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Fundador do PT, Plinio Mello é protagonista da história das lutas operárias no Brasil

 

Agosto de 1978. Um militante socialista de 78 anos faz chegar uma carta às mãos de Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema que se destacava nacionalmente como liderança das primeiras grandes greves operárias do período. No texto assinado por Mário Pedrosa, dois socialistas históricos incentivam a nova liderança operária a lutar pela construção do Partido dos Trabalhadores, um partido com a consciência proletária de que você e seus companheiros estão imbuídos" (ver Carta a Lula, 1978).

O velho militante que encaminhou aquela carta ao Lula é Plínio Gomes de Mello. Foi ele também quem motivou e ajudou seu antigo companheiro de lutas, Mário Pedrosa, a escrevê-la. E é ele quem conta como surgiu a idéia da carta "Houve um congresso sindical no Rio de Janeiro, em que Lula e as grandes lideranças sindicais de São Paulo estavam presentes. Então, fui ao Pedrosa e disse que aquela era nossa oportunidade de comprometer mais o Lula como elemento revolucionário: ‘Eu acho que você devia fazer uma carta para o Lula, traduzindo o seu sentimento, porque você já está entusiasmado com o Lula, não é? Nada melhor do que traduzir isso num documento e mandar para o Lula. É uma maneira de você ficar com a consciência tranquila e ao mesmo dar uma contribuição séria para o movimento operário no Brasil'. E ele fez a carta. O começo foi escrito por mim".

Esse episódio marca o reencontro de Plínio Mello, jornalista, sindicalista, ex-deputado e militante socialista, com a luta pela construção de um partido de trabalhadores no Brasil. Uma luta que ele iniciou mais de cinqüenta anos antes, na década de 20, no Rio Grande do Sul, no município de Cruz Alta, onde nasceu em 21 de junho de 1900.

1922. Estudante de direito em Porto Alegre, aos 22 anos Plínio Mello se envolve na candidatura de Assis Brasil ao governo do Rio Grande, movimento de oposição a Borges de Medeiros que pretendia continuar no poder. Em 1923, a oposição tenta tomar o governo pelas armas, mas é traída e reprimida por Flores da Cunha. Desgostoso, Plínio vai para o Rio de Janeiro, onde permanece por quase um ano. Em 1925 segue para São Paulo, volta a estudar direito e conhece Mário Pedrosa e, Lívio Xavier, influências fundamentais em sua trajetória política.

1926. Com Dimas de Oliveira, Oscar Pedroso Horta e Alberto Muniz da Rocha Barros, Plínio Mello dirige a revista Mocidade, chegando a publicar três números. "O objetivo da Mocidade", diz ele, "era projetar uma campanha nacionalista, mas nacionalista no bom sentido, não no sentido pequeno-burguês. Essa fase, porém, termina sem grande êxito, porque aí surge Mário Pedrosa".

Advogado, vindo do Rio de Janeiro para trabalhar como jornalista nos Diários Associados, Mário Pedrosa torna-se amigo de Plínio e tem papel decisivo em sua definição política e ideológica. É Plínio quem afirma: "Em 1926, Pedrosa e Lívio Xavier já eram militantes do PCB (Partido Comunista do Brasil). Sob a influência de Pedrosa, deixei de ser um nacionalista ferrenho, convicto de que a solução dos problemas brasileiros só se daria através de um movimento daquela natureza. Transformei-me em 'aprendiz de marinheiro', me tornei simpatizante comunista".

1927. Influenciado pelo ideário comunista, em maio, Plínio Mello publica um artigo sobre fascismo e bolchevismo na revista do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo. "Nesse artigo, eu comparava os dois regimes e concluía: 'Mussolini é a retrógrada e indesejável reação guerreira, incompatível com as Conquistas da civilização. Lenin, não; ele simboliza a necessidade da revolução social, inevitável em nossa época, para a salvação da humanidade".

Em agosto, Plínio Mello rompe definitivamente com seu passado. Num discurso aos colegas e professores, faz uma crítica contundente ao ensino de direito (baseando-se em Pontes de Miranda e José Augusto César, juristas renomados) e torna pública sua adesão ao socialismo (ver trechos do discurso).

"Há um episódio gozado aí. O discurso foi proferido entre as arcadas da faculdade, no centro do pátio, sobre um banco", relembra Plínio. "No meio do discurso veio um bedel, em nome do diretor, informar que eu não poda estar fazendo anarquia lá na faculdade. Então, me voltei para meus colegas e indaguei se não era tradição da faculdade de direito a liberdade de manifestação do pensamento. Perguntei se devia continuar e o pessoal respondeu: 'Continua', aquela coisa toda. Então, continuei até o fim. Depois, fui levado até a porta da faculdade e saí, para sempre. Quer dizer, no fim do meu discurso rompi com a faculdade de direito e com a ideologia burguesa ensinada ali."

Algum tempo depois de abandonar a faculdade às vésperas da formatura, Plínio entra no PCB. Ele participa de um grupo de militantes e intelectuais filiados ou próximos do PCB em São Paulo, mas é apenas um "simpatizante ativo", como ele se classifica. Plínio Mello considera curiosa a maneira como entrou no PCB. Foi convidado, em certa ocasião, a participar de uma reunião daquele grupo (que contava com Everardo Dias, Licínio Martins e outros), na qual se discutiria a organização do partido em São Paulo. Compareceu à reunião e, convencido da necessidade de organizar o PCB no Estado, subscreveu o programa e filiou-se imediatamente: "Assinei a ficha ali mesmo, na hora. Tornei-me militante e membro da direção. Entrei por cima. Não tão por cima como o Prestes, mas por cima", comenta Plínio.

Sua primeira missão foi viajar ao Rio Grande do Sul para discutir com os comunistas gaúchos a influência e a importância da pequena burguesia, representada por Luís Carlos Prestes, na linha política do PCB. Naquele período começavam a se manifestar no Brasil os reflexos das profundas modificações introduzidas e já consolidadas no movimento comunista internacional.

O VI Congresso da Internacional Comunista, em 1928, desencadeara uma orientação ultra-esquerdista, mas, por aqui, o PCB ainda adotava a política de buscar alianças com a pequena burguesia, particularmente com o movimento tenentista, do qual Luís Carlos Prestes era o maior representante. Essa política, impulsionada pelo PCB, formalizou-se no BOC (Bloco Operário Camponês).

Naquela época ocorreu também uma dupla e grave cisão nas fileiras do partido: de um lado, Joaquim Barbosa, responsável sindical nacional do PCB, criticava a linha sindical da direção; de outro, um grupo de cinqüenta militantes censurava a falta de democracia interna, entre eles, Lívio Xavier, amigo e companheiro de Plínio.

Para resolver o impasse, realiza-se o Congresso do PCB, de 29 de dezembro de 1928 a 4 de janeiro de 1929, em Niterói. Entre os delegados por São Paulo está Plínio Mello, que fala sobre esse momento: "Eu não pertencia à oposição. Embora Lívio Xavier tivesse me contatado para que eu colocasse os problemas da oposição, não aceitei, porque era delegado pela direção do partido em São Paulo. Não podia fazer o jogo da oposição".

Apesar de o II Congresso ter sido convocado fundamentalmente para solucionar o problema da oposição de Joaquim Barbosa, nele definiu-se também a linha de atuação do PCB para as eleições de 1930, que levou à formação do BOC (nota).

A discussão da oposição barbosista foi a primeira realizada durante o congresso: "Astrojildo Pereira sustentou o ponto de vista de que a oposição tinha capitulado, desistido da luta, já que Joaquim Barbosa havia se afastado e militava individualmente, como grande líder do Sindicato dos Alfaiates do Rio de Janeiro. Entre os delegados só havia um elemento ligado à oposição barbosista, João da Costa Pimenta. Ele tentou defender a oposição, tons sem muito fundamento porque a situação estava difícil para eles. Assim, Astrojildo deu como liquidada a oposição. Pimenta continuou no congresso, mas ficou mais ou menos à margem dos acontecimentos".

Plínio se lembra de um russo, conhecido por Pierre, que era dirigente do Bureau Sul-Americano da Internacional Comunista e estava no congresso para participar dos trabalhos. "Ele concordou com a tese de Astrojildo, no congresso, e acho que por esse motivo perdeu as funções de direção no bureau. Aliás, com as resoluções tomadas no III Congresso, a direção do PCB ficou no 'índex' da Internacional Comunista e deixou de merecer confiança."

Isto porque as definições de linha de atuação política desse congresso contrapunham-se às orientações definidas no VI Congresso da Internacional Comunista. Na definição das linhas de atuação dos comunistas, o debate acirrou-se em torno da questão do agrarismo e do industrialismo, tese sustentada por Octávio Brandão, um dos fundadores e membro da direção nacional do PCB. Muito discutida no congresso, a tese de Brandão defendia a aliança prioritária do proletariado com a pequena burguesia, para a deflagração de uma "revolução democrática pequeno-burguesa".

"Prevaleceu justamente a tese do Brandão, que se firmou como uma espécie de orientação teórica do PCB. Essa orientação foi objeto de cerrada crítica posterior por parte do Bureau Sul-Americano da Internacional Comunista. A tese defendia que a aliança do proletariado com a pequena burguesia devia ser feita através do PCB e da Coluna Prestes. Tanto que fui encaminhado ao Rio Grande do Sul para ser candidato pelo BOC em Porto Alegre."