Especial

Penso que a maior lição foi a de me permitir ser o que eu quisesse ser! Acho que nem sempre concordou com minhas escolhas, mas incentivou que eu as tomasse...

Maiana e Alipio. Foto: Arquivo de Família

Nos conhecemos em outubro de 1975, não lembro bem como essa relação começou, não lembro do seu olhar, mas sei que foi ali que aprendi a amar meu pai e o mundo! Sim, meu pai amava o mundo, acreditava nele, sentia-se responsável por torná-lo um lugar melhor para todos. Por isso, para amá-lo, era importante entender, aceitar, admirar e encantar-se com todo esse amor! E foi assim, dia após dia, que eu fui aprendendo a viver sob a grandeza desse sentimento, fui descobrindo o quanto o amor ensina a gente a aprender. Ele me ensinou a nadar mergulhando no mar do Porto da Barra e a subir os rios de Itatiaia; sobre os medos, ensinou-me a nomeá-los, e insistiu para que eles não me paralisassem. Não impediu que eu me machucasse no caminho, pois nem sempre era possível me proteger, mas estendeu sua mão e ensinou-me a curar as feridas. Apresentou-me a diferença entre autoridade e autoritarismo e enfatizou que eu não abandonasse as minhas crenças e verdades. E que, para além disso, não desistisse de lutar pelo o que eu acreditava. Acompanhá-lo nas passeatas a favor das “Diretas Já”, assim como nas festas, bazares e reuniões nos diretórios mostraram-me como os momentos de luta podiam ser divertidos, eram momentos em que estávamos juntos em família e com amigos, grandes amigos, muitos, rapidamente, tornaram-se tios e tias do coração, nossa família foi sempre se reconstruindo, crescendo... Ouvindo com ele Nara, Bethânia, Gil, Caetano (...) aprendi a riqueza do botão “repet”! A dançar juntinho e que, às vezes, é necessário se deixar levar para que o passo dê certo. Aprendi, com seu senso de humor peculiar, a não perder nunca uma piada! Que rir torna a vida mais leve! Que um banho de chuva nos aproxima do divino... Alertou-me para que eu me mantivesse mais atenta aos gestos do que à fala e que todas as nossas ações são discursos políticos! Que é permitido errar, mas que a repetição de erros é também uma escolha, um jeito de ser de quem não assume as consequências e que pessoas assim, não são confiáveis. Meu pai me apresentou São Paulo quando, em um feriado de 1º de Maio, levou-me à Estação da Luz e me disse que essa cidade era muito maior do que os meus olhos alcançavam. Entramos em um trem e partimos para as mais diversas paisagens, eu tinha uns 8 ou 9 anos, não entendia tudo o que ele me falava mas, pelo brilho em seu olhar sabia que aquilo era importante! Ele falava muito sobre o valor de ser solidário, mas a compreensão veio quando um dia tocaram a campainha lá de casa, atendi e no portão um senhor, morador de rua, dos muitos que passavam por lá, perguntou pelo “do Bigode” (como chamavam meu pai), trazia na mão uma rosa vermelha e ofereceu: “É um presente de dia dos pais!” Penso que a maior lição foi a de me permitir ser o que eu quisesse ser! Assim ele me ensinou sobre a liberdade, acho que nem sempre concordou com minhas escolhas, mas incentivou que eu as tomasse, e vibrou comigo quando as coisas davam certo e se não dessem… estava lá, sem olhar de reprovação, sem um “eu te disse”, ele só estava lá e isso era o melhor que podia existir! Maiana Sipahi Viana Freire é professora