mesmo uma vila própria para morar, não é verdade?
Sim, em Wandlitz, ao norte de Berlim. No entanto, nós já tínhamos novas gerações que não viveram a segunda guerra mundial e o fascismo. As pessoas toleram estruturas antidemocráticas numa situação em que está em questão a própria sobrevivência. Mas quando este ponto foi ultrapassado e temos muitas pessoas com excelente qualificação, mas que não são chamadas a opinar, não têm acesso aos mecanismos de poder, suas opiniões não são realmente importantes para o desenvolvimento da sociedade, então elas sentem - precisamente quando já possuem um nível de vida mais alto - muito mais claramente a falta de democracia. Quando, por exemplo, ainda se tem fome, não se sente necessidade de viajar.

Mas se você já está saciado, você quer, principalmente quando jovem, conhecer o mundo e quando isto não é permitido, e nunca lhe é explicado o porquê desta proibição, então surge com certeza uma frustração.

E a diferenciação social entre a população?
O mesmo aconteceu no plano econômico com a introdução dos Intershops (lojas com produtos importados ocidentais) e dos Divisenrestaurants (restaurantes onde só se aceitavam marcos ocidentais e dólares como forma de pagamento). Com a introdução de duas moedas se acaba com os incentivos morais e de desempenho. Por exemplo, você tinha dois operários, um, bastante esforçado e o outro extremamente preguiçoso. O esforçado recebia a cada três meses uma bonificação, mas como ele não tinha acesso a dinheiro ocidental, não podia comprar nas lojas e comer nos restaurantes especiais. O seu colega preguiçoso por hipótese com uma tia na Alemanha Ocidental, por intermédio dela tinha acesso à segunda moeda e com isso um nível de vida muito superior ao de seu colega de trabalho.

Como era a relação do Estado com o meio ambiente?
Não éramos nem um pouco ecológicos. Tínhamos reservas ecológicas que no Ocidente as pessoas não conheciam, espécies que lá já estavam extintas, mas eram na maioria em regiões onde ainda não tínhamos chegado em função de deficiências econômicas. Eu diria: ecologia como resultado das carências econômicas. Por outro lado, causamos enormes danos nos rios com a indústria química. E quanto maior se torna o nível de vida das pessoas, mais importantes se tornam os seus direitos. Nós tínhamos uma gigantesca falta de estado de direito. Na verdade não socializamos, apenas estatizamos. Não possibilitamos a criação de nenhuma estrutura democrática, não empreendemos nenhuma reviravolta na relação com o meio ambiente, nunca tivemos eficiência na economia e na sociedade e, além disso, encobrindo tudo, uma propaganda mentirosa mostrava um mundo cor-de-rosa, indo até ao culto da personalidade que lembrava mais uma monarquia do que um país socialista. No fundo éramos mais parecidos com uma sociedade absolutista. Naturalmente pode-se dizer que dentro deste sistema também havia diferenças. De Kim II Sung, na Coréia do Norte, ou Ceausescu, na Romênia, até Kadar na Hungria, que foi certamente o mais modesto de todos.

Uma economia planificada aliada à falta de liberdades políticas fez com que, principalmente a partir dos anos 70, a economia parasse de crescer e até mesmo retrocedesse nos anos 80. Quais foram as causas da estagnação?
Existem muitas causas. O problema principal é que quando existe uma economia destruída, como depois da guerra, é urgente e necessária uma reconstrução planificada desta economia e naturalmente para isto é necessário organizar um certo centralismo. Mas depois já tínhamos uma certa estrutura econômica, com empresas de diferentes tamanhos. Entretanto não nos adaptamos à nova situação e isto se tornou um freio. Teríamos de ter aumentado consideravelmente a autonomia das empresas e os estímulos econômicos. Em princípio, se recebia sempre o mesmo, trabalhando bem ou mal. Com isto, também não importava para os trabalhadores na empresa se o plano seria cumprido ou não, ele era sempre considerado cumprido pela propaganda mentirosa, pois ele era simplesmente corrigido. Assim funcionava o velho truque: uma fábrica de tratores deveria produzir cinqüenta tratores no ano, dizia o plano. Até setembro eles tinham produzido vinte tratores, então já se sabia que não conseguiriam alcançar os cinqüenta. Faziam então a chamada correção do plano e o reduziam simplesmente para 25 tratores, porque sabiam que até dezembro produziriam 26. Assim, o plano tinha sido cumprido e produzido até um trator a mais...

Que papel cumpria o Comecom, conselho de ajuda econômica mútua, a organização econômica dos países do bloco soviético?
No Comecom foi articulada uma divisão de trabalho de forma a não gerar concorrência entre os países socialistas. No início, tanto a RDA como a Tchecoslováquia produziam bondes. Depois houve um acordo para que só a Tchecoslováquia os produzisse. Isto nos custou um absurdo, porque tivemos que trocar os trilhos todos, mas a partir daí não havia mais nenhuma concorrência.

A imagem da ex-Alemanha Oriental, divulgada pela imprensa, é muito caracterizada por racismo, criminalidade e principalmente desemprego. Cinco anos depois, os chamados Ossis, os ex-alemães orientais não querem um retorno da RDA? Qual é o balanço destes cinco anos?
O racismo na Alemanha Oriental não é maior do que na Ocidental, o que de forma alguma é uma desculpa. Temos aqui o fato de que o chamado cidadão comum aplaude as ações contra estrangeiros e isto foi especialmente ruim. A criminalidade aumentou consideravelmente, o desemprego é gigantesco, os problemas sociais são grandes, mas também a humilhação, que nem sempre é só uma questão social.

Humilhação em que sentido?
Quando, por exemplo, um professor universitário de matemática da antiga RDA perde a sua cadeira para um professor vindo do Ocidente, mesmo que ele tenha um emprego numa seguradora ganhando sete mil marcos por mês, o que é um ótimo salário, ele está no entanto, apesar de sua situação social segura, completamente humilhado. Muita gente na Alemanha Oriental hoje vê a RDA de outra forma. Porque eles vêem que, ao lado de tudo o que relatei de forma crítica, havia a tentativa de criar relações sociais mais humanas e mais solidárias. Mas não acredito que desejem viver novamente na RDA. Eles desejam uma Alemanha Federal modificada, que também considere os resultados do trabalho dos cidadãos da ex-RDA, onde também havia empresas muito modernas e um elevado nível educacional e cultural da população. Não acredito que eles queiram uma volta à RDA, mas acho que eles estão decepcionados com o Ocidente, com o capitalismo e desejam uma outra sociedade.